
Pela terceira eleição consecutiva, as mesmas correntes ideológicas antagônicas galvanizam o pleito em que os brasileiros definirão seu presidente da República: o lulismo, pela esquerda, e o bolsonarismo, pela direita. O cenário para a votação deste domingo (4), que abrange também a escolha de governadores, senadores, deputados federais e estaduais, é de suspense. As pesquisas de intenção de voto mostram polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) já no primeiro turno.
A vantagem do vencedor sobre o derrotado tende a ser menor do que a diferença registrada em 2022, avalia o sociólogo e professor da Universidade Mackenzie Rodrigo Prando. Quatro anos atrás, Lula derrotou o pai de Flávio, o então presidente Jair Bolsonaro, por 2,13 milhões de votos, na eleição presidencial mais apertada da história brasileira. Chama a atenção que, no primeiro turno daquele pleito, muitas pesquisas erraram: previam até 15 pontos percentuais de diferença para o candidato do PT em relação ao do PL, mas as urnas mostraram uma vitória por cinco pontos na primeira etapa - e por apenas 1,8 ponto percentual ao final. A disputa agora poderá ser ainda mais eletrizante.

— O presidente Lula foi candidato em 1989, quando eu tinha 11 anos de idade. Eu estou com 48 anos e o Lula continua candidato à Presidência da República. Não existe político brasileiro cuja marca seja tão consolidada quanto a dele, o que o coloca potencialmente no segundo turno. Em contrapartida, Flávio Bolsonaro recebeu um espólio político familiar. Mesmo com uma trajetória conturbada, ele tem o sobrenome do pai e herda, obviamente, o voto antipetista. O resultado é imprevisibilidade total — analisa Prando.
As pesquisas para a Presidência apontam para uma eleição definida cabeça a cabeça, como em uma corrida de cavalo. Na reta final do primeiro turno, os levantamentos indicam Lula à frente no Nordeste e Bolsonaro com força no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Seriam sete Estados garantidos para Flávio e cinco para Lula, enquanto nos demais o cenário permanece incerto (inclusive no Rio Grande do Sul).
Um dos motivos para o embaralhamento nas pesquisas está nos indecisos, que podem ser a chave do pleito, assegura o mestre em estatística e cientista político Felipe Nunes, professor da escola de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e CEO da Quaest Pesquisas. Conforme ele, cerca de 10%dos eleitores decidem seu voto na última semana — parte substancial deles, apenas no dia da votação:
— O grau de indecisão é ainda bem maior em relação a parlamentares do que no tocante à Presidência da República.
Voto envergonhado pode surpreender
Sempre existe a possibilidade de novos equívocos nos levantamentos, mas o cientista político e filósofo gaúcho Fernando Schüler, professor do Insper (instituição de Ensino Superior), acredita que a polarização é um fato irreversível por dois motivos. O primeiro é a tendência de crescimento do incumbente (o governante no poder) na reta final.
— O que favorece o Lula, claro. Ele tem a capacidade de tomar iniciativas, tem o governo na mão, a caneta e muita influência na mídia por estar no poder — avalia Schüler.
Por outro lado, diz o professor, a história do Brasil mostra que recentemente as pesquisas subestimaram o apoio à direita:
— Alguns apontam como causa o chamado hidden vote (voto envergonhado): o eleitor que já decidiu, mas oculta a intenção ao ser questionado. Sobre isso não há consenso na literatura acadêmica, mas empiricamente se verificou em muitas eleições recentes, o que torna muito difícil fazer uma previsão.

Intriga, nas enquetes, o encolhimento da chamada terceira via. A maioria das pesquisas aponta que até o número de indecisos é maior do que o apoio a candidatos da terceira via, que alternam o quarto posto no ranking — a tendência varia de Augusto Cury (Avante) a Renan Santos (Missão).
Fernando Schüler ressalta que a polarização vem crescendo desde 2014 no Brasil.
— A chamada terceira via fez, em 2014, pouco mais de 22%, com Marina Silva (PSB) em terceiro lugar. Em 2018, obteve 12%, com Ciro Gomes (PDT). Em 2022, alcançou 4%, com Simone Tebet (MDB). Quer dizer, vem se reduzindo o espaço para alguma alternativa. E agora temos um equilíbrio ímpar, que deve persistir até o momento da eleição — explica.
Não que a polarização seja novidade. Ela sempre integrou a política brasileira, mas costumava ser mais acentuada no segundo turno — e menos agressiva, do ponto de vista ideológico. Em 1989, por exemplo, no primeiro, turno três candidatos chegaram parelhos: Fernando Collor (PRN), Lula (PT) e Leonel Brizola (PDT), que por pouco não foi para o segundo turno. Lula chegou lá e perdeu para Collor por seis pontos de diferença.
Entre 1994 e 2014 a polarização aconteceu entre o PSDB e o PT, com ambos os partidos ganhando todas as eleições presidenciais. Mas as duas agremiações tinham discurso social-democrata. A grande diferença, desde o advento do bolsonarismo, é que suas propostas sobre a governança do país são antíteses ideológicas diretas do petismo.
A corrida eleitoral dos escândalos
A eleição mais polarizada da história tende a ser, também, a que mais concentra escândalos. Entre os temas explosivos que pautaram a disputa ao longo do ano está a repercussão dos "tarifaços" sobre as exportações brasileiras, decretados por Donald Trump. Como Flávio Bolsonaro é aliado ideológico incondicional do presidente dos EUA, colheu parte da repercussão negativa do prejuízo ao comércio exterior do Brasil. Quando a sobretaxa foi imposta, Lula chamou os bolsonaristas de "traidores da pátria" e parte da sociedade o apoiou, porque foi prejudicada pelo aumento das tarifas internacionais.
Flávio e Vorcaro
Nada supera, porém, a polêmica dos subornos pagos pelo então dono do Banco Master, o bilionário Daniel Vorcaro, que atingiram todo o espectro ideológico brasileiro. A diferença é que, entre os presidenciáveis, a imagem de Flávio Bolsonaro ficou mais arranhada após ele negar inicialmente conhecer Vorcaro e, em seguida, ser desmentido pelo vazamento de telefonemas em que trata o banqueiro como "irmão" e acerta um financiamento de R$ 134 milhões para produzir um filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro.
A produção cinematográfica idealizada por Flávio chegou a receber R$ 61 milhões de Vorcaro antes de o empresário ser preso. O caso é alvo de investigação da Polícia Federal (PF) e atinge diretamente o candidato do PL.

Curiosamente, o eleitor (conforme apontam as pesquisas) associa mais o nome de Vorcaro ao governo Lula e ao PT. Conta para essa percepção o fato de o senador petista Jaques Wagner, então líder do governo no Senado, ter sido alvo de uma operação da Polícia Federal que comprovou o pedido de favores financeiros por parte do senador ao banqueiro. E a atuação do ex-ministro lulista, Guido Mantega, como consultor para o Master. Mantega faz parte dois dois primeiros governos de Lula.
Relação com Alexandre de Moraes
Outro fator desfavorável a Lula é o entrosamento demonstrado com o ministro Alexandre de Moraes, embora ele tenha sido indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo ex-presidente Michel Temer em 2017. Essa relação se tornou mais evidente desde que o presidente foi alvo da tentativa de golpe de Estado por militantes bolsonaristas em janeiro de 2023.
A PF descobriu que Moraes mantém relações estreitas com o banqueiro Daniel Vorcaro e inclusive contratou a esposa como advogada do Banco Master, em uma negociação de R$ 131 milhões.
— O Flávio Bolsonaro é eficiente ao afirmar em comícios que o voto em Lula é um voto em Alexandre de Moraes, mesmo que isso não seja necessariamente uma realidade. Para muita gente, a ação do ministro do STF favoreceu Lula contra Jair Bolsonaro, e só essa conexão basta para definir votos, agora que Moraes está sob suspeita — pondera Rodrigo Prando, da Universidade Mackenzie.
A atuação de Alexandre de Moraes transformou o STF em um ringue. A ideia de julgar o ministro por tráfico de influência dividiu o Supremo em duas turmas beligerantes. De um lado, o ministro André Mendonça, indicado ainda no governo de Jair Bolsonaro, vazou trechos de investigações sobre Moraes. De outro, os ministros Gilmar Mendes e Cristiano Zanin, mais afinados com Moraes e com o Palácio do Planalto, levantaram o sigilo da íntegra dos conteúdos que estavam no celular de Vorcaro, revelando um encontro que teria ocorrido entre o banqueiro e o próprio Mendonça.
Essa sucessão de decisões expôs uma nítida partidarização do tribunal. Foram semanas de brigas públicas, com direito a alfinetadas e ofensas veladas. No fim, prevaleceu a turma que prefere adiar a análise da conduta de Moraes, mas o assunto continua repercutindo nas redes sociais.
A investigação sobre Lulinha
No bojo do desgaste do atual presidente pesa também uma investigação da PF, ainda em curso, sobre seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, por suspeita de tráfico de influência junto ao governo do pai. Lulinha teria tentado abrir espaço em agendas governamentais para lobistas como a empresária Roberta Luchsinger que, segundo mensagens interceptadas pela PF, teria efetuado pagamentos em dinheiro vivo para assegurar contratos em ministérios.
Apostas e religiosidade
Duas outras discussões mobilizaram a opinião pública nas últimas semanas da corrida eleitoral. Uma delas foi a medida provisória em que Lula proibiu as apostas virtuais no Brasil — as chamadas bets —, medida que ameaça gerar uma longa batalha judicial.
O cientista político Leonardo Avritzer, professor visitante do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), acredita que o presidente pode ter ganho pontos pontos junto a parcelas específicas do eleitorado.
— Sobretudo as mulheres e o eleitorado evangélico, que rejeitam o jogo, que tem afetado as finanças de famílias de classe média. Há uma parte importante do eleitorado atingida — analisa o especialista.
O segundo fator envolveu um boato virtual segundo o qual o bolsonarismo pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Flávio Bolsonaro desmentiu, mas o estrago já estava feito entre católicos, que a partir do boato poderiam relutar em apoiá-lo. Pelo menos, é o que esperam os lulistas.
Lula, seguindo uma receita que já foi aplicada pelo seu adversário Jair Bolsonaro em 2022, elaborou um pacote de bondades no ano eleitoral. Entre as medidas estão o reajuste do piso do Bolsa Família, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, a reformulação do programa de renegociação de dívidas (Desenrola) e o início dos trâmites para a distribuição de canetas emagrecedoras pelo SUS — iniciativas apontadas como eleitoreiras pela oposição.
E assim a corrida eleitoral chega, de polêmica em polêmica, de divisão em divisão, a seu dia decisivo.

