
A nova sede da Câmara de Vereadores de Bento Gonçalves deve ser inaugurada em junho de 2026 após quatro anos de construção e um aumento de 65% no valor final, saindo de R$ 15,2 milhões para R$ 25,1 milhões. Segundo o atual presidente da Casa, Anderson Zanella (PP), o orçamento aumentou devido ao projeto original não prever questões técnicas estruturais e que precisaram ser inseridas para entrega do prédio.
A atual sede da Câmara está localizada no centro da cidade e será transferida para a Rua Presidente Costa e Silva, bairro Planalto, na área nobre da cidade. A necessidade de uma nova estrutura da Casa Legislativa foi justificada por uma determinação legal do Ministério Público do Trabalho (MPT), que indicou condições insalubres de trabalho na sede atual após fiscalização em 2017.
A obra começou na presidência do ex-vereador Rafael Pasqualotto (ex-PP, atualmente no PL) em 2022, com a empresa Cidade Projetos e Construções e um orçamento de R$ 15,2 milhões. Durante a gestão do parlamentar, houve dois aditivos que elevaram os custos para R$ 16,7 milhões. Em 2024, as atividades ficaram paradas por falta de recursos. No fim do mandato, o prédio foi entregue com um pouco mais de 60% da estrutura completa, mas sem os acabamentos.
Com isso, de acordo com Zanella, foi necessário mais um aditivo de R$ 2,1 milhões em junho de 2025, quando retomaram as obras, para questões mais técnicas e necessárias, como:
- Instalação de andaimes: seguindo o regramento de segurança do trabalho;
- Subestação e redes de alimentação elétrica;
- Instalações hidrossanitárias;
- Sistema de tratamento de efluentes;
- Muros e cercamento na área dos fundos;
- Revestimentos nas paredes internas e fachada;
- Instalação de abrigo de gás;
- Climatização e renovação do ar.
— Se não tivesse feito, se o projeto original contemplasse essas coisas, não precisaria ter sido feito o aditivo. Então, se herda em 2025 um projeto cheio de falhas — explicou Zanella.
Referente à estrutura interna, alguns dos móveis atuais serão transferidos para a nova sede, como os do plenário, que serão utilizados no chamado "plenarinho" para uso da sociedade civil. Contudo, os preços da nova mobília têm chamado a atenção, com R$ 410,7 mil em móveis planejados, R$ 860 mil somente em cadeiras e R$ 75 mil em persianas, dentre outras despesas. Unindo esses fatores e os reajustes anuais, a obra já chega em cerca de R$ 25,1 milhões.
Zanella esclareceu que o gasto com as cadeiras, por exemplo, além dos gabinetes, são para o plenário, na área do público, e sofás. Juntamente com isso, reforçou que o investimento é a "longo prazo", dado o registro de prejuízo em 2025 com os antigos móveis.
— Nesse ano foram 32 cadeiras quebradas aqui, sendo que cada uma custa em média entre R$ 2 mil e R$ 2,5 mil. Qual era a nossa grande preocupação? De continuar tendo essa manutenção anual. Agora, esse lote de produtos tem garantia de oito a 10 anos, o que, por si só, se paga. Além disso, nós estamos saindo de um prédio de 700 m² para um de 3,3 mil m², então esses R$ 860 mil não são somente para cadeiras, mas sofás e assentos do plenário para o público assistir de forma confortável as sessões — justificou.
Obra paga com recursos próprios
Zanella destacou que todo o valor usado para pagamento das obras é de recursos próprios, no caso, receita tributária do município, definida na Constituição Federal, transferida do Poder Executivo para o Legislativo.
Na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026 de Bento Gonçalves foram destinados R$ 25 milhões à Câmara. O presidente acredita que não será necessária uma suplementação, mas, se precisar, não vê problema em solicitar.
— O que a Câmara teria por direito seriam R$ 33 milhões. Se tiver que fazer algum tipo de suplementação, não tem por quê não ser feito, mas eu acredito que não será necessário. A Câmara trabalha com seus recursos próprios, não tira dinheiro da educação, da saúde e de nenhuma área de investimento prioritária da cidade. A retomada dessa obra vem depois de um grande estudo — destacou.
Junto disso, Zanella comentou como grande parte do valor da obra já foi pago e que tudo passa pela fiscalização da Casa, sendo todos os processos públicos.
— A grande maioria já tá paga. E detalhe: tudo passa por três fiscais, departamento financeiro, departamento jurídico, por todos os setores antes de qualquer coisa. Não sou eu que digo o que tem que pagar ou não, se o piso está bem feito ou mal feito. Tem uma cadeia de fiscalização de pessoas envolvidas e engajadas nesse processo — pontuou.
Sobre a atual estrutura da Câmara, o presidente esclareceu que o espaço é da prefeitura e será devolvido para o uso de algumas das secretarias municipais após junho de 2026, quando deve ocorrer a mudança para a nova sede.
"Seguindo a maioria"

Durante os anos iniciais da construção, Zanella foi um crítico assíduo ao projeto. Contudo, agora como presidente, defendeu que não poderia deixar "um elefante branco" na cidade.
— Nós teríamos dois caminhos, ou deixar um elefante branco lá e suspender o contrato, ou concluir a obra. Nós tentamos transformar em um outro equipamento público, só que a licitação foi feita para ser a nova sede da Câmara e custaria mais caro desmanchar e transformar em uma escola, por exemplo — disse.
Além disso, reforçou que sua opinião pessoal sobre a sede "não mudou" e que a retomada da obra foi votada pelos 17 vereadores da Casa.
— O que quero frisar é que eu nunca fui contra nós nos mudarmos daqui, tanto que na pesquisa da outra legislatura eu concordei (com a mudanças), mas nunca concordei com a forma como foi executada. Tudo que começa errado, não termina bem. Agora, quem está tocando a obra são técnicos, funcionários efetivos da Casa, eu saio "de cena" porque essa obra não é minha, ela é institucional, do município, da Câmara. Mas, minha opinião pessoal não mudou, do jeito que ela está, eu não teria feito. Sou muito transparente nisso, porém, sou presidente e preciso respeitar a maioria — ressaltou.
Espaço com praça pública

Um dos diferenciais que também foram incluídos no terceiro aditivo foi a criação de uma praça pública, que ficará na entrada da Câmara, ao lado da pista municipal de atletismo (que ainda está em reformas). Com isso, o espaço não terá cercamento, mas contará com uma guarita 24 horas.
— Ela seria uma obra fechada, mas nós adaptamos toda a parte frontal para ser uma praça pública, contemplada com iluminação e guarita 24 horas para que as famílias possam usar tanto a pista quanto a praça, para que um equipamento público converse com o outro, tanto de dia quanto de noite. Nós também precisávamos ter uma entrega à comunidade — salientou.
Pasqualotto rebate críticas

Sobre as declarações de Zanella, o ex-presidente da Câmara Rafael Pasqualotto esclareceu que o projeto do novo prédio foi feito pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (Ipurb), da prefeitura de Bento Gonçalves, o mesmo que segue fiscalizando a obra. E que os aumentos nos custos da obra são de responsabilidade da atual gestão da Câmara.
— Isso é coisa dele, acréscimos que ele colocou no contrato. Não precisava do mobiliário, nós iríamos utilizar os móveis já existentes na Câmara. Acústica é coisa dele, luminotécnica é dele, várias situações. Ele diz que quando chegou "o projeto estava todo errado", olha só, o projeto quem fez foi o Ipurb. São engenheiros públicos, nós não gastamos com escritório. Só olha a incoerência dele, hoje o fiscal da obra e quem refez o projeto, segundo ele, é o próprio Ipurb — retruca.
Pasqualotto diz que entregou a obra 60% concluída e que precisava somente "rebocar e entrar".
— Ele herdou uma obra 60% concluída em que era somente rebocar e entrar. Ninguém conhece mais aquela obra do que eu. Claro, iniciou em 2022, tem coisa que se perdeu. Em 2024 ela parou porque o prefeito não enviou o duodécimo, direito constitucional, senão, ele teria pego ela concluída — frisou.





