Na escuridão da noite, seis estudantes descem da kombi e sacodem sprays junto ao muro. Na vanguarda, Paulo Pimenta pinta o fundo preto onde seria pichada a frase “Diretas urgente, para reitor e presidente”. Não dá tempo nem para a primeira letra.
De súbito, alguém abre uma janela no outro lado da rua e atira. Pimenta corre, mas é derrubado por um balaço calibre .38 no joelho. Submetido a uma ponte de safena para restabelecer o fluxo sanguíneo na perna, passa 108 dias hospitalizado. A eleição direta à Presidência seria derrubada pelo Congresso no mês seguinte, mas Pimenta se elege presidente do DCE da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Era o começo de uma trajetória política que o tornaria vereador, deputado e ministro de Estado. Aos 61 anos, casado desde 1989 com a professora Cláudia Dutra, com quem tem três filhos, Pimenta agora tenta o maior salto político de sua trajetória, ao concorrer ao Senado.

Esta é a sexta reportagem de Zero Hora de uma série de oito perfis dos candidatos que concorrem ao Senado no Rio Grande do Sul por partidos com representação no Congresso.
O capitão do time se consagrou por um tiro
Filho de uma professora e de um servidor público, Paulo Roberto Severo Pimenta nasceu em Santa Maria, em 19 de março de 1965. Quarto numa prole de cinco irmãos, cresceu numa casa onde pouco se conversava sobre política. Aos 14 anos, ingressou no Colégio Agrícola da UFSM. Único aluno urbano entre jovens vindos do interior, era alvo de piadas por não saber manejar enxada ou operar trator.
A redenção veio pelo futebol. Como centroavante habilidoso, ganhou destaque e se tornou capitão do time, popularidade que o alçou à presidência do grêmio estudantil.
Em 1983, já cursando Agronomia, Pimenta participou do congresso da União Nacional dos Estudantes em São Bernardo do Campo (SP), onde conviveu com militantes que mais tarde virariam expoentes da política nacional, como o deputado José Guimarães (PT) e a ex-ministra Marina Silva (Rede). Todos pertenciam ao Partido Revolucionário Comunista (PRC), organização clandestina que combateu a ditadura militar.
No mesmo ano, Pimenta filiou-se ao PT e conheceu aquele que viria a ser seu principal mentor político, Luiz Inácio Lula da Silva, durante uma visita do então líder sindical a Santa Maria. Consagrado pelo tiro, o agitador estudantil se elegeu duas vezes vereador, em 1988 e 1992.

Dias de espera e vitória por apenas 28 votos
Pimenta havia trocado a Agronomia pelo Direito, mas os compromissos políticos dificultavam a vida universitária, levando-o a optar pelo Jornalismo, cujas aulas ocorriam à noite. Formou-se em 1994, mesmo ano em que firmou a amizade com Lula ao percorrer o Estado durante o braço gaúcho da Caravana da Cidadania, embrião da segunda candidatura presidencial do petista.
Em 1998, concorreu a deputado estadual. A apuração manual se arrastou por dias, com Pimenta ansioso sem saber o resultado. Às cinco da manhã de quarta-feira, o telefone tocou na casa de Pimenta. Era o jornalista da Rádio Gaúcha Antônio Carlos Macedo, avisando-o de que ele conquistara a última vaga na Assembleia Legislativa por escassos 28 votos de diferença.
Essa história é determinante, porque se eu não me elejo ali, minha vida teria tomado outra direção. Provavelmente eu não teria seguido na política.
PAULO PIMENTA
Candidato ao Senado pelo PT.
Na estreia em Brasília, uma foto que custou caro
Eleito vice-prefeito de Santa Maria na chapa encabeçada por Valdeci de Oliveira (PT), deixou a cidade dois anos depois, catapultado para o primeiro mandato na Câmara dos Deputados. Logo em sua estreia em Brasília, vive a maior conquista e o maior arrependimento na vida pública.
A conquista foi a criação da Universidade Federal do Pampa, em 2005, mesmo ano em que eclodiu o escândalo do mensalão. Escalado para defender o governo como vice-presidente da CPI que investigava o caso, Pimenta teve de renunciar ao posto.
Na ocasião, ele embarcou no carro do operador do esquema, Marcos Valério, para pegar documentos da chamada “lista de furnas”, relação de políticos da oposição que teriam recebido propina. A imagem do vice-presidente dividindo o banco com o principal investigado tornou insustentável sua presença na CPI.
— Eram documentos muito importantes para nós. Envolvia o Aécio Neves, aquela turma toda. Quando o cara entrou no carro, entrei junto. Me arrependo pelo descuido — diz o deputado.
Das visitas em Curitiba ao telefonema inesperado
O episódio trouxe desgaste e Pimenta reduziu a votação em 2006. A cada mandato, porém, crescia na hierarquia do PT e se tornou o deputado mais votado do partido nas quatro eleições seguintes. A guinada combativa ganhou força em 2015, sob o impeachment de Dilma Rousseff.
Chamado ao Palácio do Planalto por Dilma e Lula, assumiu a vice-liderança da bancada e, a partir de 2018, foi líder do partido por dois anos, durante a prisão de Lula. Numa rotina em que o ex-presidente recebia duas visitas políticas semanais, Pimenta foi convocado à cela em oito ocasiões, tornando-se o parlamentar mais assíduo. A cada visita, anotava orientações para transmitir ao partido.
Em março de 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou todas as condenações de Lula, devolvendo seus direitos políticos. Na mesma noite, o telefone de Pimenta tocou em Brasília. Ao atender, reconheceu a voz inconfundível do mentor.
— Pô, presidente, o senhor me ligando? Tem tanta gente importante querendo falar com o senhor agora — surpreendeu-se Pimenta.
— Tu acha mesmo que depois de tudo que nós passamos juntos, eu não ia ligar para te agradecer hoje? — respondeu Lula.

Pimenta se elegeu para o sexto mandato com 223.109 votos, a maior votação de um deputado do partido no RS, na mesma eleição em que Lula foi reconduzido à Presidência. Fortaleceu ainda mais os vínculos com o presidente ao ocupar duas pastas: a Secretaria de Comunicação Social e, depois, a Secretaria de Apoio à Reconstrução do Rio Grande do Sul.
De volta à órbita do poder, Pimenta trocou a combatividade pela articulação política. Como líder do governo, negocia os principais projetos do Planalto com a base aliada e a oposição. No Palácio, concebeu a convergência do partido ao centro, levando o PT, pela primeira vez, a abdicar de uma candidatura ao governo do Estado, numa aliança com Juliana Brizola, do PDT.
O presidente sempre foi muito claro sobre qual estratégia ele queria para o Rio Grande do Sul. Então eu jamais tive qualquer oposição que tenha saído da minha cabeça.
PAULO PIMENTA
Candidato ao Senado pelo PT.




