
As circunstâncias da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro tensionam as forças políticas na discussão sobre o representante da direita na eleição presidencial de 2026. Se, até então, Bolsonaro não abria mão de indicar pessoalmente um sucessor nas urnas, agora os partidos do centrão enxergam espaço para aumentar a própria influência nesse processo de escolha.
Nos 110 dias em que esteve sob prisão domiciliar, o ex-presidente se valeu da popularidade para evitar qualquer debate que prescindisse de seu nome, ainda que inelegível, ou de algum familiar. Os mais cotados são o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
A hegemonia do clã está agora sob risco, a partir da revelação de que Bolsonaro violou a tornozeleira eletrônica, comportamento que justificou a prisão preventiva e enfraqueceu o discurso de vítima de uma suposta tirania judicial. Os aliados, porém, evitam algum movimento mais ousado. Diante do novo cenário, a prioridade é aferir a repercussão da prisão, evitando precipitação e exposição desnecessária.
Não por acaso, todos os pretendentes ao endosso do ex-presidente — os governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas; do Paraná, Ratinho Jr; de Goiás, Ronaldo Caiado; e de Minas Gerais, Romeu Zema — foram rápidos ao criticar sua prisão, mas silenciaram após a notícia da violação da tornozeleira.
Aliados recuam e evitam confronto direto
Há o entendimento de que é preciso manter uma distância segura de Bolsonaro: nem tão longe que pareça deserção, nem tão próximo que indique submissão.
A iniciativa é guiada pela certeza de que o mais correto é acelerar as conversas partidárias sem melindrar Bolsonaro e os filhos. Nos últimos meses, todos os aliados que tentaram fazer o debate da sucessão avançar foram criticados publicamente. Os ataques mais contundentes vieram de Eduardo Bolsonaro, mirando nomes como Tarcísio de Freitas e o presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira.
A investida levou Tarcísio a recuar, declarando ser candidato à reeleição em São Paulo. Ciro, por sua vez, criticou a "falta de bom senso e estratégia" do campo político de centro e de direita e disse que vai se dedicar à montagem de palanques estaduais.
Para não correr riscos de receber a pecha de traidor, os dirigentes partidários vão aguardar para ver quem será o principal interlocutor de Bolsonaro na prisão. Como o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, está proibido por decisão judicial de manter contato com Bolsonaro e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes liberou apenas visitas da família ao ex-presidente, a atribuição deve ficar com Flávio Bolsonaro, considerado o mais articulado dos filhos.
No sábado à tarde, ele e o irmão Carlos se reuniram com parlamentares em uma confeitaria de Brasília. Flávio pediu cautela e alinhamento ao grupo, formado pelos senadores Izalci Lucas (DF) e Rogério Marinho (RN), além dos deputados Luciano Zucco (RS), Gustavo Gayer (GO), Hélio Lopes (RJ) e Bia Kicis (DF), todos do PL.
Flávio assume protagonismo e aposta na anistia

Embora o próprio Flávio tenha postulado o posto de sucessor do pai, por ora ele pediu prioridade à votação da anistia. O relator do projeto de lei na Câmara, Paulinho da Força (SD-SP), viajou nesta segunda-feira para Brasília, onde tinha previsto um encontro com líderes partidários e o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).
— Conversei com o relator e o nosso foco está todo concentrado em pautar a anistia ainda nesta semana. Se o texto ficar limitado à redução de penas ou unificação de crimes, vamos apresentar destaques e emendas — afirma Zucco.
Líderes do centrão, porém, comentam sob reserva que não há ambiente político para votar a matéria neste momento. Além do temor de sinalizar uma provocação ao STF, os parlamentares avaliam que a situação política e jurídica de Bolsonaro ficou fragilizada após o episódio da tornozeleira.
Nesse cenário, Flávio Bolsonaro tende a investir em uma candidatura própria, com a anistia como principal plataforma de campanha. O temor de que a família imponha uma eleição monotemática em torno da liberdade de Bolsonaro preocupa o centrão.
Embora tema dispersar votos em mais de um palanque presidencial de direita, o bloco partidário já prevê ao menos uma candidatura dissidente, a do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil). Zema deve reivindicar uma vaga de vice, enquanto Tarcísio e Ratinho Jr devem aguardar os próximos movimentos e só definir seu futuro político no início de 2026.
