
A nova sede da Câmara de Vereadores de Bento Gonçalves terá o nome de "Palácio Ernesto Geisel", em referência ao ex-presidente da República que é natural do município e ocupou o cargo entre 1974-1979, durante a ditadura militar. A denominação foi proposta pela Mesa Diretora e aprovada com um voto contrário, do vereador Alcindo Gabrielli (MDB), na sessão desta segunda-feira (27). A construção da Casa Legislativa já chega a R$ 26 milhões e deve ser inaugurada em maio deste ano.
Na justificativa do projeto, a Mesa Diretora afirma que a homenagem se deve ao fato de Ernesto Geisel ser o único presidente nascido em Bento Gonçalves. Ainda conforme o texto, o período em que Geisel esteve à frente do governo federal foi marcado pelo processo de “distensão lenta, gradual e segura”, com medidas que deram início à abertura política e culminaram na revogação do Ato Institucional nº 5, em 1978.
No entanto, a justitificativa da mesa diretora não menciona a citação do nome de Geisel no relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), de 2014. Segundo o documento, o aparelho repressivo estatal continuou a perseguir e matar remanescentes da oposição ao regime militar durante o mandato do bento-gonçalvense. Em 1974 foram 54 desaparecimentos políticos, o maior número de todo o período da ditadura.
Um voto contrário
O vereador e ex-prefeito de Bento Gonçalves Alcindo Gabrielli (MDB) foi o único que votou contra ao projeto por entender que outras figuras políticas da cidade poderiam ganhar a homenagem. Ele também colocou que, em sua opinião, o ex-presidente já recebeu os reconhecimentos necessários na cidade como a Casa Geisel e o Batalhão Presidente Geisel (conhecido como 6º Batalhão de Comunicações).
— Eu não vou entrar aqui no mérito da questão do regime militar e seus opositores, só que eu entendo que as homenagens que foram merecidas, elas já foram prestadas. Entretanto, eu entendo que um ambiente da Casa Legislativa, onde todos nós que estamos aqui, aqueles que passaram também, foram eleitos pelo voto direto e no caso do ex-presidente, não retirando as questões meritórias, veio de uma eleição indireta. Então, eu acho que seria menos talvez polêmico que a gente tivesse mantido o 11 de outubro ou mesmo algum nome que já foi um ex-presidente, um ex-prefeito. Nós temos três ex-prefeitos depois da década de 60 que não têm sequer o nome de rua — pontuou.
Durante a votação, o presidente da Casa, Anderson Zanella (sem partido), destacou feitos para Bento Gonçalves como a construção da Fundação Educacional da Região dos Vinhedos (Fervi), em 1972, que oportunizou a difusão do Ensino Superior na cidade e, posteriormente, a implantação do campus universitário da UCS no município. Junto disso, frisou o início da Embrapa Uva e Vinho no município, em 1976.
— O que a Mesa propõe não é quanto a regime, até porque ele abre o processo democrático. É um filho da terra, talvez seja o único bento-gonçalvense que tenha sido presidente da República, talvez não tenhamos outro. Nós temos pontos relevantes dos feitos (de Geisel) com Bento Gonçalves, como a Embrapa e a Fervi, e é importante que a gente reconheça. Eu concordo com as manifestações que não forem favoráveis, e essa é a democracia, mas a Mesa entendeu que é o momento oportuno de reconhecer a sua maior liderança política e os feitos que fez com que Bento se tornasse a capital brasileira do vinho — defendeu Zanella.
MPF recomendou retirada de memorial em 2025
Em dezembro de 2025, o Ministério Público Federal (MPF) ingressou com uma ação civil pública, com pedido de medida liminar, contra a Universidade de Caxias do Sul (UCS) no Campus Universitário da Região dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. A ação visava a desativação do memorial em homenagem ao general Ernesto Geisel, instalado na biblioteca da instituição de educação.
Dois dias após a divulgação da ação, a UCS optou por devolver o memorial à prefeitura. A instituição afirmou que "a temática do acervo não possui elogios, discursos celebrativos ou elementos de promoção ou culto à personalidade do ex-presidente".
Nova sede vai custar R$ 26 milhões
A construção da nova sede da Câmara de Bento já chega a R$ 26 milhões. Em entrevista ao Pioneiro em fevereiro, o presidente Zanella defendeu o valor por precisar entregar a obra e não se tornar "um elefante branco na cidade".
Além disso, argumentou que precisou autorizar aditivos na obra por ter recebido da antiga gestão, do ex-vereador Rafael Pasqualotto, apenas 60% da construção concluída, precisando "dos acabamentos".
No dia 14 de abril, a prefeitura autorizou um repasse de R$ 2 milhões para a Casa. Porém, o montante foi retirado de outras pastas do Executivo, como investimentos em saneamento básico no interior, pavimentação de vias e na cultura, além de pagamento de processos judiciais.
A administração usou com a justificativa que o Poder Legislativo não tinha solicitado anteriormente todo o valor que lhe era de direito pela Lei Orçamentária Anual (recebendo no início do ano R$ 25 milhões, sendo que poderiam solicitar cerca de R$ 33 milhões). E que os valores retirados das áreas eram "saldos", sem impacto no orçamento final. O presidente defendeu que precisava do valor para ter um tipo de "caixa" para suprir os possíveis novos gastos com a nova sede.
A atual sede da Câmara está localizada no centro da cidade e será transferida para a Rua Presidente Costa e Silva, bairro Planalto, na área nobre da cidade. A necessidade de uma nova estrutura da Casa Legislativa foi justificada por uma determinação legal do Ministério Público do Trabalho (MPT), que indicou condições insalubres de trabalho na sede atual após fiscalização em 2017.
Outras deliberações
Na sessão, também foi definido o nome do novo Plenário para "Jauri da Silveira Peixoto", em homenagem e reconhecimento pelo seu trabalho como vice-prefeito da cidade entre os anos de 2005 a 2008, e vereador por cinco vezes no legislativo de Bento. Ele faleceu em 2020.
Já o Plenarinho, ambiente que deve ser um espaço para eventos e honrarias da nova sede, terá a denominação de "José Élvio Atzler de Lima", em honra a sua dedicação como vereador entre 2006 a 2020 e por ter sido presidente do Sindicato Metalúrgico da cidade em 1997. Ele também faleceu em 2020.


