Eleito sete vezes deputado estadual, Frederico Cantori Antunes, 57 anos, é um dos nomes mais presentes na política gaúcha. O trânsito construído ao longo de três décadas na vida pública não vem só da urna e diz muito de uma influência tecida dia a dia, nos bastidores. De virador de voto entre as bancadas à aprovação de pautas polêmicas, o deputado é reconhecido na esquerda e na direita pela destreza na articulação.
Esta é a primeira reportagem de Zero Hora de uma série de oito perfis dos candidatos que concorrem ao Senado no Rio Grande do Sul por partidos com representação no Congresso.
Veterano no parlamento estadual, concorre pela primeira vez ao Senado. Também é a primeira vez que disputa eleições pelo PSD, após romper uma relação de décadas com o PP.
A troca de sigla o desviou de outro desfecho. Ele concorreria a deputado federal se permanecesse no PP, mas a opção do partido de apoiar a candidatura ao Piratini de Luciano Zucco — de oposição ao governo Eduardo Leite, do qual Frederico é líder desde 2019 — fez o deputado mudar os planos.

Na campanha, a aposta é mirar justamente no que o tornou conhecido: palavra e articulação.
Da Câmara de Uruguaiana à tropa de choque do Piratini
Entre os pontos altos da trajetória, o candidato menciona o seu primeiro mandato, ainda como vereador de Uruguaiana, na Fronteira Oeste, quando se dispôs a olhar para o setor primário. Engenheiro agrônomo de formação, sentia que havia uma lacuna na base da economia local. Frederico foi o mais votado naquele pleito, em 1992.
Depois, passou a rodar o Estado como diretor de Fomento e Patrimônio do Banrisul. Foi o que moldou a carreira que o levaria aos sete mandatos como deputado estadual — o primeiro conquistado em 1998 —, até virar presidente da Assembleia, em 2007.
Outro ponto alto da carreira foi quando assumiu as rédeas da articulação das reformas encaminhadas no governo de Eduardo Leite, liderando a maior base de governo da história, com 40 deputados.
Assista ao videocast Conversa de Gabinete sobre a disputa ao Senado:
Promessa de vacina garantiu acordo histórico com esquerda
Uma das articulações mais emblemáticas, em torno do reajuste do ICMS, envolveu até vacina. O imposto estadual teve as alíquotas elevadas em 2015, no início do governo de José Ivo Sartori, até 2018. Após vencer a eleição daquele ano, Leite pediu que a Assembleia renovasse o aumento por mais dois anos, alegando necessidade de conter a crise fiscal.
Por um ano, passou. Mas de novo o prazo venceu, o que levou a uma nova votação. O novo projeto não teve apoio da base, mas um acordo com o PT permitiu manter as alíquotas majoradas por mais um ano, num percentual de meio-termo.

Nossa base estava relutando em votar. No dia da votação, fizemos uma reunião com a bancada do PT e eles disseram: 'nós topamos votar se o governador se comprometer a utilizar recursos para comprar vacinas'. E nós fechamos o acordo.
FREDERICO ANTUNES
Candidato ao Senado pelo PSD.
— Para nós, o centro do debate era salvar vidas. O ICMS não era uma questão de princípio, era de saber onde usar esse recurso. Essa foi a principal razão que demos ao nosso apoio — conta Luiz Fernando Mainardi, prefeito de Bagé e na época presidente da bancada do PT na Assembleia.
Apesar da aparente derrota pela falta de apoio na base, a votação foi considerada histórica pela manobra política que envolveu.
"Não trato como arrependimento, mas como amadurecimento"
Em mais de 30 anos de carreira política, Frederico diz não ter algo de que se arrependa, mas pontua episódios em que a maturidade o teria feito agir diferente. Entre eles, uma cruzada: havia no governo Olívio Dutra uma situação agrária muito forte envolvendo invasão de terras.
À época na oposição, Frederico já se posicionava pela proteção à propriedade privada e à livre iniciativa. Mas em seguida veio o governo de Germano Rigotto, o que exigia resolver situações semelhantes, só que do outro lado da mesa.
— Não trato como arrependimento, mas como amadurecimento: para resolver algumas situações, tu manténs os teus ideais, mas tens que buscar separar as convergências das divergências. No início, ainda verde, eu misturava essas duas coisas. O que nós convergíamos ficava para trás, e botávamos na frente o que a gente divergia. Hoje, eu trato isso como um aprendizado — rememora.
Apesar da atuação invicta na aprovação de projetos enquanto líder de governo, sem uma única rejeição em plenário desde 2019, a ligação a temas espinhosos como a reforma da previdência e a elevação de impostos quase lhe custou o último mandato como deputado estadual. Frederico foi somente o quinto mais votado do PP na eleição de 2022, o que se atribui à antipatia criada entre as categorias afetadas pelas reformas de Leite.
Elegância no vestir e no trato com adversários
Acomodadas as divergências, o jogo de cintura para transitar entre situação e oposição virou marca pessoal. A capacidade de articulação é mencionada de forma unânime entre amigos e colegas da política como a principal habilidade do candidato.

Definido como um “cumpridor de missão” pelo ex-secretário de Estado e amigo de longa data Otomar Vivian, Frederico fez da conversa a sua maior aliada. A postura pelo diálogo, dizem os colegas, foi determinante nas tratativas das últimas três décadas.
— É um político que cumpre palavra, o que adquire importância na confiança que se estabelece dentro da política. Discute com atenção e profundidade e é muito trabalhador. Isso gera confiança nas parcerias que ele cria — diz Vivian.
Tenho uma admiração e respeito muito grandes por Frederico. Oxalá todos os adversários tivessem a mesma cordialidade. Ele tem suas disputas, mas busca o convencimento e respeita. Para ser um líder de governo, tem de ter essa seriedade.
LUIZ FERNANDO MAINARDI
Prefeito de Bagé e ex-deputado estadual.
Organização, domínio do regimento legislativo e tratamento cortês estão entre as características listadas por outros correligionários e colegas da política. A vaidade e a elegância — terno, óculos e cabelos sempre no ajuste impecável — também são lembradas.
Ligado às pautas do Interior, participou de discussões de temas como aviação regional, segurança nas regiões fronteiriças e regulamentação das cidades gêmeas, entre elas a que possibilitou o comércio de free shops terrestres nas franjas do Rio Grande do Sul.
Na vida "que resta" fora da política, Frederico se dedica ao Inter e à família. É casado com Silvia Trindade Antunes e pai de quatro filhos: Felipe, João, Pedro e Luísa.



