Aos 69 anos, Milton Batista Cardoso quer trocar o microfone pelo parlamento. Jornalista há mais de quatro décadas e conhecido por declarações polêmicas no rádio e na televisão, ele disputa pela primeira vez uma eleição e tenta chegar ao Senado pelo Rio Grande do Sul.
Com perfil combativo, ele afirma seguir "a linha da direita", mas rejeita os rótulos de extrema-direita e de bolsonarista. Também critica o Fundo Eleitoral e pretende fazer campanha com recursos próprios e espera obter financiadores.
Após cerca de 20 anos filiado ao PDT, migrou para o PSDB em maio para disputar a eleição.

Esta é a quinta reportagem de Zero Hora de uma série de oito perfis dos candidatos que concorrem ao Senado no Rio Grande do Sul por partidos com representação no Congresso.
"Mário Covas me tinha como se eu fosse filho"
Por cerca de 15 anos, Cardoso foi repórter setorista do Congresso Nacional, cobrindo os bastidores de Brasília. No centro do poder, diz ter percebido incoerências que impulsionaram a decisão de concorrer. Para ele, o excesso de dinheiro na política afastou o Congresso do que deveria ser sua função.
— Entrei na política pelo processo de degradação que vive o cenário político. Estou entrando justamente para ajudar a romper com o sistema que está instalado — conta.
A convivência com políticos também fez com que desenvolvesse admiração por figuras como Pedro Simon, que foi governador do Rio Grande do Sul e senador, e Mário Covas, duas vezes governador de São Paulo.
— Esse me tinha como se fosse um filho. Se o Mário Covas tivesse sido eleito presidente da República, eu teria sido o porta-voz dele — disse.
Após passar por veículos como TV Globo, SBT e Bandeirantes, Cardoso quer deixar de comentar o cenário político para moldá-lo.
Não quero reeleição. Não quero carreira política. Quero lutar para acabar com esse mandato de oito anos de senador, que é um absurdo. Nos Estados Unidos são quatro e aqui são oito. Quero resgatar o papel do Senado, limpar o STF, que está poluído.
MILTON CARDOSO
Candidato ao Senado pelo PSDB.
Ele reconhece que está lutando contra "gigantes". Além de ser novato na disputa eleitoral, passou a usar as redes sociais há pouco tempo:
— Há três meses criei um TikTok. Não usava redes sociais.

Antes do jornalismo, DJ no Rio e três vestibulares para Medicina
Milton Cardoso nasceu no Rio de Janeiro em 15 de junho de 1957. Veio para solo gaúcho com cerca de dois anos e foi criado pelos avós em São Leopoldo, no Vale do Sinos. Ficou na cidade até por volta dos 17 anos, quando decidiu retornar para o Rio.
Embora hoje se apresente como conservador, chegou a ser DJ na noite do Rio de Janeiro entre os 18 e 19 anos. Trabalhou na lendária casa noturna Hippopotamus, conhecida por receber famosos e por ser o “paraíso” da farra e da curtição nos anos 1970.
— Foi um período fantástico. Ali eu convivi com Cazuza, Renato Russo, Tim Maia — relembra.
O sonho profissional, entretanto, era outro.
— Sou um cara meio frustrado, porque o meu sonho era ser médico. Fiz três vestibulares para Medicina e naquela época não consegui passar em nenhum. Aí fiz Jornalismo — explica o comunicador formado pela Universidade de Brasília (UnB).
O ponto alto da carreira para ele foi uma entrevista com o médium Chico Xavier em Uberaba (MG), após uma perda familiar. O encontro aprofundou sua relação com a espiritualidade.
— Foi o que me ajudou a me recuperar — relata o candidato, que é católico e também adepto do espiritismo.
Os arrependimentos, por outro lado, estão ligados a políticos em quem confiou.
— Eles não cumpriram o compromisso, na essência da palavra, de um parlamentar. Agora, usufruem do poder e trabalham muito em cima de vídeo. Muito vídeo, mas na prática, nada — argumentou.
Embates, opiniões controversas e convidado com microfone desligado
O estilo que leva na campanha, de confrontar adversários e, por vezes, praguejar em debates, não nasceu com a candidatura. Colegas que trabalharam com ele lembram de um profissional que fazia perguntas incômodas e sustentava posições diante de entrevistados.
— Ele não tinha papas na língua. Ele não tinha medo de ninguém — disse um ex-colega.
Com essa postura, colecionou discussões acaloradas ao vivo, chegando a desligar o microfone de um convidado porque discordava dele. O participante deixou o programa e alegou censura.
Em outra ocasião, interrompeu uma promotora de Justiça que falava sobre adoção para afirmar que o acolhimento de crianças e adolescentes por casais homoafetivos não configurava família. O episódio redundou em uma representação ao Ministério Público por parlamentares de esquerda, que alegaram LGBTfobia.
Paguei um preço caro por isso, mas eu não abro mão. Continuo com a mesma posição. Mas não sou homofóbico. Tenho um filho homossexual.
MILTON CARDOSO
Candidato ao Senado pelo PSDB.
Na pandemia, fez um comentário na TV defendendo o então presidente da República, Jair Bolsonaro, e o fim do distanciamento social. O vídeo foi publicado pelo ex-presidente nas redes sociais e viralizou.
— Eu não sou bolsonarista, mas eu defendi e defendo o governo do Bolsonaro — afirma.
Para o presidente do PSDB no Estado, Moisés Barboza, o estilo posicionado de Cardoso será um dos pilares da campanha.
— O PSDB sempre defendeu a liberdade de suas lideranças expressarem suas convicções livremente, dentro dos limites legais e éticos. Ele tem discurso forte contra privilégios e contra os abusos do STF. Serão a tônica de toda campanha — avalia.

"Fora do ar, é uma pessoa normal"
Se o personagem público é de confronto, amigos e colegas descrevem um homem afetuoso longe dos microfones.
— No ar ele se transforma, vira um leão. Mas fora do ar, é uma pessoa normal. Cansou de ajudar colegas, emprestar dinheiro — disse um ex-colega.
João Francisco Sattamini, amigo de Cardoso há mais de 30 anos, relata que ele realiza anualmente ações sociais em comunidades carentes da Capital, doando cestas básicas, roupas e brinquedos.
Na vida pessoal, tem dois filhos, dois enteados e é avô. Mora na Vila Assunção, na zona sul de Porto Alegre, e divide a casa com a esposa, Patrícia de Conto, e com dois cachorros, Chiquita e Beckham.




