
Com popularidade em queda, em litígio com o Congresso e sem agenda legislativa para o restante do mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vive o período mais delicado de seu terceiro governo. Para o analista político Thomas Traumann, a crise escancarada com a derrubada do decreto do IOF resulta de erros de gestão e de articulação política do Planalto, antecipando a eleição de 2026.
Aos 57 anos, o consultor não enxerga uma pacificação no curto prazo e projeta mais uma disputa polarizada na eleição presidencial de 2026. Segundo Traumann, os 18 meses restantes do governo já estão comprometidos pela disputa política em curso:
— Nada vai ser feito. Daqui até lá é só tiro, porrada e bomba.
O paranaense foi porta-voz da Presidência e ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social no governo Dilma Rousseff e autor do livro O Pior Emprego do Mundo, no qual disseca as vicissitudes enfrentadas por 14 ex-ministros da Fazenda.
Com a Palavra
Confira abaixo os principais trechos da entrevista:
O governo Lula conseguirá reconstruir sua base de sustentação no Congresso?
Esquece. Acabou. O presidente da Câmara, Hugo Motta, é hoje o líder da oposição. A origem disso foi a decisão, única e pessoal do presidente Lula, de antecipar o período eleitoral quando ele anunciou a reforma da renda junto com o ajuste de gastos. A partir dali, ele deixou claro que 2025 não existia, já era 2026. Todo mundo passou a olhar o que o outro estava fazendo em função da eleição. Perdeu-se o terceiro ano de governo.
O quanto o decreto do IOF agravou a crise?
A questão do IOF começa ruim da forma como a Fazenda fez, sem discutir com os outros ministérios e com o Congresso. Nem o Banco Central sabia. Depois, o Congresso dá sinais de que vai ter espaço de negociação mas, surpreendentemente, sem avisar o governo nem tentar uma alternativa, o Congresso decide derrubar o decreto. Ou seja, os dois lados estão muito radicalizados.
É um clima que lembra o segundo governo Dilma.
THOMAS TRAUMANN
Analista político
Que peso tem nessa crise a ausência do presidente Lula na articulação política?
A primeira responsabilidade do presidente foi antecipar o processo eleitoral. A segunda foi não fazer uma reforma ministerial. A derrota que a esquerda teve na eleição municipal indicava a necessidade de composição. Ele só fez mudanças no PT, não fez na base. Tem uma questão de postura também.
O Congresso aprendeu com a eleição municipal que emendas elegem prefeito. Se elegem prefeito, elegem deputado. Então, não dá para imaginar que vai dar certo chegar até junho com R$ 200 milhões em emendas liberadas quando, no mesmo período do ano passado, já tinham soltado R$ 6,5 bilhões. Em uma semana agora liberaram R$ 4 bilhões. Ou seja, dava para ter feito mais. Então, há um problema de gestão também.
É possível reverter esse empoderamento do Congresso, sobretudo a partir de uma apropriação cada vez maior do orçamento da União?
Só se isso for um tema do próximo presidente. Se na campanha ele disser: "Se for eleito, vou mudar isso". Assim se ganha legitimidade da urna. Voluntariamente, o Congresso não vai devolver esse poder.
A crise cresce na impopularidade do governo? Se Lula tivesse 60% de aprovação, o cenário seria diferente?
Completamente. Mas o Brasil não vai ter um governo com 60% de popularidade até 2030.
É o fim do presidencialismo de coalizão?
O presidencialismo de coalizão morreu e não tem uma coisa nova ainda. O que temos é um Congresso com muito poder e nenhuma responsabilidade, que fala em corte de gasto mas aumenta o número de deputados, quer acumular aposentadorias e aumentar penduricalhos. É muito fácil ser congressista hoje porque você tem dinheiro mas responsabilidade nenhuma em relação ao discurso que você adota.

O PT divulgou um vídeo em que diz defender os pobres enquanto o Congresso defende os ricos. Isso não acirra ainda mais os ânimos?
É natural. O governo está acuado, tem minoria no Congresso e nenhum relacionamento com a elite financeira e econômica do país. Nenhum empresário conversa com Lula. Ele tem problema de popularidade e reage atacando. Tem que engajar sua torcida, né?
É como os discursos do Bolsonaro para o cercadinho. É o discurso do nós contra eles. Deu certo em 2006, logo depois do mensalão, deu certo em 2010 e deu certo em 2014, quando Dilma se se reelegeu numa crise de popularidade enorme. É aquela tática de colocar três centroavantes e jogar a bola na área. É bonito? Não. Mas, às vezes, dá certo.
Deu certo em 2014, mas, em 2015, Dilma praticamente não governou e teve o impeachment em 2016. Isso não pode se repetir?
É um grande risco, porque o risco fiscal para 2027 é muito maior. Em 2015, o Brasil era um país rico comparado com hoje. Não lembro aqui, mas a relação dívida x PIB em 2015 era em torno de 60%, hoje tá indo quase a 80%. Quem quer que seja o presidente em 2027 terá de fazer um forte ajuste. Em 2015, esse freio gerou uma recessão de três anos, a pior da história do Brasil.
E qual será o tamanho da crise em 2027?
Ninguém sabe. Mas enquanto Congresso e governo brigarem, pensando só na questão eleitoral, nada será feito.
A crise pode escalar para um novo impeachment?
Não. O último impeachment demonstrou que esses processos comem os dois lados. O Congresso sabe que ele também foi devorado. Eduardo Cunha acabou preso, houve uma renovação gigantesca do Congresso logo depois.
Como serão os 18 meses que restam para o governo?
Nada vai ser feito. Daqui até lá é só tiro, porrada e bomba. Terá momentos que alguma ou outra pauta vai ser resolvida, mas será exceção.

O governo não tem mais nenhuma agenda legislativa?
Tem só a reforma do Imposto de Renda, que já está no Congresso. Esse é um dos grandes problemas do Lula, a agenda legislativa dele sempre foi muito fraca. Se você tirar a agenda do (ministro da Fazenda, Fernando) Haddad, que é uma agenda tributária, nenhuma grande proposta foi aprovada nesses dois anos e meio. Desde o início Lula proibiu os ministros de terem ideias novas, lembra? Só queria ideias já testadas.
Falta uma marca ao governo?
Só tem dois programas novos nesse governo: o Desenrola e o Pé-de-Meia. O Desenrola é o programa de renegociação de dívidas que o Ciro Gomes defendia na campanha e o Pé–de-Meia era um projeto da Simone Tebet.
As duas únicas ideias originais do governo Lula vieram fora.
THOMAS TRAUMANN
Analista político
A queda na aprovação do governo e na popularidade de Lula é causada por falhas na comunicação ou por erros de gestão?
Pode-se melhorar a comunicação, mas o governo não entendeu uma premissa: não foi Lula que venceu a eleição, foi Bolsonaro que perdeu. Ao não entender isso, Lula montou um governo cuja base era repetir os melhores momentos do governo Lula 1. Não se podia ter ideias novas, projeto novo.
Então é um governo que começou desatualizado, uma agenda que não excitava mais ninguém. Programas como Minha Casa Minha Vida, Farmácia Popular, Mais Médicos, que tiveram um enorme impacto quando foram lançados originalmente, agora não surtem tanto efeito assim.
Por quê?
As necessidades são diferentes hoje. O mercado de trabalho é digital. O rapper Mano Brown falou um negócio ao entrevistar o Lula semanas atrás que devia estar escrito no Palácio do Planalto: "Antes a luta era contra a fome. Agora é pelo iPhone". Se o governo não entender essa frase, não consegue entender o que está acontecendo. Porque a luta pelo iPhone significa que o sujeito se comunica, vende, compra, ele ganha o seu dinheiro, tudo no celular. Ele vive no celular. E o celular não pode ser roubado. O celular é um modo de vida. Faltou ao governo entender isso. Não basta colocar mais propaganda. O governo é lento, a gestão é mais fechada.
Fechada como?
Se você fizer uma lista das pessoas com quem o presidente Lula conversa de verdade, todos são do PT. E são seis ou sete, no máximo. É bem diferente do que se projetava. Quando Lula montou o governo, havia quatro ex-candidatos a presidente, Geraldo Alckmin, Haddad, Marina Silva e Simone Tebet. Tinha oito ex-governadores, todos saindo do mandato muito bem avaliados. Parecia um governo no qual gestão não seria problema. Só que no dia a dia ficou um governo muito centralizado, no qual o presidente fala com muito pouca gente.
Isso explica porque esse motim é liderado por aliados e não pela oposição?
Exatamente. Porque eles se sentiram alijados do poder. É surpreendente que um governo com a caneta na mão não vai conseguir colocar um partido a mais na sua aliança para a reeleição do que tinha em 2022.

Falta a Lula ter ministros mais íntimos, como eram Luiz Dulci, Gilberto Carvalho, Luiz Gushiken, José Dirceu, que podiam discordar e influenciá-lo?
Todas essas pessoas fundaram o PT com Lula, foram fazer comício de ônibus nos ano 1980, chamavam o presidente pelo primeiro nome. A equipe ministerial hoje é de outra geração. Rui Costa tem 62 anos, Gleisi Hoffmann tem 59, Alexandre Padilha, 53. Todos entraram no PT nos anos 1990, quando o Lula já era um mito. São pessoas que só obedecem o presidente e isso é ruim.
É um governo que também não conversa com o empresariado. Nos governos Lula 1 e 2, um empresário como Jorge Gerdau, por exemplo, ligava para o Lula e no outro dia ía a Brasília conversar com o presidente. Nenhum empresário hoje tem essa relação.
Por que há essa discrepância entre os números da economia, que não são tão ruins, com a percepção da sociedade sobre o cenário econômico?
O governo não notou o que estava acontecendo com o governo Joe Biden nos Estados Unidos. Biden conseguiu sair da pandemia de forma brilhante. O desemprego caiu para um nível baixíssimo, ele começou a baixar a inflação, mas a sensação de insatisfação continuou e foi o que o derrotou.
Lula não conseguiu ver que aquilo podia se repetir no Brasil. Se você pegar o último ano do governo Bolsonaro, os dois primeiros anos do Lula e este ano agora, o Brasil é um dos países que mais cresceu no mundo. Temos um dos mais baixos índices de desemprego da história e a massa salarial cresceu.
Por que há essa insatisfação, então?
Porque as pessoas não comem PIB. O PIB cresceu, mas como isso chega nas pessoas? Alguns grupos ganharam muito, algumas regiões ganharam mais que outras. Mas como o governo mostrou que ele estava do lado das pessoas? Como ajudou quem estava abrindo um negócio, como influenciou na segurança pública? Como o governo fez coisas de verdade? Faltou gestão.
Faltou comunicação, não?
Não. Faltou gestão. Comunicação sem ter o que mostrar não adianta. O PIB cresceu, mas a dona Maria ganhou mais dinheiro? Por exemplo, a crise do preço dos alimentos. Todo mundo sabe que os preços sobem antes da colheita. Como se resolve? Faz estoque, importa antes. Não espera o problema chegar.
O mais recente ato do ex-presidente Jair Bolsonaro em São Paulo foi esvaziado. Ele perdeu a liderança sobre o eleitorado de direita?
O discurso cansa. Bolsonaro está desconectado da sociedade. As pessoas não estão interessadas na anistia, na cabeleireira Débora (condenada pelos atos do 8 de Janeiro), na regulação das redes sociais. As pessoas estão interessadas no preço do arroz, do feijão, na falta de segurança, na falta de remédio.
A extrema direita fez um comício em que fala de pautas que só interessam a ela, então cada vez vai ter menos gente. Bolsonaro continua sendo um grande líder popular, mas a grande chance para o presidente Lula conseguir a reeleição é enfrentar um Bolsonaro em 2026, seja um dos filhos ou a esposa Michele Bolsonaro.

Para o senhor, Bolsonaro não vai apoiar o governador de SP, Tarcísio de Freitas?
Os sinais que a família Bolsonaro dá é que eles não confiam em outra pessoa que não seja da família Bolsonaro. Só teremos essa decisão no final do ano, depois da condenação e antes do cumprimento da pena.
O senhor enxerga Bolsonaro preso até o final do ano?
Ele provavelmente vai ser condenado e vai para prisão domiciliar. A decisão do Supremo em relação ao ex-presidente Collor é um indicativo, acho que se repetirá com Bolsonaro.
O senhor vê a direita dividida na eleição, com Tarcísio, Ronaldo Caiado, Ratinho Jr. e Romeu Zema?
Tarcísio não sai candidato sem o apoio do Bolsonaro. Daí os outros três se lançam pré-candidatos e se acertam em agosto para ter um candidato só. Não descarto também a hipótese de que haja um candidato tipo Pablo Marçal, alguém contra tudo e contra todos.
Existe no Brasil potencial para um candidato que misture o discurso do (presidente da Argentina, Javier) Milei com o discurso do (presidente de El Salvador, Nayib) Bukele. Algo na linha demite todo mundo do serviço público e prende todo mundo. Não estou dizendo que esse candidato ganha, mas que tem um potencial de 10%. Não existe ainda esse candidato, essa oferta, mas existe essa demanda. Pode ser que um partido médio ou pequeno fale: "Vou fazer essa oferta mesmo que perca, mas faço um bando de deputados".
Há espaço para uma terceira via, como sonha Eduardo Leite?
Zero, zero, zero. Nenhum. Em 2026, zero.

E até quando vai essa polarização?
Enquanto tiver Lula e Bolsonaro. Pode ser que dê uma esfriada em 2030.
No pós-2026, quem seria o herdeiro do espólio eleitoral da esquerda e da direita?
Depende quem vai ser eleito. Se Eduardo Bolsonaro for presidente, a polarização é garantida por mais oito anos. Se for um governador, o bolsonarismo tende a diminuir. Na esquerda, o PT adia a sucessão do Lula até não poder mais. Se Lula vencer, vai continuar adiando. Se Lula perder, haverá uma disputa fratricida absurda no PT. Não sei o que pode acontecer com o PT a partir da liberação dos ódios internos que são blindados em função da liderança do Lula. As disputas entre Haddad, Gleisi, Rui Costa e Camilo Santana vão emergir de forma muito pesada.
O senhor vê a ascensão de uma liderança de esquerda fora do PT, como o prefeito de Recife, João Campos (PSB)?
Se a gente for pensar no longo prazo, a direita tem muito mais jovens. Em termos de discurso digital, o (senador) Cleitinho e o (deputado) Nikolas Ferreira são dois fenômenos de competência. Você pode não concordar com o que eles falam, mas o potencial técnico é maravilhoso.
Na esquerda, tem o João Campos e mais ninguém. No PT, todos tem mais de 60 anos.
THOMAS TRAUMANN
Analista político
O advento das federações está formando forças políticas robustas. Essa nova configuração pode tornar os partidos mais ideológicos e menos fisiológicos?
Não tem nada a ver com ideologia, tem a ver com dinheiro. Numa conta simples, o PL vai ter no ano que vem R$ 1,1 bilhão de fundo eleitoral e R$ 4,5 bilhões em emendas. Tem corretoras de valores no Brasil que não tem esse dinheiro na mão. Os partidos estão crescendo e essas federações estão dando certo não porque têm convergências ideológicas, mas porque quanto mais dinheiro você tem, mais fácil você vai se reeleger.









