Militante histórico do MDB, dos tempos da oposição à ditadura militar, Germano Antônio Rigotto, 76 anos, busca em outubro um retorno em grande estilo à política: pleiteia uma vaga de senador. Será pelo mesmo partido que o consagrou e do qual jamais se afastou, desde que debutou nas urnas, na década de 1970.
Nas primeiras pesquisas eleitorais de 2026, Rigotto não aparecia entre os favoritos, mas agora as enquetes já o mostram entre aqueles com possibilidade de conquistar o cargo. A meta é repetir a façanha de 2002, quando se elegeu governador, mesmo sendo o azarão numa disputa encarniçada com os favoritos Tarso Genro (PT) e Antônio Britto (PPS).
Naquela ocasião, até às vésperas do primeiro turno, Rigotto aparecia nas pesquisas em terceiro lugar. Acabou em primeiro, possivelmente pelo desejo do eleitorado de quebrar a polarização entre Britto e o PT, que vinha desde 1994.

Esta é a segunda reportagem de Zero Hora de uma série de oito perfis dos candidatos que concorrem ao Senado no Rio Grande do Sul por partidos com representação no Congresso.
Cria de Caxias virou líder de governo no Congresso Nacional
Formado em Odontologia e Direito, Rigotto é cria de Caxias do Sul. Arranjou os primeiros serviços em 1975 na sua terra natal, atendendo pacientes dos sindicatos dos metalúrgicos e dos bancários. Em paralelo, atuava na cúpula da Sociedade Esportiva Recreativa Caxias (sua paixão futebolística) e num clube social da cidade. Natural que rumasse para a política.
Começou como vereador em 1976, no MDB. Ao longo da década de 1980 se elegeu e reelegeu deputado estadual, tendo sido líder do governo Pedro Simon, do mesmo partido.
Assista ao videocast Conversa de Gabinete sobre a disputa ao Senado:
A partir de 1990, Rigotto foi eleito por três vezes consecutivas deputado federal, sempre entre os mais votados. Em Brasília, se destacou como líder do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e presidiu, no Congresso, as comissões de Finanças e Tributação e a da Reforma Tributária.
Ao longo dos mandatos, Rigotto foi relator de matérias como a Lei Rouanet (de direcionamento de impostos para incentivo à cultura) e o Programa de Renda Mínima. Ainda percorreu os 26 Estados, promovendo centenas de reuniões sobre reforma tributária.

Ao contrário de muitos parlamentares, Rigotto se mudou para Brasília com toda a família — a esposa Claudia Elisa Eberle Scavino e os filhos Rafael e Roberta. Com isso, não teve de enfrentar a ponte aérea semanal dos políticos rumo aos rincões brasileiros.
— Isso nos permitiu ter um pai presente, atuante — elogia Rafael, filho mais velho.
Derrotado pelo primo-irmão, azarão para o Piratini
Um fato curioso dessa época é que, quando estava no auge como deputado federal (líder do governo FHC no Congresso), Rigotto foi convocado por Pedro Simon para ser candidato a prefeito em Caxias do Sul, em 1996. Era uma parada ingrata, até porque a disputa era contra seu primo-irmão Pepe Vargas (PT).
Rigotto perdeu, derrota que atribui a uma desmobilização de última hora de muitos simpatizantes que foram para a praia e não votaram.
— E o pai detesta perder — revela, sorrindo, o filho Rafael.
A resposta aos descrentes veio em 2002, quando Rigotto fez seu mais célebre voo político, ao se tornar governador do Rio Grande do Sul, na contramão dos prognósticos das pesquisas. Venceu no segundo turno, com 3,1 milhões de votos.
Como governador, orgulha-se da implantação do Primeira Infância Melhor, programa que contribuiu para que a taxa de mortalidade infantil do Estado se tornasse uma das mais baixas do país. E o governo foi um dos primeiros a implantar o pregão eletrônico, a certificação digital e o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) eletrônico.
Em 2006, Rigotto tentou se reeleger governador, mas não chegou ao segundo turno e o pleito foi vencido por Yeda Crusius (PSDB). Em 2010, perdeu a disputa por uma vaga no Senado.
A última incursão pela política foi em 2018, quando concorreu a vice-presidente na chapa de Henrique Meirelles para a Presidência da República. Com 1,2 milhão de votos, eles acabaram em sétimo lugar.
Nas últimas duas décadas, Rigotto usou sua experiência e conhecimento sobre temas como questões tributárias para atuar como conselheiro em entidades empresariais. Sem ganhar por isso, assegura, apenas as passagens aéreas. Ele vive da pensão de ex-governador.
Gentil, mas um trator no trabalho
É difícil encontrar alguém que tenha trabalhado com Rigotto e fale algo em desabono dele. Três ex-colaboradores o definem como workaholic, mas com bons resultados para a comunidade. É visto como um perfeccionista, detalhista e preocupado com todos os aspectos da administração.
Já às 6 horas da madrugada era buscado pelo motorista em casa para ir ao Palácio Piratini. No caminho o governador lia a clipagem, um calhamaço de papéis com os recortes dos jornais, de todas as áreas: segurança, educação, saúde... Ao fazer os primeiros despachos já estava informado dos principais fatos do dia.
EX-ASSESSOR DE RIGOTTO
Outro enfatiza que Rigotto "só saía do Piratini expulso, tarde da noite". Todos dizem também que ele tem uma memória excepcional. Ao receber ou visitar prefeitos e vereadores, cumprimenta-os pelo nome e ainda os relaciona com algum parente ou pessoa que conheceu nas centenas de viagens pelo interior do Estado (como fez na última semana), salienta um funcionário público.
O terceiro define Rigotto como um gentleman, atencioso, sem ser o "estrelão" que atrasa eventos já agendados. Soldado do partido, foi para o sacrifício em algumas empreitadas difíceis (como a tentativa para vice-presidente num cenário dominado pelo PT e pelo bolsonarismo).

Aos 76, maratonas e nenhum plano de parar
O cuidado com a forma física é nítido, tanto que Rigotto, avô de dois netos, tem o mesmo peso de 20 anos atrás (graças a maratonas, que disputa em parceria com Rafael) e aparência rejuvenescida. Como ressalta um colaborador próximo, tudo isso sempre ajudou a colher votos, além do fato de ser "boa pinta".
Lembro de dezenas de viagens que acompanhei em que as pessoas faziam filas para tirar foto com o Rigotto. Era até engraçado, parecia um superstar.
COLABORADOR PRÓXIMO DE RIGOTTO
Provocado sobre o que vai fazer se não se eleger, Rigotto diz que não trabalha com essa hipótese.
— Estou desatualizado para a Odontologia, então vamos pela política. Acho que sou um nome reconhecido nacionalmente, tenho bagagem e ainda posso contribuir muito para ajudar nosso Rio Grande em questões fundamentais — conclui.



