
Desde o começo, a campanha para o primeiro turno da eleição presidencial foi pautada por polêmicas de forte apelo emocional e deixou em segundo plano temas áridos, mas fundamentais para o país. O escândalo envolvendo o Banco Master dominou as manchetes e os discursos na maior parte do tempo e, somente nos últimos dias, cedeu espaço para outros assuntos explosivos como a atuação do STF, a proibição das bets e a discussão sobre o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. Perderam holofote temas decisivos para o futuro como gestão da dívida pública, equilíbrio da Previdência, emendas parlamentares e meio ambiente.
— Existe um certo desinteresse do eleitor pelo pleito. Em 2022, tivemos cerca de 20% de abstenção em nível nacional, ou 32 milhões de eleitores. Em um ambiente onde o desinteresse é muito elevado, temas de mais fácil compreensão acabam sendo usados pelas campanhas políticas para elevar o engajamento. Por isso, discussões sobre temas econômicos, saúde ou dívida pública, que são complexos, perdem espaço para polêmicas ou escândalos — analisa o cientista político da Arko Advice Carlos Borenstein.
Para comparar os projetos nacionais dos dois favoritos a ocupar o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos, Zero Hora elencou 10 temas capazes de definir os rumos do Brasil e analisou os planos de governo e declarações públicas de Lula e Flávio. Em algumas áreas, como manutenção do programa Bolsa Família, reajustes do salário mínimo e preservação de aposentadorias, os discursos dos adversários assumem tom semelhante. As diferenças políticas se acentuam quando se envolvem questões como redução da maioridade penal, fim da escala 6x1 e manutenção do atual modelo de reforma tributária.
Veja, a seguir, um resumo dos posicionamentos dos candidatos do PT e do PL sobre assuntos que acabaram escanteados no debate público pelos malfeitos do banqueiro Daniel Vorcaro.
Emendas parlamentares
Flávio
O plano de governo defende uma maior transparência na distribuição dos recursos, embora não determine exatamente como isso seria feito. O texto diz: "no mesmo esforço de organizar melhor o orçamento, daremos mais transparência, controle e rastreabilidade às emendas parlamentares, priorizando sua alocação em políticas públicas prioritárias do Plano Plurianual, aprovado pelo parlamento".
— Tem que haver um esforço dos três poderes para redução de gastos. Tanto do Legislativo, com relação às emendas parlamentares, por exemplo, que estão em valores estratosféricos, podem ser reduzidos (...) — declarou Flávio em sabatina do site O Antagonista em 4 de agosto.
Lula
O plano de governo considera o atual sistema de emendas uma "grave distorção" e cita que somou R$ 50 bilhões no orçamento de 2026 - um quinto dos recursos discricionários do Executivo. O petista sustenta que as emendas impositivas e o orçamento secreto "sequestram o orçamento público, dispersam recursos e reduzem eficiência". Propõe que o atual modelo seja "enfrentado" por meio de um debate social, mas não especifica uma alternativa.
— Não existe país no mundo em que Congresso fica com 50% do orçamento da União — complementou Lula em entrevista à imprensa em 30 de setembro.
Gestão da dívida pública
Flávio
Propõe uma nova regra fiscal, substituindo ou reformulando o atual regime, com superávits primários, controle dos gastos discricionários dos três poderes e meta de estabilizar e depois reduzir a relação entre dívida e PIB. O plano também foca em cortes na máquina estatal: prevê eliminar pelo menos 10 ministérios, cargos comissionados e despesas administrativas. Em entrevista ao SBT News, em 19 de junho, afirmou:
— Não tem outro caminho sem ser fazer ajuste fiscal. Fazer as despesas caberem dentro das receitas para que, o mais rápido possível, a curva de juros comece a baixar.
Lula
Prevê manter o atual arcabouço fiscal, controlando o crescimento do gasto primário com melhora da eficiência das despesas, revisão de benefícios tributários e aumento da arrecadação sobre segmentos mais ricos. Pretende combinar crescimento econômico e controle do gasto para produzir resultado fiscal positivo e criar condições para redução sustentada dos juros. Em 28 de junho, em evento em Juiz de Fora (MG), se comprometeu com um ajuste fiscal — mas impôs limites a essa medida.
—Eu farei o ajuste necessário, porque eu não quero gastar mais do que a gente ganha, mas eu quero dizer para vocês, não será nunca em cima do povo trabalhador, do povo pobre.
Futuro do Bolsa Família
Flávio
O plano indica a "manutenção dos programas sociais existentes", sem citar nominalmente o Bolsa Família, com combate a fraudes e integração com qualificação e emprego. Propõe o combate a fraudes na concessão e manutenção dos benefícios, e defende que sejam apenas um "ponto de partida" para a autonomia financeira. Em um evento da Revista Veja em 15 de junho, o candidato afirmou:
— Esse programa (Bolsa Família) virou um direito adquirido do povo brasileiro. Ninguém tem o direito de tocar ou de acabar com esse programa. Qualquer país do mundo tem um programa para pessoas de baixa renda que têm dificuldade alimentar.
Lula
Assume o compromisso de manter, aperfeiçoar e ampliar continuamente os programas de transferência de renda para as famílias mais vulneráveis. A expansão do programa é apontada como fator determinante para o recuo da pobreza extrema no país ao nível de 4,6% da população. Em entrevista à Rádio Itatiaia em 17 de setembro, pouco depois de reajustar o benefício em 15%, declarou:
— Vamos continuar mantendo o Bolsa Família, sonhando que, um dia, não se precise mais. Para isso, a economia vai ter que crescer, vamos ter que gerar empregos de qualidade e continuar investir em educação.
Reajuste do salário mínimo
Flávio
O plano de governo não especifica uma regra objetiva de reajuste para o salário mínimo. O documento foca no aumento do poder de compra de forma indireta, via controle inflacionário. A intenção é valorizar a renda real por meio da redução de tributos sobre o consumo, simplificar tarifas como a de energia, controlar a inflação e baixar os juros para que "o mesmo salário passe a comprar mais". Em sabatina promovida pela Rede Globo em 28 de agosto, perguntado se manteria política de valorização do mínimo acima da inflação, o candidato declarou:
— Não farei economia com quem ganha salário mínimo e não farei economia com aposentados.
Lula
No caderno de propostas para um eventual novo mandato, assegura que "dará continuidade à política de valorização do salário mínimo como meio estratégico de distribuição de renda, combate à pobreza e promoção do desenvolvimento econômico e social". A manutenção dos reajustes acima da inflação seria combinada com a integração de "oferta de crédito público, assistência técnica, incentivos fiscais e política de compras governamentais" a compromissos como a geração de empregos. Em comício no Recife (PE) em 25 de setembro, discursou:
— Enquanto eu for presidente, o salário mínimo terá o aumento (equivalente ao) do crescimento da riqueza deste país.
Segurança pública
Flávio
Propõe declarar facções criminosas como organizações narcoterroristas, asfixiá-las financeiramente, criar um sistema nacional de fronteiras com presença de forças especiais em portos e aeroportos, construir cinco novos presídios federais segundo o modelo usado em El Salvador e acabar com a progressão de regime para crimes hediondos. Promete apoiar e sancionar a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, além de punir "maiores de 14 anos que cometerem crimes graves, como estupro, tráfico, tortura e assassinato". Flávio é autor de um projeto de lei com esse objetivo, sob argumento de que jovens nessa idade já têm discernimento, e de que o rigor tende a proteger a sociedade.
— Bandido que tem 16 anos e comete crime de adulto vai responder como adulto. Vai mofar na cadeia um menor que estupra uma mulher, vai mofar na cadeia um menor traficante — disse o senador em comício no Recife (PE) em 17 de setembro.
Lula
Pretende criar o Ministério da Segurança Pública, ampliar a integração entre União, Estados e municípios, desarticular a estrutura financeira de milícias e facções, além de fortalecer as Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado. Promete liberar R$ 10 bilhões para Estados e municípios investirem em segurança. Não muda a maioridade penal. Em vez disso, defende combater a pobreza infantil e priorizar políticas públicas de prevenção à violência, com educação em tempo integral, programas de permanência escolar e de inclusão produtiva. Um dos temores de uma eventual redução é sobrecarregar o sistema prisional e facilitar a captação de jovens pelas facções.
— Eu não discuto reduzir a maioridade penal, eu quero aumentar o tempo em que o jovem fica na escola — disse o presidente em ato de campanha em Santa Catarina no dia 19 de setembro.
Pisos para saúde e educação
Flávio
O programa não aborda a alteração de pisos percentuais obrigatórios — hipótese que chegou a ser considerada por integrantes de sua campanha anteriormente. Propõe a adoção de um "orçamento por resultados": a distribuição de recursos seria calibrada pelo atingimento de metas de desempenho por redes e instituições. Argumenta que as deficiências dos serviços públicos não decorrem de falta de verba, sob o argumento de que o Brasil "mais do que triplicou o gasto por aluno" sem obter avanços equivalentes nos indicadores internacionais por falhas de gestão. Defende a concessão de vouchers educacionais na rede privada quando não houver vagas na rede pública e a contratação da rede privada nos horários ociosos para realização de exames e consultas no SUS. Questionado se pretendia mexer nos pisos constitucionais de saúde e educação, dia 19 de junho, respondeu:
— Não, não pretendo (...). A gente tem que fazer economia tampando os ralos de dinheiro público que estão escoando de corrupção por parte desse governo.
Lula
Valoriza a restauração e a manutenção dos pisos constitucionais da saúde e da educação e argumenta que o novo arcabouço fiscal foi desenhado para controlar despesas gerais sem comprometer os mínimos de investimento estipulados pela Constituição. Prioriza a aplicação direta de verbas orçamentárias em programas estatais, destacando o fortalecimento do Fundeb (fundo voltado à Educação Básica), com recursos vinculados ao financiamento da educação em tempo integral a partir de 2026. Destaca ainda a recomposição do orçamento de universidades e institutos federais e os aportes do Novo PAC para a infraestrutura do SUS e de escolas públicas.
— Um país soberano é aquele capaz de (...) contar, como previsto na Constituição Federal, com saúde pública de qualidade e a melhor educação gratuita para seus filhos — declarou em pronunciamento de rádio e TV dia 7 de setembro.
Equilíbrio e Reforma da Previdência
Flávio
O plano de governo não traz propostas de uma nova reforma que altere pontos como idade mínima ou tempo de contribuição. Foca no combate a fraudes por meio da edição de uma medida provisória antifraude similar a uma medida adotada em 2019, durante a gestão de Jair Bolsonaro, para coibir desvios e estancar o vazamentos de recursos. Defende criar regras de dupla checagem para proibir descontos associativos e consignados não autorizados na folha dos aposentados e pensionistas, aumentar a base de contribuintes via desoneração da folha e blindar os fundos de pensão de estatais contra indicações políticas. Promete ainda digitalizar processos e profissionalizar a gestão para acabar com as filas do INSS.
— Não precisa fazer economia em cima dos aposentados (...). Vou fazer um governo enxuto, reduzir a quantidade de ministérios, cortar a burocracia e impostos — declarou o candidato em sabatina na Rede Globo, em 28 de agosto.
Lula
O plano de governo não traz propostas de uma nova reforma que altere pontos como idade mínima ou tempo de contribuição. Propõe reestruturar a base de financiamento do sistema previdenciário, buscando a ampliação e a diversificação das fontes de receitas públicas. Estabelece que a regulação do trabalho mediado por aplicativos e plataformas digitais deverá obrigatoriamente incluir a contribuição previdenciária patronal ou empresarial e assegurar a cobertura dos trabalhadores para aposentadoria, acidentes, doença e maternidade. Busca aumentar a arrecadação combatendo a "pejotização espúria" e criando mecanismos contributivos mais flexíveis. Promete ainda modernizar os serviços do INSS e zerar as filas de concessão de benefícios. Em entrevista à Band em 27 de setembro, disse:
— Se precisar, vamos fazer (reforma). Se não precisar, não vamos (...). Precisamos encontrar um jeito de financiar a Previdência (...). O que vai fazer a Previdência ter dinheiro é o crescimento econômico.
Fim da escala 6x1
Flávio
O conjunto de propostas não prevê a extinção da escala 6x1 nem a fixação de uma redução obrigatória de jornada por legislação federal. Em vez disso, defende a flexibilidade das jornadas por meio de acordos diretos entre empregados e empresas, sustentando que as condições de trabalho devem ser combinadas de forma individual e adaptada a cada setor, em vez de seguir uma regra única imposta pelo Estado.
— A gente vai defender a liberdade de você, trabalhador, escolher qual é a sua escala de trabalho — disse Flávio à Record em 30 de agosto.
Lula
O programa estabelece o compromisso explícito de atuar no Congresso Nacional para assegurar o fim da escala 6x1 e a redução da jornada máxima de trabalho para 40 horas semanais, sem redução salarial. Sustenta que a redução do tempo de trabalho e a garantia de jornadas não exaustivas são fundamentais para a saúde dos trabalhadores, a convivência familiar e a qualidade de vida.
— Acabar com a escala 6x1 é devolver o que é seu: tempo para você e sua família — declarou Lula em propaganda eleitoral.
Manutenção da reforma tributária
Flávio
Pretende revisar, alterar e redimensionar a reforma tributária em curso, alegando que o texto aprovado sofreu distorções decorrentes de atuações corporativas e de lobbies. Critica a projeção de uma alíquota do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) em torno de 30% — considerada pelo plano uma das maiores do mundo — e compromete-se a reduzir a alíquota final. Propõe rever e reduzir os regimes especiais e exceções tributárias, sustentando que os privilégios criados oneram a carga geral sobre o restante da sociedade. Prevê reduzir tributos sobre a produção, o consumo, a energia elétrica e os combustíveis, além de unificar legislações e garantir a desoneração total de bens de capital, investimentos produtivos e exportações.
— Quando eu falo de suspender a regulamentação da reforma tributária é para dar tempo de a gente fazer uma reforma tributária negativa, com redução de carga tributária ao longo dos anos — disse em evento em Brasília em 22 de junho.
Lula
Defende manter e implementar plenamente a reforma. Promete manter a estrutura básica, que substitui cinco impostos por dois tributos sobre valor agregado e isenta itens da cesta básica, além de implantar cashback (devolução) para famílias de baixa renda. Propõe regulamentar o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR) para financiar investimentos e compensar perdas estaduais e municipais decorrentes do fim dos incentivos fiscais do ICMS e utilizar o Imposto Seletivo para desestimular o consumo de produtos nocivos à saúde ou ao meio ambiente. Preconiza "colocar o rico no Imposto de Renda", manter a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil e tributar os mais ricos.
— Antes de que se faça qualquer mudança na atual reforma tributária é preciso ao menos experimentar essa reforma em funcionamento — disse a empresários de São Paulo em 25 de setembro.
Ambiente
Flávio
Vê o ambiente "como ativo estratégico, não como um obstáculo ao desenvolvimento" e planeja o "uso responsável e sustentável dos recursos naturais, com segurança jurídica e respeito às peculiaridades de cada região". Tem como meta de zerar o desmatamento ilegal até 2029. Prioriza a consolidação do mercado regulado de carbono e o desenvolvimento da bioeconomia na Amazônia, aliados à concessão de "autonomia produtiva" aos povos indígenas e quilombolas. Prevê a eliminação de superposições entre Ibama, Funai e ICMBio, exigência de transparência de financiadores de ONGs e implementação de um licenciamento ambiental ágil, com prazos definidos e concessão automática caso o órgão ambiental não se manifeste dentro do prazo.
— Vamos garantir que todo os tipos de energia, principalmente as limpas, sejam ainda mais potencializadas no Brasil. Mas também não abriremos mão da exploração de energia de origem fóssil — disse em reunião com embaixadores estrangeiros em 21 de julho.
Lula
Reafirma o compromisso de alcançar o desmatamento líquido zero (área desmatada equivalente à recuperada) até 2030 em todos os biomas. Compromete-se com a redução de 59% a 67% das emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035 e com a implementação do Plano Clima e do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE, que regula o mercado de carbono). Apoia-se no fortalecimento do Fundo Clima, do Fundo Amazônia e na criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre. Destina terras públicas para unidades de conservação, territórios indígenas e quilombolas, além de intensificar a fiscalização com satélites e inteligência artificial contra o garimpo e a grilagem.
— A floresta vale mais em pé do que destruída — afirmou em discurso na ONU em 22 de setembro.




