O conselho político de Marcel van Hattem, à época filiado ao PP, estava reunido no salão de festas do condomínio do advogado Ricardo Gomes, que se tornaria vice-prefeito de Porto Alegre sete anos depois. Era dezembro de 2013 e cerca de 15 pessoas foram ao encontro para decidir se Marcel, então com 28 anos, deveria voltar da Holanda, onde cursava o segundo mestrado, para tentar pela terceira vez chegar à Assembleia Legislativa.
Graduado em Relações Internacionais, Marcel estava na Europa desde 2011, estudando como bolsista. Um encontro com o empresário William Ling, em agosto de 2013, deflagrou a mudança de rota. Questionado por Ling sobre o que estava fazendo na Europa, respondeu que o mestrado em Jornalismo era quase um hobby, pelo fato de ser entusiasta da comunicação.
— O William me olhou e disse: "A gente precisa de ti aqui e você está cuidando de um hobby na Europa." Foi uma paulada. E eu voltei — recorda Marcel.

Dos presentes na reunião, apenas dois colaboradores e amigos próximos, o cientista político Cláudio Damin e o empresário Renan Pretto, votaram para que continuasse no mestrado na Europa.
— Eu já tinha chorado duas vezes, em 2006 e 2010 (quando Marcel concorreu à Assembleia e não se elegeu), e não queria chorar a terceira. Dói perder. Eu errei redondamente. Ele foi candidato e fez mais de 35 mil votos — afirma Damin, voluntário das campanhas.
Marcel ficou como primeiro suplente do PP, mas assumiu mandato na Assembleia porque deputados titulares do partido foram para o secretariado do Palácio Piratini. Agora, aos 40 anos, ele é candidato do Novo ao Senado.

Esta é a quarta reportagem de Zero Hora de uma série de oito perfis dos candidatos que concorrem ao Senado no Rio Grande do Sul por partidos com representação no Congresso.
Antiesquerdista de choque: embate com petistas na Redenção moldou imagem
A campanha de 2014 foi decisiva para a ascensão. Um encontro casual com a deputada federal Maria do Rosário (PT) no Parque Farroupilha, enquanto os dois faziam panfletagem, moldou a imagem do antiesquerdista de choque.
O perfil já era combinado com a habilidade de reverberar no mundo digital. Marcel andava desde aqueles tempos com um videomaker a tiracolo. Ao ver a petista, disparou contra ela, com auxílio de um megafone: “A senhora nos envergonha”.
Maria do Rosário se afastou, mas os apoiadores dela permaneceram. Os grupos de Marcel e da petista se postaram frente a frente, gritando uns contra os outros: “Fascista!”, “Fora PT!”. No auge da tensão, Marcel berrava, mas nem se ouvia mais o que dizia, tamanha a alaúza. O conteúdo inundou o Facebook.
A campanha estava morta e aquele vídeo viralizou. Foi fundamental para ele se tornar mais conhecido no eleitorado antipetista. A partir daquilo, bombou.
CLÁUDIO DAMIN
Cientista político e amigo de Marcel.
Durante o mandato na Assembleia, manteve a estratégia de rivalizar com a esquerda e defender bandeiras da direita com ardor, como a redução do Estado e o combate aos sindicatos.
— Teve ocasiões em que viralizamos mais de um vídeo por semana — lembra Damin.
Ainda como deputado estadual, Marcel ganhou notoriedade nas manifestações pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff e como fervoroso defensor da Operação Lava-Jato. Antes da eleição de 2018, trocou o PP pelo Novo. Afastar-se de bolsões do centrão teria sido o principal objetivo da migração.
Sair de um partido grande não o impediu de ser o deputado federal mais votado do Estado. Foram 349,8 mil votos. Em 2022, foi reeleito com o apoio de 256,9 mil eleitores.
— O establishment político achava que eu tinha jogado a eleição fora quando fui para o Novo, mas o que fez as pessoas votarem em mim não foi a estrutura partidária. Foi a defesa das ideias — conta.
Leitor de Olavo de Carvalho, derrotou esquerda no DCE da UFRGS
O candidato ao Senado aflorou para a política estadual em 2009, quando era integrante da chapa que venceu a eleição do DCE da UFRGS, tendo o amigo Renan Pretto como presidente. Surpreenderam ao derrotar a esquerda após cerca de 40 anos de hegemonia.
Naquele final de década, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha mais de 80% de aprovação popular no segundo mandato, Marcel se expunha para fazer críticas ao PT que outros não ousavam, dizem aliados.
Sua base teórica era abastecida por leituras do escritor Percival Puggina e do ideólogo Olavo de Carvalho. Pela construção política que começou em 2004, quando se elegeu vereador de Dois Irmãos, no Vale do Sinos, aos 18 anos, os apoiadores avaliam que ele tem luz própria, não sendo um produto do bolsonarismo.
É um dos precursores de uma posição política que renasceu no Brasil. Levantou a bandeira do liberal e da direita antes de isso ser trend.
RICARDO GOMES
Advogado, ex-vice-prefeito de Porto Alegre e ex-chefe de gabinete de Marcel na Assembleia.
Protesto no plenário gerou denúncia em comissão
A verve, saudada por entusiastas, também causou problemas. Em abril deste ano, a Procuradoria-Geral da República (PGR) notificou Marcel sobre denúncia contra ele no Supremo Tribunal Federal (STF) pelos crimes de injúria e calúnia. A acusação é de que ele cometeu os delitos ao afirmar, na tribuna da Câmara, que um policial federal teria “criado relatórios falsos” para justificar a prisão de Filipe Martins, ex-assessor do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em outra situação ruidosa, a Comissão de Ética da Câmara recomendou a suspensão do mandato dele por quebra de decoro parlamentar, no episódio da ocupação da Mesa Diretora. O caso segue em análise, sem decisão.
— Nunca fiz manifestação violenta. É perseguição e retrocesso denunciar um parlamentar por usar a tribuna — defende-se Marcel.

Violinista e parceiro desmedido
Nascido em São Leopoldo, Marcel cresceu em Dois Irmãos. Mais velho de cinco irmãos, é filho de um engenheiro holandês que migrou para o Brasil e de uma arquiteta. Eles se conheceram em um congresso da Igreja Luterana.
Amigos descrevem Marcel como um parceiro desmedido. Em janeiro de 2015, por exemplo, ele topou o convite para acompanhar Renan Pretto até a Rússia. Pretto queria reconquistar uma ex-namorada com uma serenata e caberia a Marcel tocar violino, instrumento que ele domina desde a adolescência. Do outro lado do mundo, não encontraram a pretendida de Pretto, mas tiveram uma aventura inesquecível.
— Eu precisava de um amigo louco o suficiente para ir lá e levar o violino. Desistimos da serenata e aproveitamos a viagem. O Marcel se desligou e disse que foi das melhores porque conseguiu viver e aproveitar — recorda Pretto.




