A primeira coisa que chama atenção em Renato Jaguarão é o nome. O candidato ao Senado pelo Cidadania adotou oficialmente a cidade onde morou boa parte de seus 57 anos como sobrenome.
Entre os candidatos, ele pode ser identificado pelo uso do chapéu panamá, elemento de sua identidade artística. É músico regionalista e poeta.
Apesar de carregar no nome a cidade localizada no sul do Estado, Paulo Renato Jaguarão Silva da Rosa fixou residência em Porto Alegre nos últimos anos. Aliás, o local de seu nascimento é impreciso:
— Nasci no meio de uma plantação de arroz, na costa da Lagoa Mirim.

Esta é a sétima reportagem de Zero Hora de uma série de oito perfis dos candidatos que concorrem ao Senado no Rio Grande do Sul por partidos com representação no Congresso.
De pescador de camarão para complementar a renda a cabo do Exército
Após a morte do pai biológico, sua mãe encaminhou cinco dos sete filhos para adoção por não ter condições de criá-los. Aliás, ele só conheceu a família biológica aos 22 anos.
Foi adotado por Albertina Silva da Rosa e Élbio da Rosa — que já tinham uma filha, Tânia —, e registrado em Jaguarão.
Era uma família humilde. Tanto que ele foi trabalhar aos 14 em uma granja de arroz para ajudar em casa. Em seguida, mudou-se para Rio Grande para concluir os estudos. Nesse período, complementava a renda pescando camarão.
Na sequência, alistou-se no Exército, onde serviu durante cinco anos e alcançou o posto de cabo.

Três discos, cem poemas e passagem por grupo expoente da música regional
A trajetória no Exército foi encerrada quando a carreira artística tomou forma. Jaguarão aprendeu a tocar violão ainda na infância e a música, como ele observa, sempre lhe abriu muitas portas. Em encontros com amigos, era "o cara do violão".
Até que surgiu a oportunidade de ingressar no Alma Gaudéria. Naquele momento, o grupo pertencia a um cenário que moldou a tchê music, ao lado de conjuntos como Tchê Guri e Tchê Barbaridade, animando domingueiras de CTGs.
A vida artística de Jaguarão duraria um ano e meio, até ser deixada de lado devido à atuação política. A reaproximação ocorreu em 2010.
Além de singles, contabiliza três álbuns, incluindo Poesias Gaúchas (2021), de declamação.
Jaguarão costuma divulgar seus poemas nas redes sociais. Afirma ter escrito cerca de cem — boa parte aborda temas relacionados à cultura gaúcha.
— Sempre tento passar uma mensagem ou descrever parte da história e da cultura. Todas as minhas poesias têm alguma reflexão — sublinha.
O cantor e compositor Victor Hugo Alves da Silva, amigo de Jaguarão, destaca que o candidato é um artista multifacetado:
— Vejo que ele faz uma pesquisa muito sociológica no seu cantar. Tem traquejo de palco e sabe usar isso em prol do relacionamento.
Encontro com Melo em CTG deu origem à trajetória política
Foi justamente a música que o aproximou da vida política. No começo dos anos 1990, Jaguarão conheceu Sebastião Melo, hoje prefeito de Porto Alegre, em um CTG. A amizade dos dois se solidificou, em um primeiro momento, pelo gosto em comum pela música regional.
Melo o convidou para trabalhar na campanha de Antônio Britto para governador em 1994. Com a vitória, ele atuou como assessor no governo. Após a tentativa frustrada de reeleição de Britto, ele voltou a Jaguarão para concorrer a vereador na eleição de 2000, sem sucesso.
Ao longo das décadas, disputou também eleições para prefeito de Jaguarão, deputado estadual e deputado federal, mas nunca foi eleito. Questionado sobre isso, reflete:
Creio que há muitas pessoas capacitadas que não têm mandato. Mas tenho experiência. De todos os candidatos, o único que trabalhou no Senado fui eu. Passei por todas as esferas.
RENATO JAGUARÃO
Candidato ao Senado pelo Cidadania.
Após a eleição de 2000, Jaguarão começou a assessorar o então deputado estadual Sérgio Zambiasi na Assembleia Legislativa. Posteriormente, ele integrou o gabinete de Zambiasi no Senado. Também atuou no Ministério da Educação, na Secretaria Estadual de Turismo e na Secretaria de Serviços Urbanos de Porto Alegre.
— A política é a arte do convencimento. Precisas convencer que o que tu defendes é o certo. Isso não se faz brigando, mas com diálogo — avalia.
Segundo Jaguarão, o assessor parlamentar é realmente quem faz a roda girar. Foi o que percebeu, ao longo dos anos, lidando com diferentes pontos do Estado.
Antes de lançar a candidatura ao Senado, Jaguarão atuava como assessor parlamentar da deputada federal Any Ortiz (hoje no PP). Conforme Any, ele teve um papel importante nos bastidores do mandato:
É um cara que estuda bastante, conhece o Estado e o lado da iniciativa privada. Por exemplo, quando a gente estava discutindo um projeto difícil, como a lei que extinguiu a pensão vitalícia para ex-governadores do RS, ele contribuiu bastante para o sucesso do nosso pleito.
ANY ORTIZ
Deputada federal.
A capacidade de articulação de Jaguarão com o Interior foi decisiva para o partido convidá-lo à disputa eleitoral deste ano. Sobre aceitar o convite para concorrer, Jaguarão justifica:
— Estou passando uma mensagem para pessoas de origem simples, que nós podemos ocupar lugares importantes na política.
Se eleito, sua prioridade será a valorização da metade sul do Estado. Segundo o candidato, uma metade do RS é desenvolvida e a outra não.
— A metade sul só irá se desenvolver se for incentivada. Eu defendo a existência de uma zona franca nesta região — salienta.

Um diagnóstico e a luta diária em família
O candidato vive uma união estável com Maria Isabel Oliveira há 15 anos. Ele tem três filhas de relações anteriores — Brenda, 30, Tuani, 36, e Renata, 25 —, enquanto ela tem duas (Luísa, 26, e Helena, 38).
Os dois se conheceram no Carnaval em Jaguarão. Por lá, chegaram a manter uma pousada juntos, mas o empreendimento foi encerrado com a alta do dólar.
Contudo, há sete anos surgiu uma luta diária para o casal: Maria Isabel foi diagnosticada com ataxia. A doença degenerativa, que ainda não tem cura, paralisou os movimentos das pernas e comprometeu a fala.
— O ser humano se adapta a tudo. Estamos unidos e trabalhando para dar exemplo, que é possível viver em harmonia — assegura. — Ela vai ao shopping, passeia por aí. A mim, cabe ser companheiro.




