Com mais de 1 milhão de votos no maior colégio eleitoral do país, o deputado federal mais votado de São Paulo, Guilherme Boulos (PSOL), falou na manhã desta terça-feira (11) ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha. Ele comentou os acontecimentos das eleições até agora e projetou os resultados do segundo turno.
Questionado sobre uma pesquisa do Datafolha, que perguntou aos eleitores quais temas eles consideram mais importantes para a decisão de voto a presidente no segundo turno, Boulos analisou que, apesar de serem preocupações do brasileiro, o resultado pode ser enviesado. Levantamento apontou corrupção (85%), crime (85%), direitos trabalhistas (83%), democracia (82%) e emprego (82%) como os mais citados.
— Acredito que essa é a prioridade de uma parte da população, mas têm coisas que são viés de pesquisa. Se você perguntar para uma pessoa: "Você é a favor do combate à corrupção?", é quase que perguntar se é a favor da luz elétrica, mas não necessariamente é a questão que mais afeta no dia a dia. Acredito que o maior drama no Brasil é o do flagelo social, é preciso dar soluções a esses problemas. Se você perguntar para os 33 milhões de brasileiros que passam fome, a maior preocupação será o que eles vão comer no jantar — comentou.
A respeito da eleição de apoiadores de Jair Bolsonaro (PL), que conquistaram vagas no primeiro turno, o deputado afirma que a maioria dos brasileiros é contrário à ideologia propagada por eles. No entanto, ele admite que a "onda bolsonarista" não foi "varrida" pelas urnas.
— Bolsonaro não foi varrido pelas urnas. Porém, eu fui daqueles que nunca o subestimou. Quando a esquerda optou por subestimar Bolsonaro, ele foi eleito presidente da República. Mas ele também é o primeiro presidente, desde que foi implementada a reeleição, a ficar em segundo lugar no primeiro turno. Lula ganhará as eleições no segundo turno porque Bolsonaro fez o pior mandato da história do país. Vai ser na emoção? vai. Mas ganharemos essa eleição no dia 30 de outubro — ressaltou.
O deputado federal afirma que existe um "conjunto de aflições e sentimentos da população brasileira" que precisa ser compreendido e traduzido em resposta política. Boulos também afirmou que o presidente da República quer transformar as eleições em um "plebiscito sobre pautas religiosas". O deputado defende que, antes de tudo, é necessário desmentir as fake news.
— Temos de trazer a agenda eleitoral para os temas de maior interesse. Antes de tudo, temos que desmentir fake news. É uma espécie de replay das eleições de 2018 para tentar ludibriar os eleitores brasileiros. Dizem que Lula vai fechar igrejas (...) é mentira. Lula ficou oito anos no poder e nunca fechou uma igreja sequer. O presidente (Lula) nunca defendeu o aborto como pauta dele, o encarregado de discutir isso é o Congresso Nacional, nem se ele quisesse poderia fazê-lo — pontuou Boulos, se referindo ao ex-presidente e candidato à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que venceu o primeiro turno.
O deputado também criticou declarações de Damares Alves (Republicanos) — eleita senadora pelo Distrito Federal — que alegou que crianças da Ilha de Marajó, no Pará, são traficadas para o Exterior e são submetidas a mutilações corporais e a regimes alimentares que facilitam abusos sexuais.
Advogados pedem ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Ministério Público Federal (MPF) que, caso as declarações da ex-ministra sejam verdadeiras, Damares e Bolsonaro tenham de explicar quais medidas tomaram para a "apuração de tamanhas atrocidades". É requisitado também que eles sejam investigados por prevaricação, uma vez que não teriam tomado qualquer providência. O MPF cobrou explicações da senadora a respeito das alegações.
— É um absurdo o que a Damares disse, é uma prática criminosa. Eles (a direita) fazem uma associação criminosa da esquerda com a pedofilia, mas o único acusado de pedofilia foi um político de direita: Gabriel Monteiro, que foi cassado. Existe um esgoto de redes de WhatsApp bolsonaristas que chega em setores onde não conseguimos chegar. É por isso que já deveria ter sido aprovada a lei de combate às fake news, mas o presidente Bolsonaro fez de tudo para impedir a aplicação antes das eleições vigentes — relatou.
Perguntado a respeito das pesquisas eleitorais, que foram alvos de críticas, Boulos disse acreditar nelas, mas atribui a alguns fatores o resultado equivocado.
— Acredito na curvatura da terra, na eficácia das vacinas e em pesquisas. Porém, houve erros, eu atribuo a alguns fatores. Primeiro, aos bolsonaristas que, por conta dos ataques do presidente, se recusavam a responder pesquisas. Isso gerou um viés estatístico de um público que se recusou a responder. Outro fator foi o nível de abstenção. Existem eleitores que votariam no Lula, mas que não foram votar. Isso pode ter acontecido, me perdoe o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), pelas filas na hora da votação — contou.

