
Em tempos de polarização e radicalismo, tudo parece se reduzir a direita ou esquerda. Um estudo realizado pelo cientista político Christian Edward Cyril Lynch, no entanto, mostra que a divisão ideológica do Brasil é muito mais rica e complexa.
A pesquisa mapeou 10 ideologias presentes no pensamento político brasileiro, do fascismo ao comunismo nacionalista, passando por vertentes expressivas no atual contexto, como o reacionarismo religioso, o libertarianismo econômico e o socialismo cosmopolita, e outras que vêm perdendo voz e espaço, como o liberalismo democrático.
Segundo Lynch, que é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj), questões relacionadas a costumes e identidades religiosas e regionais têm peso determinante no resultado das urnas hoje, colocando em xeque a máxima segundo a qual o que decide voto é a economia. Ele observa, no entanto, que as pessoas, em sua maioria, não se enxergam ideológicas e a própria palavra ideologia adquiriu uma conotação negativa.
Na entrevista a seguir, o pesquisador também comenta o cenário da eleição presidencial de outubro.
O seu estudo mapeou 10 ideologias políticas no cenário brasileiro, mas é comum se enxergar apenas esquerda e direita. Por que isso não dá conta da realidade?
Não é errado falar de esquerda e direita, mas isso pressupõe uma unidade e homogeneidade que a política está longe de ter. O espectro ideológico é muito mais complexo. Não é só sobre autoridade ou liberdade, mas também sobre particularismo ou universalismo, central ou periférico, decadente ou ascensional, e também sobre o grau de radicalidade.
O quanto as pessoas são conscientemente ideológicas e o quanto a ideologia orienta as suas opiniões?
Ideologia é uma forma de enxergar o mundo a partir da preferência que você dá a determinados valores políticos. Mas na luta política, a palavra ideologia é empregada como sinônimo de pensamento errado, mau, falsificado. Para o militante, ideológica é sempre a visão do outro.
Toda ideologia se enxerga como a única visão que exprime a realidade tal qual ela é, e as pessoas, em sua maioria, não percebem que são orientadas ideologicamente.
A palavra ideologia, então, ganhou uma conotação negativa.
Exato. A palavra ideologia foi ela própria ideologizada desde muito tempo. Ela não designa, como eu procuro empregar, visões de mundo. Usa-se a palavra ideologia como sinônimo de pensamento deformado e idealista no sentido negativo, como algo que polui a forma de ver as coisas. A direita e a esquerda fazem isso.
O resultado eleitoral reflete a divisão ideológica da sociedade? Pesquisas apontam que há mais pessoas de direita no país, mas nas últimas décadas a esquerda colheu mais vitórias.
Embora existam pessoas que são cronicamente de esquerda e cronicamente de direita, temos uma banda intermediária mais moderada que oscila de um lado para o outro. E é um grupo menos politizado, no sentido de que a política é menos relevante para a vida cotidiana. Além disso, a quantidade de gente de esquerda e de direita varia conforme o tempo histórico.
Após a redemocratização, havia uma hegemonia mais progressista. Na verdade, épocas de começo de ciclos de globalização costumam ser tempos de discursos cosmopolitas, liberais democratas, individualistas, que creem na autorregulação do mercado e da sociedade e no progresso. E todas essas épocas são sucedidas por crises e reações autoritárias. As mudanças provocadas por esses ciclos geram uma sensação de desordem, de perda de controle, e aí quem se considera perdedor puxa o freio de mão, querendo paralisar o movimento histórico e voltar para trás. É o que acontece de 10 anos para cá. E nesses momentos, sempre há uma polarização maior e uma maioria de direita, ou o miolo fica mais propenso a votar na direita, porque há uma sensação de insegurança.
Partindo do mapa que o senhor traçou, quais são as ideologias de maior expressão no atual contexto?
As ideologias estão sempre em movimento, às vezes estão mais em evidência, outras vezes parece que desapareceram. Há, por exemplo, um momento de crise do centro liberal, que era representado pelo PSDB. Tanto que essa eleição presidencial será a primeira que não terá nenhum candidato liberal. Hoje, temos o libertarianismo econômico, que sempre foi uma ideologia de um punhado de empresários radicais e de repente se popularizou em uma certa classe média, com o MBL (Movimento Brasil Livre) e outros.
Temos também o reacionarismo, que jamais imaginei que fosse adquirir no Brasil uma dimensão populista, porque não tinha praticamente expressão nenhuma, e de 10 anos para cá passou até a ter uma centralidade. E você tem um conservadorismo societário, que sempre esteve por aí mas andava envergonhado. É o conservadorismo tipo (Ronaldo) Caiado, que defende as tradições locais, o peso do interior. No outro lado, tem o socialismo cosmopolita, que foca nas novas identidades e nas desigualdades de gênero e de raça.
Por muito tempo se disse que a economia decidia eleição. Hoje, questões de comportamento têm mais peso?
A economia é sempre uma variável importante, mas hoje menos do que foi. Mas veja, quem disse o célebre "é a economia, estúpido" foi um assessor do Bill Clinton, que é o cara que abriu a globalização, um oposto do Trump. Por outro lado, a identidade é dada pela classe, então se você é pobre, você vota no candidato X, se você é liberal, vota no Y. Tudo gira em torno da economia quando há um contexto, em geral, progressista.
Já quando começa a reação, isso muda. A identidade de classe passa a ser uma entre outras, você também tem identidades religiosas, regionais, étnicas, e essas questões passam a ser muito importantes.
Fala-se em cansaço da polarização, mas nenhum grupo demonstra fôlego para furá-la. Por quê?
Existe uma dimensão da política que é naturalmente polarizada. E com a introdução do segundo turno, na Constituição de 1988, você necessariamente organiza a luta política de forma polarizada. Isso é normal. O que tem de anormal é o grau de radicalidade, que não existia antes da eleição de 2014. Desde 2002, toda a política brasileira gira em torno de Lula — ele pessoalmente ou a sombra dele. A oposição é organizada menos pelo que ela é e mais para fazer contraposição à figura do Lula. E isso explica por que agora qualquer candidato de oposição no segundo turno tem 45% dos votos.
Em um tempo em que não há consenso, por que você vai ter um candidato de centro? O candidato de centro vai ser visto como de esquerda pela direita e de direita pela esquerda.
O que mudou no cenário eleitoral após a revelação da relação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro?
Muita coisa mudou. Flávio tentava se apresentar como um Bolsonaro vacinado: um Bolsonaro moderado, uma espécie de Bolsonaro-Tarcísio, capaz de atrair o centro, seduzir o eleitor independente e convencer um centrão que já vê a família com desconfiança. A queda de cerca de cinco pontos na primeira apuração está longe de ser irrelevante. Trata-se de uma eleição que provavelmente será decidida por uma margem entre cinco e 10 pontos. Em uma disputa assim, a marca de corrupto, radical ou violento pesa muito. Afasta jovens, independentes e uma parcela expressiva do eleitorado feminino. E o mais importante: o rosário de escândalos não terminou.
Como as recentes interferências dos EUA, com o possível novo tarifaço e a designação do PCC e do CV como organizações terroristas, afetam esse cenário?
Flávio foi aos EUA para se mostrar como um estadista com acesso ao principal centro de poder do mundo. A tentativa foi apresentar a classificação das facções como fruto de sua própria capacidade de articulação internacional e compromisso com o combate ao crime. Embora essa pauta encontre receptividade em parte do eleitorado, ela produz o efeito oposto sobre outra parcela importante, historicamente desconfiada do intervencionismo norte-americano. Isso num momento em que a imagem internacional dos EUA atravessa desgaste acelerado.
O tarifaço acabou por associá-lo diretamente a essa agenda. Os eventuais dividendos políticos da viagem foram neutralizados pela percepção de alinhamento automático aos interesses de Washington. Em vez de compensar os escândalos domésticos, a operação agregou um novo passivo: a identificação com o entreguismo.
Por que os demais candidatos de direita, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema, não cresceram na esteira dessa queda do Flávio?
Embora tenha um teto baixo devido à alta rejeição, Flávio tem um piso mais alto do que o de Caiado e Zema. É uma situação que só favorece uma candidatura alternativa clara, como a do Renan Santos ou eventualmente do Joaquim Barbosa.
Lula tem vantagem nas pesquisas, mas a aprovação do governo não é alta e derrotas recentes no Congresso, como na indicação de Jorge Messias, mostram uma base fragilizada. Quais os principais desafios dele?
Lula vai fazer uma campanha anti-imperialismo e apontando o centrão como inimigo do povo, e ao mesmo tempo terá que buscar os liberais e o centro. E esse centro que apoiou ele contra o Bolsonaro está aborrecido. Também existe uma certa fadiga de material. Eu vi o Lula na televisão pela primeira vez quando tinha uns seis anos, e estou com 52. Tem também a questão da idade dele.
Ocorre que a eleição é um concurso sobre quem tende a ser menos rejeitado. A rejeição a Lula tende a diminuir com o uso da máquina para aumentar a sensação de bem estar. A de Flávio tende a aumentar.



