
A prisão de Jair Bolsonaro e outros cinco integrantes do núcleo crucial da trama golpista, condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), fez as peças políticas se movimentarem nos últimos dias, na direção de uma nova pressão junto aos presidentes da Câmara e do Senado. Desde o final de semana, quando Bolsonaro foi preso preventivamente, aliados intensificaram encontros para reformular a estratégia que permita incluir na pauta o projeto de anistia aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro.
O movimento tem à frente um dos filhos do ex-presidente: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é visto como aquele que tem maior tino político, na comparação com os irmãos.
Há outro nome importante pessoalmente envolvido, o do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Ex-ministro de Bolsonaro, Tarcísio foi escalado ainda no final de semana para a missão de conversar individualmente com presidentes de partidos do centrão, entre eles Antônio Rueda, do União Brasil, e Gilberto Kassab, do PSD, seu secretário no governo paulista.
A avaliação é que apenas uma construção mais ampla poderá abrir espaço para a votação do projeto, que hoje tem na relatoria o deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP). O parlamentar conversou com a reportagem de Zero Hora e afirmou que há acordo, incluindo partidos do centrão, para que o texto dele possa ser levado ao plenário.
Em paralelo, o líder da oposição na Câmara, Luciano Zucco (PL-RS), assumiu a tarefa de procurar um a um os líderes das bancadas. Na terça, Zucco, Flávio Bolsonaro e o senador Rogério Marinho (PL-RN) também se reuniram com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Anistia ampla ou foco em penas menores
Dessas conversas, houve mudança de estratégia entre sábado (22) e a quarta-feira (26). Inicialmente, o combinado seria pedir preferência ao texto original da anistia, de autoria do deputado Marcelo Crivella (Republicanos-RJ). O texto, mais abrangente, beneficiaria todos os envolvidos em atos de 8 de Janeiro, incluindo o ex-presidente.
Mas o grupo ouviu um recado claro: o único texto que tem alguma viabilidade de ser colocado na pauta é o de Paulinho, que prevê apenas alteração na dosimetria das penas aplicadas aos condenados. Isso permitiria, na prática, que os condenados conquistem progressão de regime mais cedo.
Paulinho foi taxativo ao expressar esse mesmo sentimento à reportagem:
— Ou é o meu texto, ou é nenhum — sentenciou a Zero Hora.

Por isso, aliados de Bolsonaro entenderam que é mais inteligente votar essa proposta.
Como novo caminho, o grupo pretende apresentar, em plenário, uma emenda que beneficie Bolsonaro e outros presos. Uma das ideias discutidas é prever benefício da prisão domiciliar para os condenados que têm idade acima de 60 anos — o ex-presidente, por exemplo, tem 70 anos.
Repercussão negativa pode adiar discussão
Por outro lado, Hugo Motta também foi aconselhado a não pautar a discussão da anistia tão cedo. O alerta veio de líderes partidários sobre uma possível repercussão negativa para a imagem da Câmara. Recentemente, manifestações populares por todo o Brasil foram direcionadas contra os deputados, por conta da PEC da Blindagem e com menção também à anistia.
A interpretação desses líderes é que votar o perdão aos condenados imediatamente após a prisão de Bolsonaro poderia provocar novo desgaste político e forte reação negativa da opinião pública.
Neste sentido, a recomendação é aguardar a temperatura baixar e tentar a votação quando houver menor risco de associação direta entre a decisão do STF e a articulação legislativa. Considerando que o tema não foi pautado para esta semana, parece que o conselho foi ouvido e levado em consideração.
No caso do Senado, aliados de Bolsonaro querem se aproveitar da insatisfação do presidente Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) com o governo, expressada após a indicação de Jorge Messias para uma vaga no STF. Alcolumbre estaria disposto a levar o projeto da anistia adiante, caso senadores se comprometam a barrar a indicação feita por Lula.



