A enchente de 2024 deixou cicatrizes profundas na educação do Rio Grande do Sul, que vão de danos à infraestrutura das escolas a uma queda nos indicadores escolares. Como tornar as instituições de ensino mais resilientes a tragédias climáticas é um dos desafios da educação no Estado.
Mas não apenas isso. Ampliar vagas na educação infantil, melhorar a alfabetização, aumentar o acesso ao ensino em tempo integral e profissionalizante e investir na formação de mais professores são fatores-chave para pavimentar o futuro dos gaúchos.
Na visão de especialistas, o sucesso dessa missão depende menos de promessas e mais de planejamento, investimento e compromisso permanente com a educação.
Esta é a segunda de uma série de oito reportagens do Grupo RBS sobre os principais desafios que o Estado precisa enfrentar para avançar nos próximos anos (saiba mais abaixo). Zero Hora selecionou, a partir de ouvidorias realizadas pelo Conselho Editorial da RBS e da consulta a fontes independentes, questões que merecem a atenção dos representantes do eleitor gaúcho na área da educação:
1) Resiliência climática nas escolas
A pergunta que passou a orientar gestores de escolas no Vale do Taquari após a enchente de 2024 foi: qual é o lugar mais seguro para levar alunos e professores durante uma tragédia como essa? É assim que a resiliência climática se tornou um dos maiores desafios da educação no Estado.
O evento de 2024 atingiu 1.776 instituições de ensino gaúchas, somando as redes estadual, municipal e privada, conforme dados da Secretaria Estadual da Educação (Seduc), da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs) e do Sindicato do Ensino Privado do Estado (Sinepe-RS).
Mas os desafios na preparação das escolas para enfrentar os fenômenos climáticos não se limitam às enchentes. No início de 2025, sucessivas ondas de calor provocaram a suspensão das aulas em diversas instituições da rede pública gaúcha.
Em muitas delas, faltavam equipamentos de climatização. Em outras, a infraestrutura elétrica não suportava o funcionamento simultâneo de ventiladores e aparelhos de ar-condicionado.
Soluções passam por reconstrução e treinamento
Uma das soluções mais urgentes apontadas por especialistas é a reconstrução das escolas danificadas pela enchente. Algumas ainda operam em espaços provisórios. É o caso da Escola Municipal de Ensino Fundamental Léo Joas, em Estrela, no Vale do Taquari. Os cerca de 500 alunos seguem estudando em outra unidade enquanto um novo prédio é construído em uma área livre de risco. No antigo terreno, vai ser erguido um centro de acolhimento.
A reconstrução foi uma demanda da própria comunidade. Para famílias do bairro, o novo prédio representa segurança e a expectativa de retomada da rotina escolar.
— O maior bairro de Estrela merece uma escola à altura. É uma sensação de alívio — diz a massoterapeuta Ana Cristina Müller, que tem filhas matriculadas na escola.
Outro caminho que tem sido trilhado por escolas públicas para enfrentar eventos extremos é adotar planos de contingência, treinamentos e adaptações estruturais.
Uma das instituições que oferecem treinamentos para estudantes e profissionais é a Escola Estadual de Ensino Médio General Souza Doca, em Muçum, também no Vale do Taquari. O plano prevê rotas de saída, definição de responsáveis pela condução das turmas e locais seguros para abrigar a comunidade escolar.
Segundo a diretora da escola, Karina Baronio Cucioli, a preparação busca tornar a instituição mais preparada para eventuais novos episódios climáticos:
— Agora sabemos como sair organizadamente, qual vai ser a primeira pessoa a conduzir a fila e para onde eles vão ser levados.
Para o pedagogo William Fernando de Oliveira, outra proposta para adaptar as escolas à mudança climática é investir em infraestrutura sustentável. Entre as alternativas apontadas por ele, estão a ampliação da arborização, a criação de áreas sombreadas e a adoção de telhados verdes:
— Precisamos de ambientes acolhedores. Os Poderes Executivos, sejam municipais ou estadual, precisam pensar nessa infraestrutura. Infelizmente, esses fenômenos vão continuar acontecendo.
Oliveira acrescenta que também é preciso oferecer à comunidade escolar programas de apoio emocional para o enfrentamento dos traumas deixados pelas tragédias, que acompanham os afetados por longo prazo e impactam os indicadores educacionais.
— É um desafio grande, que não é exclusivo do Rio Grande do Sul: é brasileiro e mundial.
2) Ampliação de vagas na educação infantil

Aumentar o acesso à educação infantil é um desafio que pressiona muitos municípios gaúchos. Dados do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS) indicam um déficit de 33,4 mil vagas na faixa de zero a três anos e de outras 4,1 mil vagas para quatro e cinco anos, etapa em que a educação passa a ser obrigatória.
Uma iniciativa em Porto Alegre está contribuindo para a recuperação de escolas afetadas pela enchente de 2024 e, ao mesmo tempo, ajudando no desafio de ampliar vagas.
O Instituto Cultural Floresta assumiu a reconstrução de três instituições públicas localizadas na Capital. Uma das obras ocorre na Escola Municipal de Educação Infantil Miguel Granato Velasquez, no bairro Sarandi. O projeto prevê a construção de um anexo acima da cota alcançada pela água em 2024.
De acordo com o presidente do Instituto, Claudio Goldsztein, a estrutura foi planejada para funcionar como espaço de apoio à comunidade em eventuais emergências futuras. Quando concluída, a ampliação permitirá dobrar a capacidade de atendimento da escola para crianças de zero a cinco anos em tempo integral.
Depois de prontas, as três escolas vão gerar 600 vagas na educação infantil da Capital.
Soluções incluem colaboração e parcerias
O conselheiro Cezar Miola, do TCE-RS, afirma que para ampliar o atendimento e cumprir metas exigidas pelo Plano Nacional de Educação, é preciso haver colaboração entre União e Estado para ajudar os municípios, responsáveis pela criação de vagas nessa etapa:
— Tenho falado da importância de destinar emendas parlamentares para a educação infantil. Os dados mostram que grande parte das crianças sem acesso a creche são justamente as de famílias mais vulneráveis.
Outra alternativa para a ampliação de vagas, apontada por Goldsztein, do Instituto Cultural Floresta, são as parcerias público-privadas. Para ele, trata-se de uma solução fundamental para ajudar o poder público a ter estruturas de melhor qualidade:
— Isso significa ampliar as vagas não só na rede pública, mas com convênios, vouchers e parcerias (com a rede privada). Para as prefeituras, em algumas situações, é muito mais barato atender a demanda com vouchers do que abrir uma nova escola, fazer obra. Vários municípios já fazem isso.
3) Indicadores de alfabetização

Além dos impactos sobre a estrutura física das escolas, os eventos extremos no Estado também afetaram a aprendizagem.
Dados do Indicador Criança Alfabetizada, divulgados em março pelo Ministério da Educação, mostram que apenas 52% das crianças gaúchas estavam alfabetizadas na idade considerada adequada em 2025. São 17 pontos percentuais abaixo da meta prevista para o ano, que era de 69%.
Elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o teste é aplicado em estudantes do final do 2º ano do Ensino Fundamental.
Os 52% de alfabetizados no Estado representam melhora em relação aos 45% registrados em 2024, ano em que o sistema de ensino foi impactado pela enchente, mas ainda estão abaixo dos 63% de 2023.
O desempenho gaúcho em 2025 também é inferior à média nacional de 66%. Comparado com outros Estados, o Rio Grande do Sul ficou nas três últimas posições, à frente apenas de Sergipe (50%) e Rio Grande do Norte (48%).
A meta do Plano Nacional da Educação é chegar a 80% de crianças alfabetizadas na idade certa até 2030.
Para a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Renata Sperrhake, centenas de crianças avançam sem ter habilidades básicas de leitura e de escrita consolidadas. Segundo ela, essas deficiências se refletem em toda a trajetória do estudante na Educação Básica.
— Avançar para os Anos Finais do Ensino Fundamental sem ter uma boa base de alfabetização torna difícil para uma criança compreender textos de ciências naturais, história e geografia. Essa aprendizagem é fundamental para toda a escolarização — afirma Renata.
Soluções passam por recomposição de aprendizagens
Para especialistas ouvidos pela reportagem, as soluções para os gargalos de alfabetização no Estado devem incluir programas de recomposição de aprendizagens.
O gerente de políticas educacionais do Todos Pela Educação, Ivan Gontijo, explica que as ações desses programas podem incluir, por exemplo, contraturno para reforço e recuperação ou uma disciplina específica que trabalhe conteúdos de anos anteriores.
A professora Renata Sperrhake, da UFRGS, observa que a política pública de recomposição de aprendizagens deve ser permanente e acrescenta:
— Também precisam ser observados na definição das políticas públicas fatores como formação de professores, infraestrutura qualificada, alimentação escolar e condições sociais dos alunos.
Entre as soluções que o governo estadual tem colocado em prática está o Programa Alfabetiza Tchê, focado na alfabetização na idade certa e realizado em colaboração com os municípios. Nota da Secretaria Estadual da Educação divulgada em março explica que as ações "envolvem a formação de professores, gestores, avaliação de fluência leitora, diagnóstica e somativa, bem como material pedagógico complementar e apoio à aprendizagem".

4) Tempo integral e ensino profissionalizante
Outras duas metas do Plano Nacional de Educação estão entre os principais desafios do Rio Grande Sul na área: aumentar o acesso ao ensino em tempo integral e profissionalizante.
O número de matrículas no Ensino Médio em tempo integral no Rio Grande do Sul cresceu significativamente nos últimos anos, passando de 5,1 mil em 2016 para 51,3 mil em 2025, conforme dados da Secretaria Estadual da Educação (Seduc). Mesmo assim, a modalidade atende apenas cerca de um quinto dos alunos dessa etapa.
A meta do Plano Nacional de Educação é chegar a 50% de estudantes matriculados em ensino de tempo integral no país até 2036, último ano de vigência do plano. Em 2025, a proporção era de 25,8%.
Outra demanda é aproximar a escola do mundo do trabalho. Pesquisa realizada pelo Observatório Sesi da Educação com alunos do terceiro ano da rede estadual mostrou que 58% afirmam ter tido pouco ou nenhum contato com experiências relacionadas ao mercado profissional durante a trajetória escolar.
A educação profissional apresenta crescimento no Rio Grande do Sul nos últimos anos: as matrículas em cursos técnicos vinculados à rede estadual passaram de 36,5 mil em 2021 para 41 mil em 2025. Em 2016, no entanto, eram 42,6 mil.
A meta do Plano Nacional de Educação (PNE) é que, em 2036, 50% dos estudantes do Ensino Médio do país estejam na educação profissional e tecnológica. Em 2025, a proporção era de 21,5%.
Soluções incluem expansão e integração
Aumentar investimentos no ensino em tempo integral e unir Ensino Médio com ensino técnico e profissionalizante estão entre as soluções apontadas por especialistas.
Para Ivan Gontijo, do Todos Pela Educação, é importante seguir expandindo o ensino em tempo integral. Essa agenda, segundo ele, "não é simples de ser implementada, mas é comprovadamente eficaz para garantir uma educação de qualidade". O caminho, segundo ele, passa por mais investimentos:
— Exige mais recursos, porque (o ensino em tempo integral) tem mais alimentação, os professores passam o dia inteiro na escola. Exige redimensionar a rede, porque você precisa de escolas com melhor infraestrutura.
Segundo o Plano Nacional de Educação, a expansão de vagas da educação profissional e tecnológica deve priorizar o formato integrado, em que o aluno cursa o Ensino Médio regular e o curso técnico juntos na mesma escola.
No Rio Grande do Sul, segundo a Secretaria Estadual da Educação (Seduc), as 432 escolas de Ensino Médio com tempo integral já oferecem ensino profissionalizante.
Para Ecleia Conforto, gerente do Instituto Sesi de Formação de Professores, os caminhos passam também por fortalecer o ensino técnico, ampliar currículos flexíveis e criar percursos formativos mais alinhados às necessidades dos jovens.
Ecleia aponta, ainda, a necessidade de ampliar investimentos em Educação de Jovens e Adultos (EJA):
— É preciso estruturar uma proposta de EJA que converse com esse perfil (adultos que não têm Ensino Médio completo). Não podemos oferecer uma educação no formato de uma educação regular. Temos que pensar em currículos mais flexíveis e que conversem com o mundo do trabalho, porque é nisso que eles estão inseridos.
5) Falta de professores

A falta de professores também tem se tornado uma preocupação no Rio Grande do Sul. Estudo do Observatório Sesi da Educação estima que o Estado poderá registrar déficit de aproximadamente 10 mil docentes até 2040.
Ecleia Conforto, do Observatório Sesi de Educação, defende que é preciso entender a importância da figura do professor:
— É ele quem forma qualquer outra profissão. O professor faz uma mediação, entende o processo de aprendizagem do aluno, constrói esse processo com ele. Esses professores precisam ter uma formação voltada à prestação de serviço, à docência. É uma questão-chave para a educação.
Para Oswaldo Dalpiaz, presidente do Sindicado do Ensino Privado do Estado (Sinepe-RS), o primeiro desafio é formar professores em quantidade; o segundo, em qualidade.
Soluções incluem incentivos e parcerias
A reversão desse quadro, conforme especialistas, depende de valorização salarial, melhoria das condições de trabalho e políticas públicas capazes de atrair novos profissionais para a carreira.
Estratégias como parcerias entre o poder público e a iniciativa privada são apontadas como um caminho para ampliar a formação de novos professores em áreas estratégicas como português e matemática. Oswaldo Dalpiaz, do Sinepe-RS, observa:
— Há no Rio Grande do Sul de 110 a 115 instituições privadas de Ensino Superior, e muitas delas têm licenciatura para a formação de professores. Ou seja, (o governo estadual poderia) oferecer bolsa e favorecer a permanência desses professores em um curso superior para que depois ele vá lecionar.
Uma da vantagens dessa parceria, acrescenta Dalpiaz, é que professores do Interior não precisariam ir à Capital para se formar:
— Tem faculdades próximas que podem ajudar a política do governo de ampliar o número de professores.
Fontes consultadas
- Claudio Goldsztein, presidente do Instituto Cultural Floresta
- Ecleia Conforto, gerente do Instituto Sesi de Formação de Professores
- Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs)
- Indicador Criança Alfabetizada (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira/Ministério da Educação)
- Ivan Gontijo, gerente de políticas educacionais do Todos Pela Educação
- Karina Baronio Cucioli, diretora da Escola Estadual de Ensino Médio General Souza Doca, em Muçum, no Vale do Taquari
- Oswaldo Dalpiaz, presidente do Sindicado do Ensino Privado do Estado (Sinepe-RS)
- Panorama de Dados Educacionais — Rio Grande do Sul 2026 (Todos Pela Educação)
- Plano Nacional de Educação (Ministério da Educação)
- Renata Sperrhake, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
- Secretaria Estadual da Educação (Seduc)
- William Fernando de Oliveira, pedagogo
A série
Entre 8 de setembro e 1º de outubro, a RBS publica em seus veículos de jornalismo uma série de reportagens sobre os principais desafios para o Estado avançar em oito temas: Ambiente, Educação, Contas Públicas, Infraestrutura, Agronegócio, Saúde, Segurança e Desenvolvimento Econômico.
As temáticas foram escolhidas a partir das contribuições de vários setores da sociedade colhidas em uma série de ouvidorias realizadas pelo Conselho Editorial da RBS em 2026. As reportagens realizam um raio-X dos temas e buscam descrever as soluções e caminhos possíveis. Ao final do primeiro turno da eleição, o material será reunido em um dossiê que será entregue aos representantes eleitos dos gaúchos e, em caso de segundo turno, aos dois candidatos que concorrem ao governo do Estado.



