
A primeira baixa no secretariado de Porto Alegre, apenas 145 dias após o começo do segundo mandato do prefeito Sebastião Melo, expõe uma tensão no PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro. Principal aliada do governo municipal, a sigla substituiu Rosani Pereira pela vereadora Fernanda Barth na Secretaria de Desenvolvimento Econômico.
Fernanda tomou posse nesta segunda-feira (26), ao lado de Melo e da vice-prefeita, Betina Worm, também integrante do PL. Por trás da mudança, está uma insatisfação da bancada na Câmara Municipal.
Além disso, há reclamações dos deputados estaduais e federais sobre a forma de condução do partido, liderado por Giovani Cherini, no Estado, e Luciano Zucco, na Capital, com reflexos nas eleições de 2026.

Mudança na secretaria após instabilidade na Câmara
Embora o PL tenha quatro secretarias, mesmo número que o MDB, os vereadores sempre demonstraram desejo de ocupar ao menos uma pasta. Já na transição, Fernanda cobiçava a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, uma das vitrines do governo Melo.
O prefeito, porém, preferia alguém com melhor trânsito na iniciativa privada. Ciente do desejo, Zucco, presidente do PL em Porto Alegre, chegou a Rosani, então vice-presidente da Associação Comercial de Porto Alegre. Indicada pelo deputado federal, ela foi nomeada e começou a trabalhar.
Preteridos, os vereadores reagiram em abril, durante as discussões para votação de um projeto de lei que criava 17 cargos em comissão e oito funções gratificadas na Secretaria do Planejamento. Para surpresa do Paço Municipal, a bancada do PL avisou que votaria contra.
Interlocutores políticos de Melo intercederam e três dos quatro parlamentares recuaram. Jessé Sangalli manteve o voto contrário, postura que deu pretexto aos dois vereadores do Novo para também votar contra.

Postura incomodou prefeito
Irritado, Melo mandou recados. Disse que o PL não era somente uma sigla da base, mas parte majoritária do governo, com quatro pastas e a vice-prefeita, Betina Worm. Exigiu coesão interna, fidelidade, e disse que, se fosse necessário à pacificação, poderia alçar um vereador ao primeiro escalão. Costurada por Melo e Zucco, a solução foi nomear Fernanda à Secretaria de Desenvolvimento Econômico.
A notícia da mudança constrangeu o governo, por ter sido divulgada durante viagem do prefeito a Brasília e antes de ele ter uma conversa com Rosani. Outro fator a gerar desgaste foi a chegada de Alexandre Bobadra à Câmara Municipal. Primeiro suplente do partido, ele teve o mandato cassado na legislatura passada e foi indiciado no inquérito que apura suspeita de corrupção na Secretaria da Educação.
Toda essa movimentação provocou ruídos no governo e no PL. No entorno de Melo, é latente o descontentamento com a instabilidade da relação com a bancada liberal. Estrategistas do prefeito também reclamam de uma suposta rendição do governo aos humores do aliado, expressa na troca precoce em uma secretaria fundamental para os rumos da gestão.
Para o núcleo mais restrito de assessores do prefeito, é muito poder para um partido que, embora seja o maior da base, tem quatro votos num consórcio formado por 23 vereadores.
— O Melo me procurou perguntando se poderia colocar a Fernanda na secretaria. Foi uma construção política, sem imposição. O PL é governo, tem a vice-prefeita. A Rosani fez um bom trabalho, e agora a Fernanda tem todas as condições para dar sequência — comenta Zucco, negando instabilidade na relação com o prefeito.

Articulações para 2026 causam desgaste
No PL, o incômodo é maior entre os deputados. Nos bastidores, eles reclamam que a tomada de decisões estaria concentrada somente em Zucco e Cherini, deputado federal e presidente estadual da legenda. Há relatos de que eles estariam insuflando candidaturas em bases eleitorais dos colegas, o que dificultaria a reeleição dos atuais parlamentares.
No Interior, os problemas seriam o incentivo às candidaturas a deputado estadual do vereador Rony Gabriel em Erechim, terra de Paparico Bacchi, e de Roberta Mércio em Bagé, berço de Adriana Lara. Em Porto Alegre, a pretensão dos vereadores Coronel Ustra e Jessé Sangalli em concorrer a deputado federal tiraria votos de Bibo Nunes, enquanto Comandante Nádia e Fernanda Barth ameaçariam um novo mandato de Rodrigo Lorenzoni na Assembleia Legislativa.
— Nenhum partido cresce baseado no egocentrismo. Para minha estrela brilhar, não preciso apagar a dos outros. Sou um deputado de Porto Alegre e nunca fui chamado para nenhuma reunião, nem sequer consultado. Não espero nenhum apoio do partido à minha candidatura à reeleição — reage Bibo Nunes.
Reunião na Assembleia incomodou deputados
Outro foco de tensão foi uma reunião de Zucco e Cherini com os cinco deputados estaduais do partido, em março. Na ocasião, Zucco cobrou postura mais combativa ao governo Eduardo Leite e sugeriu a criação de uma CPI.
Os parlamentares reagiram, dizendo que faltava apenas uma assinatura para a instalação de uma comissão para investigar a atuação da CEEE Equatorial e que o próprio irmão do deputado, Delegado Zucco (Republicanos), não havia subscrito o requerimento, enquanto Rodrigo Lorenzoni, Paparico e Kelly Moraes já o haviam feito. Zucco então se dirigiu aos outros dois deputados estaduais, Adriana Lara e Claudio Tatsch, exigindo que aderissem à CPI.
— Foi uma cobrança normal, afinal, o PL é oposição ao governo Leite. Não há uma crise de bancada. Temos questões pontuais a resolver, como qualquer outro partido, mas estamos unidos para formar uma frente de direita para a eleição de 2026 — diz Zucco.
Os deputados estaduais deixaram a reunião incomodados. Duas semanas depois, manifestaram o desconforto a Cherini durante almoço na Assembleia, ocasião em que disseram não se sentirem contemplados no projeto político da legenda.
Mais recentemente, surgiram novas reclamações por causa da propaganda do PL na TV. Ficou acertado que cada comercial de 30 segundos teria participação de dois deputados — 12 segundos para cada —, com Jair Bolsonaro encerrando a inserção masculina e Michele Bolsonaro a feminina. Para surpresa das deputadas, a esposa de Cherini, Adriane Cerini, ocupou sozinha 22 segundos de um comercial.
A despeito dos problemas internos, não há contestação à candidatura de Zucco a governador. O deputado é reconhecido pelos colegas como uma liderança nacional da oposição ao governo Lula e principal nome do partido no Estado.
— O partido é maior do que os mandatos. Às vezes, o que acontece é que interesses individuais não comungam com interesses coletivos. Mas estamos unidos. Nosso inimigo está fora do PL — afirma Cherini.
Integrantes das bancadas federal e estadual do PL voltaram a se reunir nesta segunda, na Capital. No encontro, confirmaram o nome de Zucco como candidato ao governo do Estado.
Em comunicado divulgado pelo partido após a reunião, o nome do ex-ministro e postulante do partido ao Piratini em 2022, Onyx Lorenzoni, foi lançado para disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados. Horas depois, Onyx negou a informação e disse que ainda não decidiu a qual cago irá concorrer em 2026.



