
Cerca de metade de todo o patrimônio declarado pelos candidatos a deputado federal e estadual pelo Rio Grande do Sul está nas mãos de 5% deles. É o que mostra a análise das 998 fichas que os concorrentes às duas casas legislativas entregaram à Justiça Eleitoral no momento do registro.
Somados, os candidatos gaúchos aos dois cargos declararam R$ 638,6 milhões em bens. Porém, nas duas disputas, um grupo pequeno de nomes responde por uma parcela expressiva do total, enquanto a maior parte da lista se aproxima do zero.
Os dados são públicos e podem ser consultados por qualquer eleitor no DivulgaCandContas, sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que reúne as informações de todos os candidatos do país. Ali estão a lista de bens de cada um, o valor informado item a item e o total declarado.
Disputa pela Câmara

Somados, os 457 candidatos a deputado federal pelo Rio Grande do Sul declararam R$ 273,9 milhões. Os 10 maiores patrimônios, sozinhos, somam 35% desse valor. Ampliando o recorte para os 23 primeiros da fila, o equivalente a 5% dos concorrentes, chega-se a 52,2%.
Do outro lado da tabela, os 228 candidatos da metade com menor patrimônio ficam com 1,41% do total. Além disso, 138 candidatos, ou 30% dos concorrentes à Câmara, não declararam nenhum bem à Justiça Eleitoral.
O maior patrimônio da disputa é o de Afonso Motta (PDT), com R$ 23,27 milhões. Ele declara 4.023 hectares de terra em Alegrete, avaliados em R$ 10,02 milhões, e mais R$ 10,76 milhões em aplicações financeiras. Sozinho, o candidato responde por 8,5% de tudo o que os 457 concorrentes informaram possuir.
O segundo colocado, Lando (PDT), concentra o patrimônio em participações societárias, entre elas 65% de um posto de combustível em Getúlio Vargas, no Norte, e fatias de duas empresas do mesmo ramo.
Bibo Nunes (PL), terceiro da lista, declara quatro imóveis: um apartamento em Porto Alegre, avaliado em R$ 5,2 milhões, e três em Xangri-Lá, além de R$ 250 mil em criptomoedas.
Os 10 maiores patrimônios declarados entre os candidatos à Câmara
- Afonso Motta (PDT): R$ 23,27 milhões
- Lando (PDT): R$ 17,74 milhões
- Bibo Nunes (PL): R$ 12,52 milhões
- Dr Levi (Podemos): R$ 7,80 milhões
- Giovani Cherini (PL): R$ 7,22 milhões
- Luciano Azevedo (PSD): R$ 6,73 milhões
- Alceu Moreira (MDB): R$ 6,29 milhões
- Glenio Guimarães (Republicanos): R$ 4,89 milhões
- Beto Albuquerque (PSB): R$ 4,80 milhões
- Filipe Ilha (Novo): R$ 4,69 milhões
Disputa pela Assembleia

Entre os 541 candidatos a deputado estadual, o total declarado é de R$ 364,6 milhões. Os 10 primeiros da lista ficam com 31,2%. Os 27 maiores, novamente 5% do ranking, somam 45,5%.
A concentração é alta, mas menor do que a da Câmara. A metade com menor patrimônio entre os candidatos estaduais detém 3,04% dos valores, mais que o dobro da fatia equivalente entre os federais. Além disso, 121 candidatos, ou 22% dos concorrentes à Assembleia, não declararam nenhum bem à Justiça Eleitoral.
O topo é ocupado por Professor Bonatto (PSD), com R$ 31,03 milhões, o maior patrimônio individual declarado no Estado em qualquer dos dois cargos. Ele responde por 8,5% do total da disputa estadual, porcentual idêntico à do primeiro colocado da lista federal.
O PSD ocupa três das seis primeiras posições. O Republicanos aparece três vezes entre o sétimo e o décimo lugar.
Os 10 maiores patrimônios entre os candidatos à Assembleia
- Professor Bonatto (PSD): R$ 31,03 milhões
- Celito (Podemos): R$ 17,40 milhões
- Gaúcho da Neve (PL): R$ 16,47 milhões
- Elvis Feltrin (PL): R$ 10,37 milhões
- Classmann (PSD): R$ 9,53 milhões
- Lorena Pires (PSD): R$ 9,48 milhões
- Dr Chou Yi (Republicanos): R$ 6,08 milhões
- Moacir Ascari Fera (Republicanos): R$ 4,84 milhões
- Halley (PT): R$ 4,42 milhões
- Nivea Saraiva (Republicanos): R$ 4,30 milhões
Mediana por partido
A média não ajuda a entender essa disputa. Basta um nome muito rico para inflar o resultado de uma legenda inteira.
Por isso, o retrato mais fiel vem da mediana, que é o valor do candidato posicionado exatamente no meio do ranking quando todos são ordenados do menor para o maior patrimônio. A média, distorcida pelos maiores patrimônios, chega a ser seis vezes superior à mediana.
Entre os candidatos a deputado federal:
- Mediana: R$ 97,1 mil
- Média: R$ 600,7 mil
Na disputa federal, o PL tem a maior mediana, R$ 390,3 mil, seguido pelo PT, com R$ 335 mil, e pelo Republicanos, com R$ 258,5 mil.
O PP aparece com R$ 255,8 mil e o PDT, com R$ 248 mil, apesar de o partido concentrar a maior soma total, R$ 63,2 milhões, puxada por Motta e Lando.
Na parte de baixo estão o PSOL, com mediana de R$ 26,5 mil, e o Avante, com R$ 15 mil. Em três legendas, a mediana é zero: DC, Agir e Solidariedade. Nas três, mais da metade dos candidatos deixou a lista de bens em branco.
Entre os candidatos a deputado estadual, a mediana sobe para R$ 194 mil, exatamente o dobro da federal.
Maiores medianas na esfera estadual:
- PSD: R$ 477,1 mil
- PL: R$ 404,5 mil
- MDB: R$ 401,8 mil
- PP: R$ 349,4 mil
- Republicanos: R$ 252,5 mil
- PT: R$ 188,7 mil
- PSB: R$ 54,8 mil
Democrata e Missão têm mediana zero entre os candidatos à Assembleia.
O contraste entre as duas disputas dentro de um mesmo partido chama a atenção. O PSD é o primeiro colocado na corrida estadual, com mediana de R$ 477,1 mil, e cai para R$ 50 mil na federal. O PT faz o caminho inverso, com mediana de R$ 188,7 mil no estadual para R$ 335 mil na Câmara.
Um em cada quatro candidatos não declarou bens
Do total de 997 candidatos aos dois cargos, 259 não informaram nenhum bem à Justiça Eleitoral. A divisão é a seguinte:
- Deputado federal: 138 dos 456 candidatos, ou 30% da lista
- Deputado estadual: 121 dos 541 candidatos, ou 22%
O dado precisa ser lido com cuidado. O que o sistema do TSE registra é a ausência de declaração e não a comprovação de que a pessoa nada possui.
Um candidato pode morar em imóvel alugado e usar carro financiado ainda em nome do banco, situações que não entram na ficha. Pode também dividir bens que estão registrados apenas no nome do cônjuge ou ter deixado de informar itens que deveria.
A Justiça Eleitoral não audita previamente essas listas: o preenchimento é responsabilidade de quem se registra e a conferência, quando ocorre, é posterior.
Boa parte dos concorrentes nesse ranking vem de cinco legendas que montaram chapa apenas para a Câmara e não apresentaram lista para a Assembleia:
- DC: 16 dos 23 candidatos nada informaram
- Solidariedade: 9 de 12
- Agir: 9 de 16
- Avante: 10 de 23
- PRD: 4 de 5
Retirando essas cinco siglas da conta, o porcentual de candidatos federais sem bens declarados cai de 30% para 24%. É bom ressaltar que não há nada de irregular em registrar candidatura sem bens. A declaração de patrimônio é uma exigência legal de transparência e não um requisito de elegibilidade.
Como a reportagem chegou aos números
Os valores vêm das declarações que cada candidato entregou à Justiça Eleitoral e que estão disponíveis para consulta pública no site do TSE. O sistema pede o valor de aquisição, não o de mercado, e não desconta financiamentos ou dívidas. Um apartamento comprado há duas décadas entra na ficha pelo preço pago na época.
Bens em nome de cônjuge ou de empresas também podem não aparecer. Pela mesma razão, um total baixo ou zerado indica o que o candidato informou e não necessariamente o padrão de vida dele.
O menor patrimônio entre os que declararam bens é o de Gustavo Ramos (UP), candidato a deputado federal, que declarou R$ 103,04.

