
Em entrevista dada à coluna de Mônica Bergamo, no jornal Folha de S.Paulo, o empresário Paulo Marinho, ex-aliado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), declarou que um dos interesses do clã no controle da Polícia Federal possa ter surgido desde um episódio ocorrido ainda na campanha presidencial.
Na conversa, Marinho disse que "ia contar uma história que nunca tinha falado antes, pois não tinha razão para fazer isso", emendando que tem datas anotadas e que as informações seriam bem precisas.
Entre as informações, estaria que Flávio Bolsonaro contou que, uma semana depois do primeiro turno, o ex-coronel Miguel Braga recebeu um telefonema de um delegado da Polícia Federal do Rio dizendo que tinha um assunto do interesse do candidato ao Senado e filho do então presidenciável.
Quando um grupo de confiança de Flávio foi a um encontro do policial, o mesmo teria dito: "Vai ser deflagrada a operação Furna da Onça, que vai atingir em cheio a Assembleia Legislativa do Rio".
O policial, que teria dito ser adepto da campanha de Jair Bolsonaro, afirmou que iriam segurar a operação, para "não interferir no resultado das eleições".
O empresário Paulo Marinho foi um dos mais importantes e próximos apoiadores de Jair Bolsonaro na campanha presidencial de 2018. Ele não apenas cedeu sua casa no Rio de Janeiro para a estrutura de campanha do então deputado federal, como foi candidato — e eleito — suplente na chapa de Flávio Bolsonaro.
Resposta de Flávio Bolsonaro
O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), classificou a entrevista à Folha de S.Paulo de seu suplente, Paulo Marinho, de "invenção de alguém desesperado e sem votos". Em nota neste domingo, Flávio disse que Marinho "preferiu virar as costas a quem lhe estendeu a mão" e trocou a família Bolsonaro pelos governadores João Doria (PSDB), de São Paulo, e Wilson Witzel (PSC), do Rio de Janeiro. O ex-aliado de Bolsonaro é pré-candidato à prefeitura do Rio pelo PSDB.
Flávio também alega que Marinho tem interesse em lhe prejudicar, já que, em caso de algum impedimento do hoje senador, é o seu substituto na Casa.
"Ele sabe que jamais teria condições de ganhar nas urnas e tenta no tapetão. E por que somente agora inventa isso, às vésperas das eleições municipais em que ele se coloca como pré-candidato do PSDB à Prefeitura do Rio, e não à época em que ele diz terem acontecido os fatos, dois anos atrás?", escreve Flávio.
PGR vai analisar relato de vazamento
A Procuradoria-Geral da República (PGR) informou neste domingo (17) que vai analisar o relato do empresário Paulo Marinho à Folha de S.Paulo sobre o suposto vazamento. O procurador-geral, Augusto Aras, discutirá a denúncia com a equipe de procuradores que atua em seu gabinete em matéria penal. Deve decidir se cabe investigar o caso no âmbito do inquérito que apura, com base em denúncias do ex-ministro da Justiça Sergio Moro, se Bolsonaro tentou interferir indevidamente na Polícia Federal.
Ele poderá requerer o depoimento de Marinho, por exemplo, o que não está definido por ora. Segundo auxiliares de Aras, ainda não houve tempo para uma análise aprofundada do caso. Será necessário analisar se o assunto guarda pertinência com a investigação já em curso.
Oposição quer que Marinho seja ouvido em inquérito
O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) classificou as declarações do empresário como "gravíssimas" e afirmou que elas revelam "a interferência de Bolsonaro e de sua família na Polícia Federal antes mesmo do início de seu governo".
Líder da minoria no Senado, ele disse que vai pedir que Paulo Marinho seja ouvido no inquérito que tramita no STF (Supremo Tribunal Federal) para apurar as suspeitas de interferência de Bolsonaro na Polícia Federal.
"A nação não suporta em meio à uma pandemia, o presidente da República criando crises políticas e se envolvendo em todos os tipos de crimes. É urgente superarmos Jair Bolsonaro. O impeachment é urgente. Só assim reconduziremos o país a um caminho seguro", escreveu o senador em rede social.
Randolfe afirmou ainda que vai protocolar na segunda (18) uma representação no Conselho de Ética do Senado contra Flávio Bolsonaro pedindo a apuração dos fatos. Se aceito, o pedido pode levar a abertura de um processo de cassação do senador.
Defesa de Moro também estuda pedir depoimento
Assim como Randolfe, a defesa do ex-ministro da Justiça Sergio Moro estuda pedir o depoimento de Paulo Marinho no inquérito que investiga a suposta interferência do presidente na Polícia Federal.
A avaliação é a de que o ex-aliado do presidente pode reforçar a narrativa de Moro. O ex-ministro disse à PF que Bolsonaro queria interferir na corporação. Os advogados do ex-juiz da Lava-Jato irão esperar ate terça (19) uma manifestação da PGR (Procuradoria Geral da República) sobre as declarações do empresário.
Marinho pede proteção a Witzel
No Twitter, o empresário agradeceu a repercussão das declarações e disse que pediu proteção a ele e à sua família ao governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel.


