
Sob ameaça de intervenção da direção nacional, o diretório gaúcho do PSB vive um conflito interno. De um lado está o comando atual, aliado ao governo Eduardo Leite, e do outro o grupo do ex-deputado Beto Albuquerque, que tenta retomar o controle da legenda para reaproximá-la do PT e atrair Manuela D’Ávila, também cogitada para presidir a sigla no Estado. Beto e Manuela se reuniram nesta segunda-feira (30) em Porto Alegre (leia mais abaixo).
A cúpula do PSB observa a disputa à distância e deve tomar posição na próxima reunião da executiva nacional, prevista para a segunda quinzena de julho. Embora a decisão a ser tomada seja política, o colegiado precisará analisar um relatório que apurou denúncias de supostas irregularidades no congresso que elegeu José Stédile para a presidência do partido no Estado, cujo mandato se inicia em julho.
Adversários de Stédile, cerca de cem lideranças ligadas a Beto enviaram um dossiê à direção nacional alegando irregularidades, como assinaturas fraudadas e quórum fictício em congressos municipais que antecederam a eleição. O partido pediu ao secretário de Relações Internacionais, Paulo Bracarense, que apurasse as acusações.
Após ouvir os dois lados, Bracarense redigiu o parecer que será submetido à executiva. O tema é o mais abrasivo a ser conduzido na primeira reunião da nova direção pelo presidente nacional, o prefeito de Recife, João Campos, eleito no início de junho. Tanto o grupo de Beto quanto o de Stédile têm dois representantes na executiva.
— O congresso não foi legítimo. Inúmeras assinaturas foram feitas pela mesma pessoa, há fraude nas presenças — afirma Beto.
— O grupo que agora denuncia irregularidades participou do congresso e elegeu delegados. Foi uma eleição legítima — rebate Mário Bruck, atual presidente do PSB gaúcho.

Encontro com Manuela
Alijado do comando estadual pelo grupo de Stédile e Bruck, Beto tenta realinhar o partido à esquerda, em sintonia com a postura de João Campos. Disposto a concorrer ao governo de Pernambuco em 2026 e à Presidência da República em 2030, Campos aposta em alianças com o PT em praticamente todo o território nacional.
O principal trunfo de Beto nesta contenda é a possível filiação de Manuela D’Ávila. Sem partido desde o ano passado, quando deixou o PCdoB e cortejada por PT e PSOL, a ex-deputada tem dito que deve definir seu futuro político eleitoral até o final do ano.
Após o encontro desta segunda, tanto Manuela quanto Beto sinalizaram a possibilidade de parceria no ano que vem.
"Estamos avaliando as possibilidades eleitorais em 2026. Sabemos que será um ano duríssimo e queremos contribuir para que a extrema direita seja derrotada aqui no RS e nacionalmente", escreveu Manuela nas redes sociais.
"Nossa parceria é um presente e um orgulho. Que venha 2026, conte comigo sempre para as boas lutas que nos esperam!", respondeu Beto.
Todavia, a ex-deputada dificilmente entraria para o PSB caso o partido continue na base de Eduardo Leite. O objetivo de ambos é se unir numa frente de esquerda liderada pelo PT, com Manuela disputando uma das vagas ao Senado e Beto, uma cadeira de deputado federal.
Em conversas anteriores, a direção nacional do PSB ofereceu a presidência da legenda no Estado para Manuela.

Reaproximação após rompimento
No Rio Grande do Sul, PT e PSB estão distantes desde 2014, quando o próprio Beto rompeu com o governo Tarso Genro e apoiou o MDB, que lançou a candidatura de José Ivo Sartori ao Palácio Piratini.
As divergências com os petistas começaram, contudo, em 2004, quando Beto quis ser o candidato da esquerda à prefeitura de Porto Alegre, mas o PT não aceitou ceder a cabeça de chapa e lançou Raul Pont. A derrota para José Fogaça, então no PPS, encerrou um ciclo de 16 anos do partido no comando da Capital.
Candidatura frustrada em 2022
Em 2022, de novo Beto tentou atrair o PT, desta vez concorrendo a governador. Ele chegou a prometer a lideranças do partido, como Henrique Fontana e Paulo Pimenta, que abriria mão da reeleição em caso de vitória em troca do apoio, mas os petistas lançaram Edegar Pretto.
Houve um estranhamento em maio daquele ano, quando Lula e o então candidato a vice, Geraldo Alckmin (PSB), estiveram em Porto Alegre. A dupla recebeu no hotel Plaza São Rafael representantes de sete siglas (PT, PCdoB, PV, PSB, Psol, Rede e Solidariedade), mas Beto não compareceu, para desgosto de Lula.
Na ocasião, Beto negociava uma aliança com o PDT e acenava com palanque para Ciro Gomes no Estado. Sem conseguir firmar alianças, acabou renunciando à candidatura em 1º de agosto, às vésperas do início da campanha.
— Ali eu era pré-candidato, estava buscando apoios, e o PT já tinha seu candidato. Hoje eu quero que o PSB reencontre sua história. A presença no governo Leite é um equívoco. O partido diminuiu trocando apoio por cargos. Precisamos de um partido que tenha voto, coerência e esteja junto da esquerda — justifica Beto.
Atual direção rebate

Prestes a entregar a presidência a Stédile, Bruck reage ao discurso de Beto. O dirigente diz que o PSB segue fiel ao seu ideário e que está preparando o partido para a eleição de 2026 com seminários e eventos regionais.
Bruck salienta que o ex-deputado já apoiou governadores com o mesmo espectro ideológico de Leite, como Sartori.
— Não tenho nada contra o Beto, mas a base do partido escolheu o nosso grupo. Alianças são circunstanciais. Ele mesmo tirou o PSB do governo Tarso para apoiar Sartori. Já nós estivemos com o PT em vários municípios na eleição de 2024, inclusive em Porto Alegre, com Maria do Rosário. Isso não tira a essência do partido. Democracia não pode ser da boca para fora, tem que ganhar no voto — afirma Bruck.



