
Mantendo a tradição da Organização das Nações Unidas (ONU), caberá ao Brasil o discurso de abertura da Assembleia Geral, realizada desde 1945. Pela nona vez na história, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva irá representar o país em Nova York, na 80ª sessão do encontro.
O discurso desta terça-feira (23) acontece em meio ao pior momento na relação entre Brasil e os Estados Unidos. Especialistas apontam que temas como soberania, meio ambiente, comércio internacional e conflitos devem ser centrais no pronunciamento de Lula.
O cenário é diferente das outras participações de Lula no evento. Na década de 2000, o presidente brasileiro abordou temas como fome, paz e economia. Ao retornar para seu terceiro mandato, a partir de 2023, Lula passou a tratar de assuntos como a representatividade de países do chamado sul global na ONU.
Relembre as participações de Lula na ONU:
2003 - Combate à fome
O primeiro discurso de Lula na ONU, em 23 de setembro de 2003, foi marcado pela defesa de uma "guerra contra a fome".
— Precisamos nos engajar na guerra contra a fome e a miséria. Erradicar a fome no mundo é um imperativo moral e político — disse Lula.
O presidente também defendeu a ampliação do Conselho de Segurança da ONU e fez críticas tanto à política externa dos Estados Unidos quanto ao terrorismo.

2004 - Paz
Enquanto o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, defendia a guerra no Afeganistão como maneira de derrotar o terrorismo, Lula fez um discurso focado na paz:
— A situação exige dos povos e de seus líderes um novo centro de responsabilidade individual e coletiva. Se queremos a paz, devemos construí-la.

2005 - Primeira ausência
Durante a crise política decorrente do Mensalão, com a cassação de Roberto Jefferson e a renúncia de Severino Cavalcanti à Presidência da Câmara, Lula não discursou na ONU. Apesar de ter participado de reuniões que antecederam a Assembleia Geral, o presidente destacou o então ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, para representar o Brasil.
2006 - Polêmicas eleitorais
O discurso de 2006 ficou em segundo plano. A fala ocorreu semanas antes do primeiro turno das eleições presidenciais, em que Lula enfrentou Geraldo Alckmin, hoje seu vice. Na ocasião, a campanha petista era alvo de denúncias de que teria elaborado um dossiê contra o candidato do PSDB.

2007 - Etanol
Alertando contra "riscos de uma catástrofe ambiental e humana sem precedentes", Lula promoveu o etanol brasileiro como alternativa aos combustíveis fósseis:
— O etanol e o biodiesel podem abrir excelentes oportunidades para mais de uma centena de países pobres e em desenvolvimento: na América Latina, na Ásia e, sobretudo, na África.

2008 - Crise econômica
Em 2008, o mundo foi abalado pela crise de Wall Street, nos Estados Unidos. Os impactos se espalharam pelo mundo e foram tema do discurso de Lula naquele ano.
— A ausência de regras favorece os aventureiros e oportunistas, em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores. A economia é séria demais para ficar nas mãos dos especuladores. A ética deve valer também na economia — declarou.

2009 - Governança global
A Assembleia Geral de 2009 foi a primeira de Barack Obama. Na tradição, a fala do presidente dos EUA segue à da liderança do Brasil. Os dois mandatários defenderam mudanças na forma de governança mundial.
— Os temas que estão no centro de nossas preocupações, a crise financeira, a nova governança mundial e a mudança de clima têm um forte denominador comum. Ele aponta para a necessidade de construir uma nova ordem internacional sustentável, multilateral, menos assimétrica, livre de hegemonismos e dotada de instituições democráticas.
Na mesma semana, diversas lideranças participaram de um encontro do G20 nos Estados Unidos.

2010 - Nova ausência
Pela segunda vez, Lula não participou da Assembleia Geral. Coube ao chanceler Celso Amorim abrir a conferência em Nova York.
2023 - Retorno
Eleito para seu terceiro mandato, Lula voltou à sede da ONU. Seu discurso focou na crítica à desigualdade social e na defesa do meio ambiente, em contraponto ao governo do antecessor, Jair Bolsonaro. A enchente do Vale do Taquari foi mencionada pelo presidente na fala:
— No sul do Brasil, tivemos a maior enchente desde 1941. A Amazônia enfrenta a pior seca em 47 anos. Incêndios florestais consumiram 5 milhões de hectares apenas no mês de agosto.
Os números da tragédia de setembro de 2023 seriam superados, em vítimas e áreas atingidas, pelos observados na enchente de maio de 2024.

2024 - Sul global
No ano passado, a fala de Lula foi marcada por críticas ao Conselho de Segurança e pedidos de maior representação do sul global:
— A Assembleia Geral perdeu a sua vitalidade e o Conselho Econômico e Social foi esvaziado. A legitimidade do Conselho de Segurança encolhe a cada vez que ela aplica duplos padrões ou se omite diante de atrocidades. O sul global não está representado de forma condizente com o seu atual peso político e econômico.





