Em uma aula de História, no início dos anos 1990, Manuela Pinto Vieira d'Ávila foi instigada pelo professor Waldon Duarte Matias a refletir sobre o chamado "descobrimento" do Brasil por uma perspectiva diferente da que era ensinada nos livros didáticos. A provocação partia da ideia de que, antes da chegada dos portugueses, já havia culturas e organização social, e a exploração colonial ajudaria a produzir desigualdades que persistem até hoje.
Embora não consiga determinar o momento exato em que formou sua consciência política, Manuela garante que a influência do professor Waldon ainda na infância, no município de Pedro Osório, no sul do Estado, foi marcante.
Aos 16 anos, de volta a Porto Alegre, sua cidade natal, ela já estava inserida no movimento estudantil e dava os primeiros passos rumo à vida pública, do colégio Pastor Dohms aos plenários de Brasília.

Hoje, aos 45 anos, completados no último dia 18 de agosto, ela enfrenta a nona eleição da carreira, desta vez como candidata ao Senado pelo PSOL.
Esta é a terceira reportagem de Zero Hora de uma série de oito perfis dos candidatos que concorrem ao Senado no Rio Grande do Sul por partidos com representação no Congresso.
A estreia de Manuela nas urnas, em 2004, já rendeu um recorde: aos 23 anos e apoiada no bordão “E aí, beleza?”, tornou-se a vereadora mais jovem da história da Capital, com 9.498 votos. O ano é o mesmo da criação do Orkut, uma espécie de precursor das redes sociais — universo, por sinal, no qual ela muito cedo começou a transitar com desenvoltura.
Assista ao videocast Conversa de Gabinete sobre a disputa ao Senado:
A partir daí, a ascensão foi rápida. Foi, por duas vezes, a deputada federal mais votada do Estado (em 2006 e 2010) e repetiu o feito quando concorreu à Assembleia Legislativa em 2014.
Por outro lado, amargou três derrotas para a prefeitura (em 2008, 2012 e 2020). Também não teve êxito em 2018, quando concorreu a vice-presidente da República na chapa encabeçada por Fernando Haddad (PT).
Enquanto parlamentar, esteve à frente da Procuradoria da Mulher da Assembleia, foi relatora da proposta que instituiu o Vale-Cultura e coautora da Nova Lei do Estágio.

Dos relacionamentos às perseguições, uma trajetória sob atenção
As atenções também sempre estiveram voltadas para sua vida pessoal, incluindo relacionamentos, o casamento com o músico Duca Leindecker, 56 anos, a convivência com o enteado Guilherme, 23, a gravidez e o nascimento da filha Laura, 11.
Talvez as pessoas nunca tenham se dado conta, mas cresci absolutamente acompanhada pelos olhos de todos.
MANUELA D'ÁVILA
Candidata ao Senado pelo PSOL.
Episódios que envolveram ataques misóginos, perseguições e graves ameaças virtuais geraram denúncias e Manuela venceu diversas ações judiciais. Para ela, a repercussão dessas situações contribuiu para ampliar o debate sobre a violência política de gênero no país.
"A filha que o Tarso gostaria de ter"
Após mais de duas décadas no PCdoB, Manuela se desfiliou em novembro de 2024, decisão que foi lamentada pela legenda.
— Somos da mesma geração e é claro que teve um descontentamento interno, pois perdemos uma grande liderança, mas temos um projeto coletivo maior — diz Edison Puchalski, atual presidente do PCdoB no RS.
À saída seguiu-se um período de indefinição sobre seu futuro político. Somente um ano depois ela anunciou a filiação ao PSOL.
Agora, em palanque ao lado de Juliana Brizola (PDT) e Edegar Pretto (PT), candidatos a governadora e vice da chapa, tem apoio de figuras como a deputada estadual Luciana Genro, sua adversária direta nas eleições à prefeitura em 2008 e que, em mais de uma ocasião, afirmou que Manuela era “a filha que o Tarso gostaria de ter”.
— Ela sempre foi uma pessoa mais alinhada politicamente com os governos do Lula, e eu fui fundadora de um partido que nasceu como oposição a esse governo, que tinha inclusive meu pai (o ex-governador Tarso Genro) como ministro. Então, faço essa brincadeira. Mas vejo a Manu como uma líder contra misoginia, pela necessidade de creche e de condições dignas de trabalho — elogia Luciana.
A construção de uma identidade política associada ao feminismo e ao enfrentamento da violência é a narrativa central de Manuela, que também encampa pautas ligadas à cultura, à juventude, à emergência climática e ao combate às fake news e às bets.
— O Brasil mudou. Em 2008, eu era deputada federal, e o Bolsonaro (Jair) sentava na Comissão de Direitos Humanos. Dois anos depois, pedi a cassação e diziam que era exagero. Normalizaram o horror. As diferenças que eu e Luciana tivemos são pequeníssimas perto do que nos une hoje — observa a candidata.
Nome de rua no Sul, bisavó é referência simbólica
Filha da juíza Ana Lúcia Vieira Rebout e do professor universitário e engenheiro Alfredo Mendes d'Ávila, Manuela é a quarta de cinco irmãos. Cresceu em diferentes cidades do Interior. Junto ao pai, conheceu de perto a agricultura familiar quando ele fazia visitas técnicas a propriedades, incluindo assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Leitora compulsiva, era frequentadora assídua de bibliotecas públicas. Aos 23, formou-se jornalista pela PUCRS. Também se tornou escritora, com oito livros publicados. Há poucos dias, concluiu o doutorado em Políticas Públicas pela UFRGS, com tese sobre moderação de conteúdo na internet e a conformação de agenda no Brasil nas últimas duas décadas.
Outro fato pouco conhecido envolve sua bisavó, Maria Gomes Mendes, que foi a primeira vereadora de Herval entre o fim dos anos 40 e o início dos anos 50 — hoje, inclusive, dá nome a uma rua do município do sul do Estado. Embora não a tenha conhecido, Manuela guarda nela uma referência simbólica importante. É que ela credita às mulheres da família os incentivos que ajudaram a moldar suas bandeiras políticas.

Nas redes sociais, onde segue ativa, Manuela compartilha referências literárias e a rotina em família, incluindo a preparação de receitas culinárias com a filha Laura.
"Quando uma mulher diz, soa prepotência”
Manuela entende que já existe diversidade e representação nos legislativos estadual e federal. Por essa razão, diz que o Senado não é uma estratégia política, mas o lugar onde precisa estar.
Há naturalidade em assimilar quando homens dizem que fazem falta e que serão eleitos. Quando uma mulher diz, soa como prepotência. Mas posso afirmar: sou a pessoa mais preparada e serei senadora.
MANUELA D'ÁVILA
Candidata ao Senado pelo PSOL.




