
Por trás do boicote à reunião do PP, marcada para a próxima terça-feira (20), está uma disputa interna entre os grupos do deputado estadual Ernani Polo e do deputado federal Covatti Filho. Convocado na semana passada, o encontro previa decidir o rumo do partido na eleição ao governo do RS.
A decisão foi anunciada em uma carta aberta assinada por 21 membros do diretório — alguns dos principais expoentes do PP, todos alinhados a Polo (veja, mais abaixo, a íntegra do documento).
"As lideranças do partido, signatárias desta carta, informam que não veem legitimidade e, portanto, não participarão da reunião convocada. E fazemos isso para manter a unidade partidária e evitar atritos internos intransponíveis", diz trecho da carta.
Além de quatro dos oito deputados estaduais, dois dos três federais e o senador Luis Carlos Heinze, subscrevem o documento o ex-governador Jair Soares e o presidente de honra da legenda, Celso Bernardi.
— Eu não vou nessa reunião. Não é uma data oportuna, não há tempo para se fazer esse debate. Não houve sequer consulta à comissão eleitoral e não há como ouvir os presidentes municipais — diz Celso Bernardi.
Entre Zucco e Gabriel
A decisão ocorre em meio ao crescimento da tensão entre os grupos de Covatti e de Polo. Oficialmente, ambos postulam uma candidatura ao Piratini, mas nos bastidores há movimentos distintos em cada lado:
- Covatti tenta levar o partido para o palanque de Luciano Zucco (PL), indicando a mãe, a deputada estadual Silvana Covatti, para a vaga de vice.
- Polo entrou na corrida tencionando ser vice de Gabriel Souza (MDB) e já não descarta disputar o governo como cabeça de chapa.
Em resposta ao boicote, Covatti diz que o diretório é soberano e que a reunião está mantida:
— Temos um regimento interno, e é ele que orienta a vida partidária. Desde o ano passado estamos construindo esse caminho de forma coletiva e transparente. Todos tinham conhecimento; não se trata de uma decisão precipitada. Agora, cabe aguardar e respeitar o que o diretório decidir no dia 20.
Já Polo diz que a reunião é prematura e que as lideranças signatárias não querem legitimar o encontro como se fosse um pré-convenção do partido. O deputado aifrma que o diretório só tem prerrogativa para eleger a executiva e julgar recursos. Uma definição eleitoral caberia à convenção partidária, cujo quórum seria de 1,8 mil pessoas — todo o diretório, mais os presidentes e delegados municipais.
— Não é o momento de tomar decisão, escolher nome, definir coligação. A eleição está aberta e tem espaço para estruturar candidatura própria. Será que 21 lideranças estão erradas e só o presidente está certo? — rebate Polo.

Cortejado por Gabriel e Zucco, o PP criou no ano passado uma comissão eleitoral para debater sua posição na disputa. Todavia, Covatti convocou a reunião na semana passada sem consulta prévia ao colegiado. Na terça, será apresentado o resultado de uma consulta feita aos prefeitos, vice-prefeitos e vereadores.
O objetivo é colocar em votação o rumo eleitoral, em consulta direta aos 173 membros do diretório. Estimativas feitas dos dois lados apontam que cada grupo tem cerca de 80 votos.
O prazo curto para a tomada de decisão, porém, teria irritado Polo, que ainda nem sequer havia se desincompatibilizado da Secretaria de Desenvolvimento Econômico — o que aconteceu na segunda-feira (12) — e alegava não ter tempo para se dedicar à campanha dentro do partido.
Aliados de Covatti, por sua vez, afirmam que a decisão já deveria ter sido tomada em dezembro e que tem apoio majoritário entre prefeitos e vice-prefeitos para manter a data da reunião.
— Estão escalando demais, falando por fora do partido. A reunião é adequada. Era para ter acontecido em dezembro e o Ernani pediu para postergar. Ficou para o início de janeiro e foi postergada de novo. É uma reunião do diretório. Não me parece errado ouvir a nossa base, deixar o povo falar — comenta o deputado estadual Guilherme Pasin, que se recusou a assinar o manifesto de Polo e confirmou presença na reunião.
Internamente, todos reconhecem a hegemonia da família Covatti. Além da presidência da sigla no Estado e muito próximo da direção nacional da legenda, Covatti Filho dirige a Fundação Francisco Dornelles. A mãe, Silvana, preside o movimento Mulheres Progressistas. O pai, Vilson Covatti, é secretário de Desenvolvimento Rural.
Possibilidade de candidatura própria
Em reação, o grupo de Polo começou a se articular para tentar igualar as forças. Ex-presidente da Assembleia e respeitado pelo trânsito em todas as siglas, Otomar Vivian deixou a diretoria da Banrisul Consórcios, subsidiária do banco, para coordenar a campanha de Polo.
A ideia é colocar a campanha do deputado nas ruas, ambicionando já não mais a vice de Gabriel, mas uma candidatura própria ao Piratini. Há um sentimento no entorno de Polo que, caso Gabriel não decole nas pesquisas, o grupo do governador Eduardo Leite possa optar por um nome mais competitivo.
A primeira atitude de Polo nesse sentido foi fazer uma demonstração de força em sua despedida da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Para tanto, ele lotou o salão Negrinho do Pastoreio, no Palácio Piratini. Polo fez questão de convidar pessoalmente grandes empresários, presidentes de sindicatos rurais, de entidades setoriais e federações empresariais, além de chamar lideranças políticas da Região Noroeste, seu berço eleitoral.

No entorno de Polo, o entendimento é de que a candidatura própria responderia não só a um anseio da base do PP por um nome de direita ao Piratini, como neutralizaria a maior dificuldade de uma aliança com Gabriel, que seria convencer a militância a apoiar uma chapa encabeçada pelo MDB, adversário histórico no interior do Estado.
Para vencer o embate interno, eles querem tempo. A ideia sugerida à direção é realizar cinco ou seis encontros regionais durante os próximos 60 dias, para mobilizar a base e apresentar propostas. A decisão sobre alianças ou candidatura própria, propõe, ficaria para março.
— Seria prudente revisar a data dessa decisão agora para não correr risco de antecipar uma dissidência interna importante. Se Covatti ganhar na terça-feira, seria uma vitória de Pirro — afirma o deputado estadual Frederico Antunes.
Polo tem dito abertamente que, seja qual for o resultado, não concorre mais ao Legislativo: apenas a governador ou vice. À boca pequena, começa a circular uma possibilidade de que ele possa trocar de partido caso não consiga a indicação do PP, hipótese que ele rechaça.
— O pessoal tem falado em troca de partido, mas meu partido é o PP. Não penso nisso — fala Polo.
Veja a carta:






