
A distância patrimonial entre homens e mulheres que disputam as eleições diminuiu no Rio Grande do Sul em relação a 2022, mas elas ainda enfrentam uma desvantagem significativa. Considerando apenas os candidatos que declararam algum bem, os homens têm patrimônio mediano de R$ 377,5 mil, contra R$ 265 mil entre as mulheres — uma diferença de 42,5%.
A desigualdade patrimonial é um dos fatores que podem afetar as condições de competição eleitoral. Para a cientista política Teresa Sacchet, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Observatório Nacional da Mulher na Política, candidatas com menor patrimônio podem ter mais dificuldade para financiar as primeiras etapas da campanha enquanto aguardam os recursos distribuídos pelos partidos.
— É importante candidatar mais mulheres, mais pessoas negras, ter cotas para isso, mas só isso não é suficiente. É necessário que os partidos deem condições de competição para esses candidatos. Então, por isso que essa questão do patrimônio deve ser compensada com políticas de ações afirmativas — explica.
Entre os 1.051 candidatos registrados no Rio Grande do Sul, 266 (25,3%) não declararam bens à Justiça Eleitoral. Os cálculos desta reportagem consideram os 785 candidatos que declararam patrimônio acima de zero.
A mediana é utilizada como referência por ser menos afetada pelos patrimônios muito altos, que podem distorcer a média. Assim, o indicador se aproxima mais da realidade da maioria dos candidatos.
Nas disputas para deputado federal e deputado estadual, os bens declarados pelas candidatas cresceram mais do que os dos homens, reduzindo a diferença registrada no último pleito. Entre as candidatas à Câmara, a mediana aumentou 89,7%, passando de R$ 130 mil, em 2022, para R$ 246,6 mil neste ano. Entre os homens, caiu 17,4%, de R$ 353 mil para R$ 291,6 mil.
Na disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa, a mediana das mulheres mais do que dobrou, com alta de 101,6%, de R$ 150 mil para R$ 302,4 mil. Entre os homens, o crescimento foi de aproximadamente 28%, de cerca de R$ 300 mil para R$ 383,6 mil.
Com esses movimentos, a diferença entre homens e mulheres caiu de R$ 223 mil para R$ 45 mil entre os candidatos a deputado federal. Entre os candidatos a deputado estadual, passou de aproximadamente R$ 150 mil para R$ 81,2 mil.
Patrimônios mais altos se concentram em partidos de direita
Em 2026, as candidaturas femininas estão mais concentradas em partidos de direita e centro-direita. Das 361 mulheres que disputam as eleições no Rio Grande do Sul, 243 (67,3%) estão nessas legendas, enquanto 118 (32,7%) concorrem por partidos de esquerda e centro-esquerda.
Esse perfil ajuda a explicar o aumento do patrimônio mediano das mulheres. Entre as 35 candidatas que declararam pelo menos R$ 1 milhão, 29 estão em partidos de direita ou centro-direita, como PL, PSD, Republicanos, MDB, União Brasil, PP, Novo, Podemos e PSDB. Juntas, elas concentram R$ 99,7 milhões, ou 75,9% do patrimônio declarado pelas candidatas milionárias.
Para Teresa Sacchet, uma possível explicação está no perfil socioeconômico das mulheres que vêm sendo atraídas por esses partidos. Segundo a pesquisadora, a direita tem ampliado o esforço para conquistar o eleitorado feminino e, nesse movimento, também são lançadas mulheres com maior poder aquisitivo, como empresárias, que já chegam à disputa com patrimônio e redes de contatos mais amplas.
O PL Mulher é o exemplo mais visível dessa estratégia, segundo Teresa. A estrutura partidária atua nacionalmente na atração e organização de candidatas.
"É um bom indicador de como o candidato vai se sair eleitoralmente"
Ainda conforme a pesquisadora, candidatos com patrimônio elevado podem usar recursos próprios desde o início da campanha, enquanto aqueles com menos recursos têm maior dependência dos repasses feitos pelos partidos. Pela regra eleitoral, o candidato pode destinar à própria campanha até 10% do limite de gastos estabelecido para o cargo em disputa.
O patrimônio também pode estar relacionado ao acesso a redes de doadores com maior poder aquisitivo. Segundo Sacchet, candidatos mais ricos tendem a ter uma rede maior de contatos com potenciais financiadores.
Normalmente pessoas que já têm o patrimônio alto têm uma rede maior com doadores privados. É por isso que o patrimônio é um bom indicador de como o candidato vai se sair eleitoralmente, porque não só potencializa e favorece essa largada na frente na corrida eleitoral, como também é um elemento que possibilita a criação de redes com doadores de campanhas mais abastados.
TERESA SACCHET
Cientista política, professora da UFRGS e integrante do Observatório Nacional da Mulher na Política.
Para reduzir essa diferença, a pesquisadora defende que os recursos públicos destinados às candidaturas cheguem no início da campanha e que as regras de distribuição proporcional sejam fiscalizadas. Ela também aponta a necessidade de ampliar o investimento em candidatos que não ocupam cargos eletivos, já que os partidos tendem a priorizar quem busca a reeleição.
Além de representar uma vantagem na disputa eleitoral, o patrimônio pode ajudar a explicar quem consegue chegar aos cargos públicos. Para o cientista político Augusto Neftali de Oliveira, professor da PUCRS, quando o perfil econômico dos candidatos se distancia do da população, há um descompasso entre a sociedade e seus representantes.
Nossa expectativa é de uma representação descritiva justa. A população tem determinadas características, entre elas determinado grau de patrimônio e riqueza. Se esperaria que isso se reproduzisse no Congresso. O Parlamento deve ser um espelho da sociedade.
AUGUSTO NEFTALI DE OLIVEIRA
Cientista político e professor da PUCRS.
Entre os 1.051 candidatos registrados no Rio Grande do Sul, 166 declararam patrimônio de pelo menos R$ 1 milhão. São 131 homens e 35 mulheres — ou seja, elas representam 21,1% dos candidatos milionários.
Em 2022, eram 143 candidatos milionários, dos quais 21 (14,7%) eram mulheres.



