
A três dias do primeiro turno das eleições de 2026, o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou, na noite desta quinta-feira (1º), de uma entrevista ao Flow Podcast. A conversa, que durou cerca de uma hora e 40 minutos, ocorreu na residência oficial da Presidência da República, o Palácio do Alvorada.
Na quarta-feira (30), o presidente disse que não iria ao debate da TV Globo e logo após confirmou presença no programa transmitido pelo YouTube. Após decisões judiciais desta quinta-feira (1º) e do anúncio de Flávio Bolsonaro (PL) de que não iria ao debate, a emissora cancelou o encontro.
Questionado pelo apresentador do Flow, Igor Coelho, por que não foi ao debate da Globo, Lula respondeu:
— Há um tempo que eu tenho questionado os debates da Globo.
Na sequência, explicou a decisão:
— Quando você tem cinco ou seis candidatos, que você fala um minuto e espera 10 minutos, fala dois minutos e espera 10 minutos, não tem sequência. É como se o jogador desse um pique e voltasse para descansar, desse um pique e voltasse para descansar. Não, o cara tem que jogar o jogo.
Ainda sobre a decisão de não participar do evento televisivo, o presidente disse que acredita que a discussão não tem efeito:
— Eu, sinceramente, acho que esse debate do infrutífero não produz nada, não dá sequência. E aí o pessoal começa a fazer gracinha. Quando você está numa disputa para o presidente da República, é uma coisa mais séria. Você está discutindo o país, está discutindo o povo brasileiro, a soberania brasileira. Você não está discutindo o que é mais engraçado, quem vai lacrar mais aquela piadinha. Não é assim que faz.
A entrevista abordou questões como a proibição das bets, o caso do Banco Master, o escândalo do INSS, a relação com Trump e a crise no Supremo Tribunal Federal (STF).
Críticas ao adversário
Durante a conversa, que começou por volta das 21h, o petista criticou Flávio Bolsonaro (PL), seu principal adversário neste pleito, e disse acreditar que será reeleito em primeiro turno:
— Você imagina disputar a Presidência da República com uma pessoa desqualificada como o Flávio Bolsonaro? Ele não tem passado, não tem presente e não tem futuro. Você disputa com alguém que está qualificado para ser presidente da República, que tem uma história, que tem uma biografia, é uma coisa que vale a pena disputa. Mas eu, sinceramente, acho que vou ganhar as eleições no primeiro turno.
Candidato à reeleição falou sobre políticas públicas
Além de citar políticas públicas criadas durante seus mandatos, como os programas Minha Casa Minha Vida, Brasil Sorridente e Agora Tem Especialista, Lula destacou avanços na educação brasileira. Segundo o presidente, em menos de quatro anos, foram criados 112 institutos federais (IFs).
— Nesse próximo mandato, Igor, queremos formar milhares de jovens na questão desse mundo digital. Ou seja, o Brasil não vai ficar devendo nada a ninguém sob inteligência artificial. A gente quer fazer uma revolução na formação de engenheiro, de pesquisador, de geofísico para a gente explorar a terra rara de minerais críticos.
Relação com Trump
Lula citou também a relação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o tarifaço imposto pelo país norte-americano aos produtos brasileiros:
— Ontem (quarta-feira, 30) houve uma reunião com o Trump. O Trump sabe que nós temos coisas estratégicas que ele precisa. Ainda não coloquei em prática a lei da reciprocidade, mas ele é importador de nióbio, e 60% do nióbio dele é aqui no Brasil. E ele sabe que na hora que a gente colocar a reciprocidade, eu vou jogar do mesmo jeito que ele jogou. O que eu não aceitei é mentir a respeito do Brasil. Ninguém vai mentir para mim.
Lula sobre crise no STF: "Está levando a Suprema Corte a perder credibilidade na sociedade"
Logo após Lula defender uma reforma no Poder Judiciário, Igor Coelho falou sobre as relações do presidente no Supremo Tribunal Federal (STF), ao que Lula respondeu:
— Não indico ninguém para fazer favor para mim.
E completou:
— O Congresso tem a sua função, a Suprema Corte tem a dela, e a Suprema Corte é a mais poderosa. Ela, embora seja um tribunal político, é a guardiã da sociedade. Depois de uma decisão da Suprema Corte, ninguém pode tomar mais atitude. É a guardiã da Constituição. Deveria ser.
Sobre a crise enfrentada pelo STF, Lula mencionou que "o que está acontecendo está levando a Suprema Corte a perder credibilidade na sociedade".
— Eu chamei o (Edson, presidente do STF) Fachin, eu conversei com o Fachin três vezes nesse processo todo. Falei assim: "Você não pode deixar a Suprema Corte ficar se digladiando entre eles". Tem que ter responsabilidade com a sociedade. O que o povo humilde vai pensar do que está acontecendo na Suprema Corte? Assuma a responsabilidade como presidente e tome conta disso. Na minha opinião, ele não fez o correto. Mas também não posso dar palpite mais do que isso, meu querido.
Caso Master e encontro com Vorcaro
Ao citar as supostas relações dos ministros do Supremo com o ex-banqueiro e ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, Lula defendeu uma investigação aprofundada:
— Acho que nós temos que apurar todo mundo. Eu disse para o Alexandre de Moraes: "Você deve uma explicação à sociedade brasileira. Você poderia ter dito, olha, a mulher é dona do escritório, ela fez o contrato, eu não sou, eu advogo mais. Não, você não diz nada, cara".
Sobre encontro que teve com Vorcaro, Lula disse que a reunião durou meia-hora.
— E o que ele queria contigo? — perguntou Igor Coelho.
— O que todo mundo que está quebrado quer. Eu aqui (no Palácio do Alvorada) recebo todo mundo. (...) Nesse caso, esse rapaz veio aqui e disse: "Estão me perseguindo politicamente". Eu falei: "No meu governo não tem perseguição política. Você está sendo investigado pelo Banco Central. Se a gente encontrar coisa errada, você vai pagar. Se você não tiver coisa errada, você vai sobreviver". Ele tinha coisa errada, nós fechamos o banco. É isso — respondeu Lula.
Proibição das bets
Lula negou que a proibição das casas de apostas digitais, chamadas de bets, tenha sido uma iniciativa "eleitoreira". A medida provisória — assinada a nove dias do pleito — inclui o fim das apostas esportivas e de cassinos online, como o "Jogo do Tigrinho", e tem como objetivo, segundo o governo, de reduzir endividamento das famílias brasileiras.
— Por que eu não fiz antes? Porque eu não sabia.(...) Eu tomei a decisão depois da conversa que eu tive com essas pessoas, eu não tinha noção da gravidade do problema. Eu suspeitava, mas não tinha noção. E pelo fato da gente ter eleição é que eu acabei mesmo, porque se eu não acabo e eu não ganhar as eleições, jamais ia acabar — disse o presidente.
Escândalo do INSS
Luiz Inácio Lula da Silva foi também questionado sobre o esquema de fraudes e desvios de dinheiro de aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), escândalo descoberto em 2025 e que tem prejuízo estimado em R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. O presidente alegou que foi em seu governo que as investigações tiveram início:
— Tanto nós sabíamos que nós fomos investigar. Agora, quando a gente investiga com seriedade, você leva tempo para poder chegar. E nós investigamos dois anos para poder desmontar a quadrilha. Nós descobrimos. Encontramos 5 milhões de aposentados que tinham sido enganados.
Sobre o suposto envolvimento de seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, com o empresário Antônio Camilo Antunes, o "Careca do INSS", Lula defendeu que, se houver irregularidades, ele também deve ser investigado:
— Ele sabe que vai ter da minha parte toda a solidariedade, mas terá que prestar conta da sociedade.
Lulinha é alvo de ao menos três investigações autorizadas pelo STF a pedido da Polícia Federal. Os procedimentos apuram suspeitas de tráfico de influência e corrupção.


