
Aspirando um inédito quarto mandato no cargo mais alto da República, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está disposto a abrir mão de candidaturas do PT nos Estados em troca de palanques aliados competitivos. Assim como em 2022, o PT deve ceder a cabeça de chapa em mais da metade das unidades da federação.
No entendimento da cúpula partidária, a vitória com somente 1,8 ponto percentual de vantagem sobre Jair Bolsonaro (PL) na eleição de 2022 se deu pela tibieza de alguns nomes que concorreram a governador, o que teria puxado para baixo a votação petista. No Rio Grande do Sul, por exemplo, pela segunda vez consecutiva o candidato a presidente pelo PT não teve palanque no segundo turno.
Para 2026, a ideia é reprisar a estratégia usada na campanha inaugural de Dilma Rousseff, em 2010, quando o partido construiu alianças estaduais que priorizavam a corrida nacional. Na ocasião, o PT teve apenas 10 candidatos a governador, o menor número de sua história e bem abaixo dos 24 postulantes de 2002, quando Lula se elegeu pela primeira vez.
Sudeste: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro

Por enquanto, a legenda projeta um máximo de 11 candidaturas, duas a menos do que na eleição passada. O partido cogita prescindir da cabeça de chapa nos três maiores colégios eleitorais do país (SP, MG e RJ). Em São Paulo, o único nome colocado na esquerda até agora é o do ministro do Empreendedorismo, Márcio França (PSB).
Expoente petista em São Paulo, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não demonstra disposição de concorrer mais uma vez, preferindo o Senado ou a coordenação da campanha de Lula. Haddad, porém, deve ser empurrado à disputa dada a resistência do vice-presidente Geraldo Alckmin em tentar voltar à cadeira de governador (PSB) e do escasso entusiasmo dos petistas com Márcio França.
Em Minas Gerais, o PT nem sequer tem aspirante à vaga. Lula gostaria de apoiar o senador Rodrigo Pacheco (PSD) no segundo maior colégio eleitoral do país e um dos pilares de sua vitória em 2022 — único Estado fora do Norte e Nordeste em que superou Bolsonaro —, mas o ex-presidente do Senado cogita abandonar a vida pública e ainda guarda mágoa do petista por ter sido preterido na indicação ao Supremo Tribunal Federal.
Resta ao PT apoiar o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT). O apoio a Kalil é reivindicação do presidente nacional do PDT, Carlos Lupi.
Sul

Os partidos já fecharam aliança no Paraná em torno de Requião Filho (PDT) e ainda mantêm tratativas no Rio Grande do Sul. Lula se ressente do resultado do PT gaúcho nas duas últimas eleições e flerta com a candidatura de Juliana Brizola (PDT).
O partido lançou oficialmente Edegar Pretto (PT) e resiste em ceder a cabeça de chapa, alegando disparidade de tamanho entre as duas legendas e o apoio dos trabalhistas ao governo de Eduardo Leite (PSD). Presidente nacional do PT e articulador dos palanques regionais, Edinho Silva está ciente da dificuldade em montar uma aliança. Ele se reuniu com os dois partidos no início do mês e jogou a decisão para o próximo ano.
Em Santa Catarina, um dos Estados mais bolsonaristas do país, o PT dá a eleição como perdida. Todavia, não abre mão de ter um palanque para Lula. Amigo pessoal do presidente, o ex-deputado federal Décio Lima surpreendeu o partido ao passar para o segundo turno em 2022 e deve reprisar a candidatura, embora tenha desejo de disputar o Senado.
Nordeste
Tido como fortaleza eleitoral do PT, o Nordeste guarda atenção especial de Lula. Ao menos cinco das 11 pré-candidaturas do partido a governador estão estabelecidas na região. A maior expectativa de vitória recai sobre a reeleição de Rafael Fonteles (PT) no Piauí, seguida de Jerônimo Rodrigues (PT) na Bahia, um enclave governado pela sigla desde 2007.

No Ceará, Lula teme o retorno de Ciro Gomes (PSDB) à arena estadual. Para fazer frente ao ex-aliado, o presidente pretende lançar o ministro da Educação, Camilo Santana (PT), que irá se desincompatibilizar da pasta em março e ficar à disposição do partido. Pesquisas apontam que Ciro venceria o atual governador Elmano de Freitas (PT), mas perderia para Santana.
Em Pernambuco, há risco de complicações numa aliança dada como natural com o presidente nacional do PSB e prefeito de Recife, João Campos. Reeleito com 78% dos votos em 2024, Campos vem perdendo espaço para a governadora Raquel Lyra (PSD).
Ex-tucana como Eduardo Leite, Raquel reage nas pesquisas ao mesmo tempo em que se aproxima de Lula. Diante desse cenário, Lula tem sido aconselhado a manter neutralidade, pelo menos por ora, e não descarta a hipótese de manter dois palanques em sua terra natal.
O flerte com o PSD, partido que concilia alianças simultâneas com o petismo e o bolsonarismo, surge como principal esteio do PT nos Estados. Ao todo, Lula articula apoio a sete pré-candidatos da sigla a governador, número superior a aliados tradicionais como o PSB ou o PDT.
O acordo mais relevante ocorre no Rio, em torno do atual prefeito Eduardo Paes (PSD), mas se estende por territórios do Norte, como o Amazonas, e do Centro-Oeste, como Tocantins e Mato Grosso do Sul, ambos com eleitorado predominantemente bolsonarista. O MDB, outra legenda de perfil ao centro do espectro ideológico e que também mantém alianças à esquerda e à direita, conta com o apoio do PT em três Estados.



