
Em junho passado, em pleno dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo, eclodiu um conflito que já ocorria nos bastidores da família Bolsonaro. A briga foi em torno das alianças para a eleição no Ceará.
A ex-primeira dama Michelle Bolsonaro expôs a crise ao publicar vídeos afirmando que o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), 45 anos, havia sido ríspido e a maltratado em uma ligação. No dia seguinte, apesar de negar as acusações, o enteado pediu desculpas. Recluso em prisão domiciliar, a posição de Jair Bolsonaro sobre o episódio nunca veio a público.
Brigas à parte, a vontade de Flávio prevaleceu no Ceará — o PL apoiou Ciro Gomes (PSDB) e, em 10 de julho, foi lançada a pré-candidatura de Alcides Fernandes ao Senado. Duas decisões contra a vontade da madrasta.
É mais ou menos assim, raramente em harmonia, mas ainda mais raramente malsucedido, que o "01" se estabeleceu como principal liderança na condução do legado de Jair na missão de levar o sobrenome Bolsonaro de volta ao Palácio do Planalto.
Início da trajetória
Flávio Nantes Bolsonaro nasceu em 1981 em Resende (RJ), filho mais velho dos cinco que Jair teve ao longo de três casamentos. Cresceu na capital fluminense, onde se graduou em Direito pela Universidade Candido Mendes, além de concluir cursos de pós-graduação em Políticas Públicas e em Empreendedorismo.
Flávio nasceu em uma família que faria da política uma atividade hereditária: por influência do pai, seguiu esta carreira, assim como os irmãos Carlos, Eduardo e Jair Renan. De todos, é o com a trajetória política mais consolidada, maior poder de articulação, e, principalmente na comparação com Carlos, Eduardo e o próprio pai, vende a imagem de “Bolsonaro moderado”. Em contrapartida, entre os membros da família, é o que tem mais suspeitas de irregularidades e investigações ligadas a seu nome.
Em 2002, com 21 anos, foi eleito deputado estadual, dando início a uma trajetória na política que, aos atuais 45 anos, já ocupa mais da metade de seu tempo de vida. Na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), se mostrou um político hábil desde jovem, sendo reeleito em 2006, 2010 e 2014. Como deputado, notabilizou-se por defender projetos de apoio às forças de segurança pública.
Um ato de Flávio ainda no primeiro mandato ganharia outra conotação anos depois. Em 2005, o então deputado concedeu a Medalha Tiradentes, maior honraria da Alerj, para o policial Adriano da Nóbrega. Adriano, que na ocasião já estava preso há mais de um ano, seria posteriormente reconhecido como miliciano e um dos líderes do “escritório do crime” — a mãe e a ex-mulher de Adriano também trabalharam no gabinete de Flávio.
Em 2016, Flávio deixou o Partido Progressista (PP) e se filiou ao Partido Social Cristão (PSC) para se candidatar à Prefeitura do Rio de Janeiro. Já estava casado com sua esposa Fernanda desde 2010, e tinha visto o nascimento das filhas Luiza, em 2012, e Carolina, em 2014. Ficou em quarto lugar, com 14% dos votos.
Chegada a Brasília
A derrota em 2016 é, até hoje, a única disputa eleitoral que Flávio não venceu. Em 2018, o movimento conservador já havia ganhado mais força no Brasil, e a mesma onda que levou Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto também levou seu filho mais velho ao Senado.
Flávio, então no Partido Social Liberal (PSL), teve 4,37 milhões de votos. Foi o senador mais votado no Rio e o quarto em todo o país.
No Senado, continuou próximo à Segurança Pública — foi relator do projeto de lei que restringiu a saída temporária de presos condenados, a chamada "saidinha". Também atuou como presidente da Comissão de Segurança Pública. Na segunda metade, com Lula como presidente, atuou como líder da Minoria no Congresso.
Envolvimentos com a Justiça
Durante sua trajetória, Flávio também colecionou episódios de investigações da Justiça, apesar de nunca ter sofrido nenhuma condenação criminal. O caso mais conhecido é o das “rachadinhas”, quando foram investigadas movimentações financeiras de seu então assessor, Fabrício Queiroz. Ele foi denunciado, mas em 2022 o Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro rejeitou a denúncia em razão de várias provas do processo terem sido anuladas.
Em 2026, já como pré-candidato à Presidência, seu nome apareceu na teia da investigação ligada a Daniel Vorcaro e o Banco Master. Em setembro, foi relevado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que Flávio é investigado em um inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Campanha à Presidência
Ungido a candidato pela vontade de Jair Bolsonaro de dentro da prisão, Flávio afirmou que o pai irá colocar a faixa de presidente nele em janeiro, e que vai "honrar todos os perseguidos pelo Judiciário". Flávio defende a anistia aos envolvidos no 8 de Janeiro, incluindo o pai, e já assinou uma PEC para que os ministros do Supremo tenham mandatos de 10 anos, e, se eleito, promete reforma ainda mais ampla no Tribunal.
Sua candidatura cresceu e chegou ao empate técnico com o presidente Lula na mesma velocidade em que o STF entrou em crise. Ironicamente, pelas relações do mesmo Daniel Vorcaro com o ministro-relator que sentenciou Jair à prisão, Alexandre de Moraes.
Desde o início de sua trajetória na política, a carreira de Flávio foi impulsionada pelo sobrenome, mas a ele Flávio adicionou traquejo e poder de articulação. Até o final de outubro, saberá se isso será suficiente para chegar ao Palácio do Planalto.


