
Menos de 11 quilômetros separam o Palácio do Planalto, sede do governo federal, da Superintendência da Polícia Federal (PF), em Brasília. Jair Bolsonaro levou 2.520 dias para ir de um a outro. Em 1º de janeiro de 2019, subia a rampa do Palácio do Planalto eleito como 38º presidente do Brasil, e no dia 25 de novembro de 2025, entrava na cela de 12 metros quadrados como condenado por ser o líder da trama golpista.
Eleito com 57,7 milhões de votos, Bolsonaro prometia romper com a "velha política". Seu discurso para o público como Presidente da República logo após receber a faixa presidencial de Michel Temer foi de ataques ao socialismo, ao politicamente correto, a ideologia de gênero, além de outras bandeiras da pauta conservadora. Iniciava-se o governo Pátria Amada Brasil e Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.
Seu mandato foi marcado por embates com o Congresso, confrontos com o Supremo Tribunal Federal, gestão controversa da pandemia, declarações polêmicas, trocas de ministros e denúncias de corrupção envolvendo integrantes do governo.
A trajetória do ex-capitão do Exército como ocupante do Planalto chegou ao fim após perder a reeleição para Luiz Inácio Lula da Silva, numa disputa acirrada.
Relembre os principais episódios do governo
Bolsonaro e a covid-19
Em março de 2020, em um pronunciamento realizado em cadeia de rádio e TV, Bolsonaro criticou os governadores que à época defendiam o isolamento social e minimizou a gravidade do vírus e desdenhava acerca do número de mortes:
No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão.
"Eu não sou coveiro"
Em abril de 2020, o país acumulava mortes diárias em razão da pandemia de covid-19. Numa conversa com jornalistas, durante sua chegada no Palácio do Planalto Bolsonaro não quis comentar o número de óbitos.
Perguntado sobre as mortes, disse:
No segundo momento da pandemia, quando o número de mortes crescia de forma exponencial, Bolsonaro passou a defender de forma ferrenha tratamentos sem comprovação científica e neglicenciando os estudos acerca de vacinas. O então presidente citava como medicamentos para enfrentar o vírus a Cloroquina e a Ivermectina.
O ex-presidente manifestou-se repetidamente contra as vacinas, chegando a dizer: "Se você virar um jacaré, é problema seu", em referência a um dos possíveis efeitos colaterais.
A crise do oxigênio em Manaus
A crise ocorreu durante a segunda onda de covid-19 no país. A quantidade de mortes representou um dos momentos mais críticos e trágicos da pandemia no Brasil. Hospitais na capital do Amazonas ficaram sem o insumo vital, resultando na morte de dezenas de pacientes por asfixia mecânica.
O colapso sanitário foi agravado pela circulação da nova variante P.1 (Gamma) e pela disparada da demanda por oxigênio. Embora o Ministério da Saúde, então chefiado pelo General Eduardo Pazuello, tenha sido notificado sobre a iminente escassez, a resposta federal foi considerada tardia e insuficiente, sendo alvo de intensas investigações na CPI da Covid e no Supremo Tribunal Federal (STF) por possível omissão.
Troca de ministros
Jair Bolsonaro promoveu uma intensa dança das cadeiras na Esplanada dos Ministérios. A pasta da Saúde, por exemplo, teve quatro titulares diferentes ao longo do mandato. Em 2020, em meio à escalada da pandemia, Luiz Henrique Mandetta foi demitido em abril por defender o isolamento social e questionar o uso de medicamentos sem comprovação, como a cloroquina. Menos de um mês depois, Nelson Teich também renunciou por divergências semelhantes. A entrada e posterior efetivação do general Eduardo Pazuello no cargo, que permaneceu até março de 2021, não encerrou a turbulência, culminando em sua substituição, sob pressão do Congresso e do Judiciário pela gestão da pandemia e o atraso na vacinação. o médico Marcelo Queiroga foi o último a ocupar a cadeira de ministro.
O Ministério da Educação (MEC) seguiu um caminho similar, com cinco ministros. A pasta foi marcada pela sucessão de titulares que saíam após envolvimento em polêmicas ideológicas ou crises internas. Após as saídas rápidas de Ricardo Vélez Rodríguez e Carlos Alberto Decotelli (que renunciou antes de tomar posse por inconsistências curriculares), Abraham Weintraub deixou o cargo em 2020 em meio a inquéritos no STF. Mais tarde, em 2022, Milton Ribeiro pediu demissão em virtude de denúncias de um suposto "gabinete paralelo" que negociava verbas federais em troca de propina. Victor Godoy Veiga assumiu a pasta após a saída de Milton Ribeiro.

Outrora aliados e próximos, o ex-juiz federal Sergio Moro deixou o governo em abril de 2020, quando comandava o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Moro saiu acusando Bolsonaro de tentar interferir na Polícia Federal (PF), gerando uma investigação no Supremo Tribunal Federal (STF). Eles voltariam a se reaproximar nas eleições 2022, quando Moro passou a acompanhar Bolsonaro nos debates, declarando apoio à reeleição e criticando o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.
Outras trocas
A troca no Ministério das Relações Exteriores (saída de Ernesto Araújo, substituído por Carlos Alberto Franco França) ocorreu em meio à pressão do Congresso, que via a política externa do então chanceler como prejudicial ao Brasil.
A saída do general Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa culminou na renúncia dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica.
Política econômica
Paulo Guedes, então ministro da Economia, pautou a condução do país em uma agenda de liberalismo econômico, buscando a redução da participação do Estado na economia. A linha central era a busca pelo ajuste fiscal e a redução da dívida pública por meio de três pilares: reformas estruturais, privatizações e abertura comercial. A principal conquista do governo foi a aprovação da Reforma da Previdência em 2019.
O período foi afetado pela pandemia. Em 2020, o governo teve injetar recursos na economia, principalmente por meio do Auxílio Emergencial. Após a fase mais aguda da crise, o foco retornou ao controle das despesas, culminando na criação do programa social Auxílio Brasil (substituto do Bolsa Família). O governo também buscou maior autonomia para o Banco Central (aprovada em 2021) para garantir maior independência na condução da política monetária e conseguiu aprovar a Reforma da Previdência.
Relação com o Congresso

Eleito com o discurso de combater a "velha política", Bolsonaro, a partir de 2020, promoveu uma guinada significativa ao buscar apoio no bloco conhecido como centrão. Essa aliança foi consolidada pela entrega de cargos estratégicos e pela aprovação do Orçamento Secreto. O próprio presidente reconheceu a mudança: "Eu sou do Centrão, nasci lá... Para aprovar qualquer coisa, em especial uma PEC, passa por eles".
As motociatas
Os desfiles de motociclistas eram geralmente organizados e liderados pelo próprio Bolsonaro. Ele utilizava os eventos para se conectar diretamente com sua base de apoiadores.
Ataques ao STF e ao sistema eleitoral
Jair Bolsonaro, durante seus quatro anos como presidente, verbalizou contra o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral de forma recorrente. Além disso, encampou uma campanha pela implementação do voto impresso, alegando, sem provas, que o sistema de urnas eletrônicas não era seguro.
Da derrota nas urnas até a prisão
A derrota nas eleições de 2022 marcou o início de uma escalada de ações e omissões que, posteriormente, seriam investigadas como parte de uma tentativa de golpe de Estado.

Após o resultado das urnas, Bolsonaro se recolhe e demora dias para se manifestar publicamente. Seu discurso, breve, não reconhece explicitamente a vitória de Lula, mas autoriza o início da transição de governo.
Paralelamente, sem Bolsonaro criticar ou se posicionar para que fosse desfeitos, acampamentos de apoiadores se formaram em frente a quartéis por todo o país. No penúltimo dia do ano de 2022, Bolsonaro embarca para os Estados Unidos evitando passar a faixa presidencial para Lula. Ele retornaria três meses depois.
8 de janeiro de 2023

Milhares de manifestantes e apoiadores do ex-presidente invadem e depredam as sedes dos três poderes da República. O ato foi visto como o ápice da tensão criada pela retórica bolsonarista de desconfiança eleitoral e mobilização antidemocrática. No dia seguinte, os chefes do três poderes divulgaram nota conjunta, em que condenaram os atos de bolsonaristas radicais que invadiram, na tarde passada, o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e a sede do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Alexandre de Moraes, alvo da maioria dos ataques, é o relator do processo sobre o ataque à democracia.
Inelegível: condenado no TSE
Em junho de 2023, Bolsonaro foi declarado inelegível por 8 anos por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação (em reunião com embaixadores) para atacar a credibilidade das urnas eletrônicas. O julgamento no Tribunal Superior Eleitoral foi finalizado com 5 votos pela condenação e aplicação da pena de inelegibilidade e 2 pela absolvição.
A motivação do processo foi a reunião que Bolsonaro, enquanto presidente, promoveu com embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada, em julho de 2022. No evento, o então presidente usou a estrutura oficial e o cargo para atacar, sem provas, o sistema eletrônico de votação e a Justiça Eleitoral.
Após a condenação, Bolsonaro criticou a decisão. Ele declarou que o Brasil estaria em um "caminho bastante avançado" para se tornar uma ditadura.
Caso das joias sauditas
As investigações da Polícia Federal apontaram que ex-presidente recebeu joias e outros presentes durante o exercício do mandato. Parte desses itens começou a ser negociada nos Estados Unidos em junho de 2022, último ano de seu governo.
Entre os objetos está um conjunto de joias composto por um relógio Rolex de ouro branco, um anel, um par de abotoaduras e um rosário islâmico. O kit foi entregue a Bolsonaro durante uma visita oficial à Arábia Saudita, em outubro de 2019.
Bolsonaro foi indiciado no caso das joias sauditas. O indiciamento se dá na esteira da Operação Lucas 12:2, que apontou indícios de que Bolsonaro, seu ex-ajudante de ordens e outros dois assessores do ex-chefe do Executivo "atuaram para desviar presentes de alto valor recebidos em razão do cargo pelo ex-presidente para posteriormente serem vendidos no Exterior".
Tempus Veritatis
Em 2024, a Polícia Federal deflagrou a Operação *Tempus Veritatis (Tempo da Verdade), baseada em delações e evidências de que houve uma tentativa articulada de Golpe de Estado.
Conforme PF, a trama consistia em executar o presidente eleito, seu vice e o então presidente do TSE, Alexandre de Moraes, impedindo, assim, a posse do novo governo, criando um cenário de caos no país e instalando um gabinete de crise, que seria comandado pelos generais Braga Netto e Augusto Heleno, ex-ministro do GSI do governo Bolsonaro.
Medidas cautelares: uso da tornozeleira
Em julho deste ano, a Polícia Federal (PF) cumpriu mandados contra o ex-presidente no âmbito da investigação da suposta atuação de Eduardo Bolsonaro, que está nos Estados Unidos desde fevereiro, que estaria agindo para tentar anistiar o pai no inquérito da trama golpista. Eduardo hoje é réu no processo.
Na ocasião, Moraes determinou que Bolsonaro passasse a utilizar tornozeleira eletrônica. Além disso, teve o passaporte retido e ficou impedido de acessar redes sociais.

Em agosto, Alexandre de Moraes decretou a prisão domiciliar do ex-presidente. A medida foi determinada após o descumprimento da cautelar que impedia o ex-presidente de usar as redes sociais de terceiros.
Condenado trama golpista
Em setembro, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, num julgamento histórico, com ampla cobertura da imprensa nacional e internacional, condenou Jair Bolsonaro e sete integrantes da cúpula de seu governo pela intentona golpista.
Prisão preventiva
No dia 22 de novembro, Jair Bolsonaro (PL) foi preso preventivamente. Na decisão, o ministro do STF Alexandre de Moraes cita o rompimento da tornozeleira eletrônica do político como tentativa iminente de fuga.
O epílogo
Setenta e duas horas depois, Bolsonaro recebia a notícia de que deixar a Superintendência da Polícia Federal (PF) ficara mais díficil. Alexandre de Moraes, com a decretação do trânsito em julgado do processo da trama golpista (núcleo crucial), determinava a execução da pena, no caso de Bolsonaro, 27 anos e três meses.




