Em 2016, logo após o impeachment de Dilma Rousseff, o policial federal Ubiratan Antunes Sanderson, escrivão lotado em Porto Alegre, recebeu de Eduardo Bolsonaro, colega de farda com quem mantinha amizade construída em atividades nacionais da categoria, o convite para ajudar a colocar de pé o projeto presidencial de seu pai, Jair Bolsonaro, então deputado federal.
— Mas de que jeito ele vai ir para presidente, rapaz? — reagiu Sanderson.
Naquele momento, ainda se buscava um partido para sustentar a candidatura, uma definição que se estendeu quase até o limite do prazo de filiações, quando veio a escolha pelo antigo PSL. A sigla era pouco expressiva no Rio Grande do Sul, sem diretórios estruturados ou recursos relevantes.

Dois anos mais tarde, a mesma onda conservadora que elegeu Bolsonaro à Presidência e fez do PSL a segunda maior bancada da Câmara conduziu Sanderson a Brasília. Ele foi eleito deputado com mais de 88 mil votos. Sem propaganda no rádio ou na TV, apostou em palestras sobre combate à corrupção e em perfis nas redes sociais, que as filhas o ajudaram a criar.
— Não tinha nada. Mas me elegi — resume Sanderson, que agora, aos 56 anos e após dois mandatos como deputado, concorre ao Senado pelo PL.
Esta é a última reportagem de Zero Hora de uma série de oito perfis dos candidatos que concorrem ao Senado no Rio Grande do Sul por partidos com representação no Congresso.
De sindicalista a representante da "Frente da Lava Jato"
A candidatura a deputado, que começou como uma provocação, encontrou terreno fértil em uma mobilização que já crescia entre os policiais federais. Em 2018, a Frente de Agentes da Polícia Federal, apelidada nos bastidores de “Frente da Lava Jato”, buscava ampliar a representação da categoria no Congresso, reunindo candidatos de todo o país.
Sanderson tinha uma credencial importante: havia presidido o Sindicato dos Policiais Federais do Rio Grande do Sul (Sinpef-RS) entre 2014 e 2017. Quando a categoria decidiu concentrar forças em uma única candidatura, lideranças locais mais experientes recuaram para apoiá-lo.

— Dissemos: "Você é o nosso cara, nós todos vamos trabalhar por você" — recorda Nívio Braz, parceiro de corporação que mais tarde se tornou assessor de Sanderson e hoje é prefeito de Santo Ângelo.
Se alguma dúvida ou insegurança atravessou aquele momento, Sanderson as deixou em segundo plano:
Eu tenho esse perfil de liderança desde guri. No futebol, era capitão do time. No Exército, me formei em primeiro lugar. Eu nunca perdi até hoje na minha vida. Em todas as competições eu me preparei, foquei, orei e venci.
UBIRATAN SANDERSON
Candidato ao Senado pelo PL.
Ligações em viva-voz com Bolsonaro para ganhar votos
Nascido em Erechim, Sanderson chegou a Santo Ângelo aos três anos e viveu na cidade até os 19, quando deixou as Missões para servir ao Exército, em 1989, em Santa Maria. Filho de um delegado da Polícia Civil e de uma dona de casa, cresceu ao lado de três irmãs. Formou-se em Direito e, em 1996, entrou na Polícia Federal como escrivão, onde permaneceu por 23 anos.
Em 2018, rodou o Estado ao lado de Luciano Zucco, que disputava uma vaga de deputado estadual, em uma parceria que dividiu custos e multiplicou palanques. A passagem pelas delegacias de Bagé e Santo Ângelo, no início da trajetória na PF, havia ampliado seu conhecimento sobre o Interior.
Aliados que o acompanharam recordam o artifício que ele usava para fascinar o eleitorado conservador: sacava o celular e ligava diretamente para Jair Bolsonaro em viva-voz. A voz do candidato à Presidência chegava aos eleitores sem intermediários.
Ao longo da carreira, também participou de operações nos 27 Estados, em ações contra o narcotráfico e o crime organizado. Foi nesse percurso que se desenhou o círculo de confiança que o acompanharia também na política.
Para o policial federal Júlio Cesar Nunes dos Santos, que assumiu a presidência do sindicato quando Sanderson se licenciou, a guinada em direção ao Parlamento teve também algo de predestinado.
Foi um chamado, um daimon. Todo mundo tem.
JÚLIO CESAR NUNES DOS SANTOS
Policial federal.
Na filosofia clássica grega, o daimon representa uma voz interior que orienta a vocação de um indivíduo diante das circunstâncias da vida.
Foco no combate ao crime, mas sem confrontos
No Congresso, Sanderson se alinha ao grupo que defende posições mais duras no combate ao crime, mas procura evitar o confronto pessoal no trato com os adversários. Atua como vice-líder da oposição e, em 2023, presidiu a Comissão de Segurança Pública.
Nesse período, precisou se aprofundar em temas que iam além de sua atuação habitual. Debruçou-se sobre projetos de áreas como energia, educação e saúde, por exemplo.
Um episódio em particular ficou na memória da filha mais velha, Débora Block Sanderson. Na terceira série, ela viu o pai pegar seu livro de História durante uma noite de folga e lê-lo inteiro em poucas horas, por passatempo.
— Achei aquilo o máximo — conta Débora.
A política redesenhou a convivência familiar. Desde 2018, a maior mudança está no tempo ao lado das filhas e da companheira Ana Paula Kannenberg. Entre o sul e o centro do país, mantém o contato diário com elas por mensagens. Também aumentou o cuidado com a vida privada. Débora e Nina, a filha mais nova, fecharam as redes sociais para se preservar diante do que chamam de “armadilhas da política” no mundo digital.
O movimento de resguardo é também um reflexo da polarização, em um ambiente no qual Sanderson se tornou um dos principais aliados de Jair Bolsonaro no Rio Grande do Sul.

"Como assim, gaúcho?": a reação do ex-presidente à recusa do Fundo Eleitoral
A relação com o ex-presidente desenvolveu-se longe de formalismos, sustentada por gestos de bastidor e fidelidade. Sanderson visitou Bolsonaro duas vezes desde que o ex-presidente foi preso, em 2025, tanto na Papudinha quanto na residência de Brasília onde ele cumpre prisão domiciliar.
Em 2022, mudou-se para o PL para disputar a reeleição. Orgulha-se de, naquele ano, ter recusado os R$ 2 milhões que o partido havia reservado para sua campanha por meio do Fundo Eleitoral. A decisão, segundo ele, provocou uma cobrança direta de Bolsonaro. Sanderson lembra do telefonema:
— Como assim, gaúcho? O único deputado do PL que não vai usar fundo eleitoral é você. Como é que vai fazer o teu material de rua? — questionou Bolsonaro.
Quatro anos depois, o vínculo lapidado nos bastidores culminou na escolha de Sanderson para a disputa ao Senado. Na definição da chapa, Bolsonaro teria preterido cinco lideranças tradicionais que pleiteavam a vaga no Estado. Sem hesitar, Sanderson aceitou a convocação.




