
Para tratar do debate eleitoral de 2026, o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul (Simecs) realiza nesta quarta-feira, às 8h, o evento Simecs Conecta 2026 – Economia e Política em Foco. O encontro, que ocorre no auditório da CIC Caxias, propõe uma leitura analítica do momento atual, reunindo dois temas centrais para decisões estratégicas da indústria.
Professor do Insper e criador do Projeto Fronteiras do Pensamento, o doutor em Filosofia e mestre em Ciências Políticas Fernando Schüler abordará o tema Eleições 2026: o que está em jogo?. Também participa o economista do Simecs Igor Morais, com análise sobre o desempenho da economia brasileira e os desafios fiscais e produtivos do país.
Antes do evento, Schüler concedeu entrevista ao Gaúcha Hoje, da rádio Gaúcha Serra, e avaliou o ambiente institucional, o cenário eleitoral e as perspectivas econômicas para os próximos anos.
O que está em jogo nas eleições de 2026?
Muita coisa. Nossa décima eleição presidencial é um momento difícil para o Brasil. Do ponto de vista institucional, temos muita instabilidade, uma discussão sobre a autonomia dos poderes, com interferência do Poder Judiciário, basicamente, Supremo Tribunal Federal, em decisões do Congresso. O Brasil tem um problema na economia. Nós temos sinais bons de curto prazo, desemprego relativamente baixo, inflação relativamente sob controle, crescimento mediano, perto de 2% projetado para este ano, mas quando você vai para médio e longo prazo, você vê o quê? Dívida pública crescendo, 10 pontos do PIB ao longo do governo, juros estabilizados praticamente na faixa de 15% e um problema fiscal que não se resolve. Então é um país com um problema estrutural de produtividade que não é enfrentado, seja pelo Congresso, seja pelo Executivo.
Na sua opinião, essas pautas estruturais vão conseguir encontrar espaço no debate das eleições ou vai ficar naquele radicalismo ideológico pelo que se desenha até agora?
Gostaria de ser mais otimista do que sou neste momento. Eu acho que a internet puxa o debate exatamente para esse radicalismo difuso, que muitas vezes não leva a lugar nenhum. Isso é uma realidade em qualquer democracia, não é uma exclusividade brasileira. Nós vamos ter muita acusação de natureza pessoal, ética para os dois lados. A questão ética é importante, mas quando é instrumentalizada por uma retórica política, muitas vezes sem muito fundamento, acaba prejudicando o debate do país. Agora, se você minerar o debate para o setor empresarial, que é exatamente o foco hoje do nosso debate em Caxias, acho há uma discussão relevante: modelo de desenvolvimento, modelo de Estado. Vamos pegar alguns exemplos. O país vai retomar o programa de desestatização ou não? O Brasil terá uma regra fiscal dura, como teve em certo momento com o Henrique Meirelles, alguns anos atrás, ou prosseguirá com uma regra que, no fundo, estimula o gasto público, o crescimento do gasto público? O Brasil vai reduzir carga tributária, hoje a maior da América do Sul, ou vai continuar expandindo carga tributária? O Brasil vai focar em reformas que melhorem a produtividade, como a gente fez o marco do saneamento básico, ou o Brasil vai desconsiderar essa questão e focar em políticas mais distributivistas, que têm um efeito até de curto prazo, mas que no longo prazo geram dependência, mais gasto público e não afetam positivamente a produtividade. Esse é um debate mais complicado, mas mais necessário para o país.
O contexto pós-8 de janeiro e as investigações relacionadas à tentativa de golpe devem fazer parte do debate, no seu entender, e que peso isso pode ter?
A gente tem artilharia para todos os lados nesse tema. Se o debate for elevado no sentido de o país precisar de uma nova configuração institucional, respeito pleno ao Estado de Direito de todos os lados, é positivo para o país. Se ficar no Fla-Flu, o que a gente viu um pouco em 2022, eu acho negativo. Não sei se dá para ter grande otimismo com o Brasil, mas é a minha expectativa.
Quais são as chances reais de uma candidatura de terceira via hoje no Brasil, se é que elas existem?
O problema é que as mesmas pessoas que estão dispostas a uma alternativa, diante do Lula, quem é mais à direita, tende a votar no Flávio Bolsonaro. Quem é mais à esquerda, diante do Flávio, tende a votar no Lula. Então a polarização se retroalimenta. E é muito difícil você furar esse bloqueio. Se você tiver um candidato de terceira via que vá acima de dois dígitos e se mostre competitivo no segundo turno, e aí, obviamente, a alternativa seria pelo campo da direita, à medida que o Lula está consolidado, teria uma janela. Mas é muito estreita essa janela. Entre outras razões, porque o Flávio Bolsonaro entrou na campanha sabendo disso, e os seus marqueteiros, a sua equipe, o aconselharam a assumir esse prisma mais moderado. E acabou ocupando muito o espaço da centro-direita, então encolheu o espaço de uma eventual terceira via.
A economia vai continuar sendo decisiva nesta eleição ou outras questões como a entrada das redes sociais, debates ideológicos, morais, têm pesado mais ou tanto quanto a economia nestes últimos tempos?
O que pesa muito na economia é o supermercado, o tamanho do salário no fim do mês. Esse aspecto do clima econômico tem um impacto político forte. O debate mais teórico sobre produtividade, dívida, juros, bom, aí eu acho que é um debate que atinge uma minoria da sociedade, que entende essa terminologia, regra fiscal, reformas econômicas do Congresso, se vai ter um teto fiscal ou não, se nós vamos retomar o programa de privatizações ou não. Eu acho que é um debate mais elitizado. Agora, o clima econômico, sem dúvida, afeta, e aí eu diria que é um certo empate técnico. Por um lado, você tem um clima positivo de curto prazo, mas você tem um endividamento de famílias muito forte, você tem um juro muito alto, especialmente para pequena e média empresa, você tem um crescimento baixo da economia, que não deve chegar a 2% este ano. Então, os sinais são contraditórios, não necessariamente vão definir para um lado ou para o outro a eleição.



