
Pouco mais de cem dias após o anúncio da sobretaxa de 40% sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos, os presidentes dos dois países têm previsto para este domingo (26) o primeiro encontro em busca de uma solução para o impasse. Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump aproveitam a passagem pela 47ª Cúpula de Líderes da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), na Malásia, para conversar sobre tarifas, sanções aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), terras raras e Venezuela, entre outros temas.
— Podemos discutir de Gaza à Ucrânia, à Rússia, à Venezuela, a materiais críticos, a minerais, a terras raras. Podemos discutir qualquer assunto — disse Lula na sexta-feira, durante entrevista coletiva na Indonésia, primeira parada de sua incursão pela Ásia.
Neste sábado (25), a bordo do avião que o levava à Malásia, Trump confirmou que está prevista reunião com o presidente brasileiro:
— Acredito que vamos nos reunir, sim. Sim, sob as circunstâncias certas, seguramente.
O áudio da conversa foi divulgado pela Casa Branca.
A reunião, fora da agenda oficial da Asean, deve ocorrer em horário ainda indefinido neste domingo. Na programação oficial de Lula no evento, divulgada na noite deste sábado pela Presidência da República, não constava compromisso com o colega norte-americano, mas há espaço livre no período da tarde — madrugada no Brasil, uma vez que o fuso horário da Malásia está 11 horas à frente do brasileiro.
A despeito das críticas mútuas trocadas nos últimos meses, Lula e Trump se aproximaram em setembro, após rápido encontro nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, em Nova York.
Desde então, se acentuaram as tratativas para que fosse aberta uma negociação. O primeiro passo foi dado em 6 de outubro, quando o presidente americano telefonou para Lula. Durante conversa de 30 minutos, eles estabeleceram interlocutores e planejaram um encontro. Foi Lula quem sugeriu a Malásia, aproveitando a presença de ambos no país para a cúpula da Asean.
As negociações diplomáticas avançaram a partir das necessidades de cada país. A partir da entrada em vigor da sobretaxa de 50%, o Brasil registrou uma queda de 20% nas vendas para os Estados Unidos. Em contrapartida, os preços do café e da carne dispararam no mercado norte-americano.
— Estou convencido de que a gente pode avançar muito e voltar a uma relação civilizada com os EUA, que já temos há 201 anos. O presidente Trump sabe que o preço da carne lá está muito alto e precisa baixar, sabe que o cafezinho vai ficando caro. Eu quero ter a oportunidade de dizer para o Trump o que o Brasil espera dos EUA e dizer o que nós temos para oferecer. Não existe veto a nenhum assunto — asseverou Lula.
Apesar da boa vontade de lado a lado, especialistas não esperam um anúncio de revogação das tarifas já nesse primeiro encontro. Para o professor de relações internacionais Daniel da Cunda Correa da Silva, o próprio governo brasileiro não tem expectativa de redução nas alíquotas, apostando mais no incremento da lista de exceções.
— Me parece mais factível o setor de carnes, e eventualmente o de café, receber algum tipo de benefício. Os Estados Unidos dependem muito do café brasileiro, mas têm trabalhado ativamente em mercados alternativos, tais como Colômbia ou Vietnã, por exemplo. No caso da carne, houve uma aproximação entre Donald Trump e Javier Millei, inclusive com declaração de Trump de que poderia aumentar a compra de carne argentina. Mas a carne brasileira leva junto toda uma cadeia de carnes processadas, que também são importantes para os Estados Unidos — pontua Daniel.
Por outro lado, há complicadores que podem travar o diálogo. Os bombardeios a embarcações supostamente carregadas de drogas com origem na Venezuela e a ameaça de Trump de ordenar operações terrestres no país de Nicolás Maduro enfrentam forte resistência do Brasil. A despeito dos indícios de fraude na última eleição que reelegeu Maduro, Lula deve ressaltar no encontro uma tradição da diplomacia brasileira de respeito à soberania nacional e à autodeterminação dos povos.
Outro ruído é uma declaração de Lula na chegada à Ásia, quando criticou o protecionismo e defendeu um comércio internacional sem uso de dólar. Trump já havia manifestado contrariedade com a possibilidade de os países dos Brics — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — dispensarem o uso da moeda norte-americana em suas transações.
Todavia, essa aproximação do Brasil com potências como Rússia e China, bem como o estreitamento de laços na União Europeia, surgem como trunfo de Lula na mesa de negociações.
— A grande barganha que o Brasil tem é a trajetória de redirecionamento da prioridade da política externa em direção à Europa ou ao eixo asiático, aumentando a presença chinesa não só no Brasil, mas em toda a América Latina. Em grande medida, me parece que foi isso que levou os Estados Unidos a se aproximarem novamente do Brasil depois do tarifaço — comenta Daniel.

