
O primeiro turno da disputa presidencial de 2026 terminará com apenas um debate presidencial em rede nacional. Com o cancelamento da transmissão que ocorreria na noite de quinta-feira (1º) na Rede Globo, também será a primeira eleição em 20 anos sem confronto direto entre os dois candidatos que lideram as pesquisas no primeiro turno.
Em geral, a percepção entre os cientistas políticos é de que o esvaziamento dos debates é ruim para os eleitores e para a democracia. Especialistas ouvidos por Zero Hora levantam questões sobre o formato dos programas e o impacto da ausência deles, em um contexto em que a internet ocupa espaço importante na maneira de se informar e debater ideias.
Carlos Borenstein, cientista político da Arko Advice, avalia que o efeito se dá, especialmente, entre os eleitores que ainda estão indecisos.
Em outros pleitos já temos observado que há um contingente importante do eleitorado, que chamamos de eleitor estratégico, que se define na reta final. Ele costuma se utilizar tanto da propaganda eleitoral quanto do debate da Rede Globo, por ser um evento que ocorre em horário nobre e pela abrangência que a TV tem, para se definir.
CARLOS BORENSTEIN
Cientista político da Arko Advice
Para o analista, o cancelamento de um debate tradicional como o da Globo pode acentuar um efeito já observado em outras eleições: o aumento da abstenção entre os eleitores e o desinteresse pela pauta política, que já é elevado no país.
— Há um contingente de eleitores indecisos que se mobilizou para ver o debate. E se frustra com isso, porque o evento não aconteceu. Sem dúvida, a combinação de todos esses aspectos é muito ruim, porque pode produzir um aumento da abstenção. Se pegarmos os dados do primeiro turno da eleição presidencial de 2022, o chamado não voto, ou seja, a abstenção mais os brancos e nulos, ultrapassou 25% do eleitorado. Isso é quase um terço da população não comparecendo às urnas — alerta o cientista político.
O contexto que levou à não realização do programa suscitou críticas de entidades representativas da imprensa. Em nota conjunta assinada com a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) manifestou “profunda indignação” com as decisões que levaram ao cancelamento do debate. Segundo o texto, “os excessos judiciais atropelaram o direito de os cidadãos terem acesso às propostas dos candidatos”.
Cientista político, professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do Comitê em Defesa da Democracia, Benedito Tadeu César analisa que a influência da televisão ainda é muito forte e que o veículo segue relevante mesmo frente ao crescimento da internet. Ele pondera que o formato dos debates deveria priorizar os candidatos com chances reais na disputa, em modelo semelhante ao dos Estados Unidos.
— O debate é para o eleitor se informar, formar opinião e decidir voto. No formato que nós temos, temos um show de enfrentamentos que não rende — avalia.
O professor de Ciência Política da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Daniel de Mendonça acrescenta que o cancelamento do debate pode ter provocado uma discussão mais propositiva do que um mero ataque entre os candidatos.
— Se pensarmos o debate de uma maneira romântica, é o momento que os candidatos têm para apresentar suas ideias, quando o que a gente menos vê são propostas e, sim, um levantando escândalos para diminuir o outro. Hoje, as pessoas estão debatendo o “não debate” e isso também é um elemento democrático, e talvez uma forma muito mais aberta da discussão — diz Mendonça.
Debate passou a ser visto como "armadilha"
A ausência dos principais candidatos em debates também consolida um novo cenário estratégico nesta campanha presidencial, de acordo com especialistas, mesmo que a TV ainda seja protagonista na busca de informações políticas. Levantamento realizado pelo Datafolha em março indicou que 58% dos entrevistados utilizam os canais de televisão para se informar sobre o tema.
A margem na liderança, entretanto, é pequena. O índice das redes sociais é de 54%. Mesmo sem ser líder, a presença no meio digital apresenta vantagens aos candidatos com candidaturas mais sólidas, segundo especialistas.
A principal delas é o controle sobre a mensagem enviada ao público. Em entrevistas, existe a possibilidade de gerir variáveis, como a escolha do interlocutor e o tempo de exposição.

Como os candidatos líderes da pesquisa já têm visibilidade, o debate passa a ser visto como uma possível armadilha. A opção é evitar um ambiente bélico. As campanhas optam, assim, por uma exposição mais segura.
Em uma entrevista na internet, uma resposta torta pode ser diluída em uma conversa longa. Em um debate, há tempo determinado para a explicação de questões complexas. O adversário também pinçará o pior momento para reproduzir em seus espaços.
— O debate é uma arena, é uma comparação onde o candidato é jogado para o confronto, é exposto às perguntas difíceis e situações complexas — argumenta o consultor político Alexandre Bandeira.
Bandeira aponta a diferença entre ser um bom governante e um bom debatedor:
— O debate também não serve mais para aferir se um candidato vai ser um bom governante. Ali é a arena da oratória, aquele que estiver melhor preparado vai falar melhor, mas não necessariamente será o melhor governante.
Apesar do esvaziamento na campanha deste ano, a importância do debate como instrumento de decisão por parte do eleitor não perdeu relevância. Em junho, a pesquisa Panorama Eleitoral Brasileiro, realizada pelo Instituto Informa, apontou que 53,3% dos entrevistados enxergam os debates eleitorais como os conteúdos com maior poder de chamar a atenção ou levar a troca de votos.
O valor do debate para o eleitor continua o mesmo. O eleitor confia mais num trecho de debate do que num vídeo feito em estúdio. Hoje o candidato pode passar o mesmo horário numa transmissão própria ou num podcast, falando com uma audiência enorme, sem nenhum adversário. O debate obriga o candidato a falar com o país inteiro ao mesmo tempo.
MARCELO VITORINO
Consultor de marketing político






