
A vida política do Brasil pós-redemocratização é permeada por Luiz Inácio Lula da Silva mais do que por qualquer outro político. Neste domingo (4), a população vota para escolher o seu representante máximo pela décima vez seguida. Em sete delas, o candidato do PT — prestes a completar 81 anos — concorreu à Presidência. Uma trajetória de reinvenção para manter a relevância política ao longo de cinco décadas.
Com o estofo de ser o deputado federal mais votado do Brasil em 1986, com 650 mil votos, alçou-se como candidato à Presidência três anos depois. Carregava consigo traços rústicos. A voz rouca retumbava em um rosto de espessa barba preta. O corpo vestia roupas menos formais naqueles dias quentes do fim de 1989.
Lula dava uma boiada para entrar numa briga e uma fazenda inteira para permanecer nela. Sua combatividade o fez chegar ao segundo turno, mas também o levou a negar o apoio oferecido pelo candidato derrotado do PMDB, Ulysses Guimarães. Um dos seus erros históricos, admitidos com o tempo.
Sartre ou encanador
O menosprezo ao Plano Real minou sua candidatura em 1994. Pai da nova moeda, Fernando Henrique Cardoso ganhou no primeiro turno. Torneiro mecânico, Lula viu suas origens humildes atacadas durante a campanha. Empresária teatral, Ruth Escobar resumiu em duas opções a escolha dos brasileiros: "votar em Sartre ou escolher um encanador". A declaração deixou cicatrizes naquele homem, nascido em Garanhuns (PE) como Luiz Inácio da Silva. O Lula foi acrescentado, em cartório, ao nome em 1982.
Antes do nascimento de Lula, o patriarca dos Silva, Aristides, migrou para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Quando o caçula completou cinco anos, Aristides voltou para pegar a família e levá-la à maior cidade brasileira. Na carroceria de um caminhão tipo "pau-de-arara", eles levaram 13 dias e 13 noites para desembarcar no destino final.
A sentença de Ruth Escobar o marcou a ponto de Lula usar, ao longo dos anos, variações de frases como “No meu governo, um filho de encanador vai disputar vaga na universidade com o filho de uma empresária de teatro."
Entre 1993 e 1996, o atual presidente singrou pelo território brasileiro nas chamadas Caravanas da Cidadania. Visitou 359 cidades do Brasil profundo para ouvir os anseios da população. Mas não foi o suficiente para ganhar a eleição de 1998. Desta vez, tinha Leonel Brizola (PDT) como vice.
Paz e amor
Dias depois de nova derrota em primeiro turno, o telefone do apartamento de Lula tocou. O filho Fábio Luís atendeu, mas não repassou o recado. No dia seguinte, outra vez o telefone chamou. Marisa Letícia, então mulher de Lula, atendeu. Após desligar, perguntou ao filho sobre a ligação do dia anterior. Na resposta, soube que um tal de Fernando Henrique havia ligado.
Agendou-se uma janta entre o presidente reeleito e seu adversário ferrenho. O encontro na residência presidencial é a primeira pincelada de um novo Lula. O incendiário saía de cena. Alicerçava-se ali a característica que marcaria seus movimentos políticos neste século.
Ao furar sua bolha, Lula partiu em busca dos votos dos setores que não o apoiavam. Para a disputa nas urnas em 2002, trouxe o empresário José Alencar para ser o seu vice. Sua imagem foi rediagramada com roupas mais formais.
Nem todas as discussões lhe apeteciam mais. Enquanto seus concorrentes à época, Ciro Gomes e José Serra, se digladiavam e o convidavam para o ringue eleitoral, ele mostrava sua nova atitude. "Lulinha quer paz e amor" virou slogan informal na campanha gerida pelo marqueteiro Duda Mendonça.
Holofotes desde sempre
O garoto que não terminou o colégio e se profissionalizou como torneiro mecânico pelo Senai se tornou o 35º presidente da história do Brasil. A vida política de Lula começou por influência do irmão José Ferreira da Silva, responsável por sindicalizá-lo. Ainda sob o regime militar, o futuro presidente organizou, em 1978, a primeira greve do período militar. Dois anos depois, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores.
Sempre o rosto mais visível do PT, foi preciso encontrar outra figura para a linha de frente do partido. Nem mesmo o escândalo do Mensalão abalou suas estruturas políticas. No fim de seu primeiro governo, o deputado Roberto Jefferson apresentou denúncia sobre um esquema de pagamentos ilegais a parlamentares.
O caso não impediu a reeleição de Lula, que não foi denunciado no processo. Mas companheiros de longa data não sobreviveram ao episódio. Caso de José Dirceu, forte nome na linha sucessória. Foi preciso escolher outro caminho.
O nome indicado para a transição foi o de Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil no segundo mandato de Lula. Os 83% de aprovação de sua gestão ajudaram a eleger a petista para dois mandatos.
Lula nunca saiu dos holofotes. Nem mesmo nos 580 dias em que ficou preso em uma cela de 15 metros quadrados no quarto andar do prédio da Polícia Federal em Curitiba, após ser alvo da Operação Lava-Jato.
Em julho de 2017, o juiz Sergio Moro condenou o presidente a nove anos e meio de detenção pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Dois meses antes da sentença, os dois travaram um embate ácido durante as cinco horas de depoimento do petista.
No dia de se entregar à polícia, em 7 de abril de 2018, ele discursou para uma multidão em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo (SP). Assistiu da cela à vitória consagradora de Jair Bolsonaro (então no PSL) sobre Fernando Haddad (PT).
Solto em novembro de 2019 por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), esperou três anos para um embate direto com Jair Bolsonaro (PL). Venceu a eleição mais apertada da história.
Um ciclo eleitoral depois, e sem a mesma popularidade de seus mandatos anteriores, Lula tomou medidas de impacto na reta final da corrida eleitoral, como o reajuste do Bolsa Família e a proibição das bets.
Agora, seu principal adversário político está preso e impossibilitado de concorrer. Lula tem em Flávio, filho do rival, o seu oponente. Seja qual for o resultado, não haverá ligação para jantar na residência presidencial. Não estamos mais em 1998.
Lula e eleições presidenciais
Petista concorreu em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2022 e 2026


