
Renan Santos, de 42 anos, passou os últimos 10 anos na condição de organizador de campanhas eleitorais. Agora, pela primeira vez, pretende ele próprio entrar na disputa.
O paulistano da Mooca, cofundador do Movimento Brasil Livre (MBL) e presidente do recém-criado Partido Missão, anunciou em 2025 sua pré-candidatura à Presidência da República para o pleito de outubro de 2026. No dia 20 de julho, o Missão oficializou a candidatura, e anunciou o gaúcho Aroldo Medina, 62 anos, como candidato à vice.
A trajetória que o levou até esse ponto mistura política estudantil, recuperação de empresas em crise, mobilizações de rua e uma ruptura pública com o bolsonarismo, posicionamento que ele e seus aliados dizem sustentar desde antes do fim do governo Jair Bolsonaro (PL).
Da Mooca à USP, mas sem diploma
Nascido em 14 de fevereiro de 1984, Renan Antônio Ferreira dos Santos cresceu no bairro da Mooca, zona leste de São Paulo, filho de um advogado e de uma psicóloga. Ingressou no curso de Direito da Universidade de São Paulo (USP), mas abandonou a graduação antes de concluí-la.
Deixou a faculdade para trabalhar com o pai em um grupo voltado à reestruturação de empresas em situação de falência ou grave dificuldade financeira, experiência que descreve como uma escola para lidar com pressão de sindicatos, da imprensa e com a gestão de folha de pagamento.
Foi nesse período, segundo relato feito por ele em vídeo de apresentação pública, que viveu o episódio que define como divisor de águas: policiais teriam tentado plantar entorpecentes na empresa da família para extorqui-lo.
Renan afirma que colaborou com o Ministério Público (MP) e a Corregedoria da Polícia na apuração do caso, o que teria resultado na prisão dos envolvidos e em uma distinção do MP pelo apoio prestado.
Não há registros públicos independentes que detalhem o episódio.
O MBL e as ruas
Em 2014, após a reeleição de Dilma Rousseff (PT), Renan reuniu um grupo de amigos, entre eles Kim Kataguiri (Missão-SP) e Rubinho Nunes (União Brasil-SP), para fundar o Movimento Brasil Livre (MBL).
O MBL estreou politicamente com uma manifestação em frente ao Masp, em São Paulo, que reuniu cerca de 2,5 mil pessoas, e cresceu rapidamente tendo as redes sociais como principal ferramenta de mobilização.
Em março de 2015, o movimento ajudou a organizar o que estimativas da época apontam como uma das maiores manifestações da história recente do Brasil, com milhões de pessoas nas ruas em defesa da Operação Lava-Jato e contra o governo Dilma. Renan liderou o ato na Avenida Paulista.
Em Brasília, o grupo montou acampamento em frente ao Palácio do Planalto e, após confrontos com opositores, ganhou visibilidade, o que contribuiu para a formação do chamado "Comitê do Impeachment".
Renan esteve entre os interlocutores que se reuniram com Eduardo Cunha (Republicanos-RJ), então presidente da Câmara, e com Aécio Neves (PSDB-MG), líder da oposição à época, no período que antecedeu a abertura do processo contra Dilma Rousseff, em dezembro de 2015.
Em 2016, durante os protestos de março pelo impeachment de Dilma Rousseff, que reuniram mais de 3,3 milhões de pessoas em 250 cidades, o MBL se declarava apartidário.
Renan, porém, admitiu em gravação do mesmo período que o movimento contava com apoio de PSDB, PMDB (agora MDB), Democratas e Solidariedade.
Um partido próprio
Por anos, o MBL apoiou candidaturas em diferentes partidos, sem possuir legenda própria. Em 2023, Renan liderou o projeto de criação de uma sigla independente.
O processo foi concluído em 4 de novembro de 2025, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou o Partido Missão, o 30º partido registrado no Brasil.
O nome foi escolhido para transmitir a ideia de propósito e distanciamento do que Renan chama de "vícios da velha política".
O partido lançou o "Livro Amarelo", material que sistematiza suas propostas programáticas, e declarou a intenção de disputar todos os cargos em 2026, incluindo a Presidência.
O que Renan Santos propõe
Renan Santos construiu sua trajetória pública em torno do liberalismo econômico, da redução da intervenção estatal e do incentivo ao empreendedorismo. Nos últimos anos, no entanto, passou a admitir abertura ao desenvolvimentismo e afirmou não ter "dogmatismo" ideológico.
Em entrevista à CNN Brasil, disse que adotaria modelo econômico semelhante ao do presidente argentino Javier Milei, caso eleito.
Na área de segurança pública, defende uma postura mais dura do Estado contra o crime organizado. Fala em aplicar o conceito de "direito penal do inimigo" a membros de facções criminosas e não descarta debater a prisão perpétua e a pena de morte para crimes não militares.
Também propõe a "transformação de favelas em bairros formais" em um prazo de até 30 anos e a fusão de municípios e Estados como medida de eficiência administrativa.
Sua pré-candidatura adota discurso de oposição tanto ao PT quanto ao bolsonarismo, posicionamento que define como uma direita "altamente pragmática".
Em pesquisas divulgadas no fim de 2025, Santos registrou índices mais expressivos entre jovens da Geração Z, público que declarou querer priorizar na campanha.
Fora da política, toca guitarra e canta na banda de rock Limão Rosa, formada com outros integrantes do MBL.
Também assina, junto com Kim Kataguiri, o livro Como um grupo de desajustados derrubou a presidente: MBL: a origem e foi um dos idealizadores do documentário Não Vai Ter Golpe!, lançado em 2019.


