
A Câmara de Vereadores de Canela está discutindo a denúncia contra o vereador Alberi Dias (MDB) por quebra de decoro parlamentar. O pedido foi aceito ainda no final de outubro e agora está em análise pela Comissão Processante, presidida pelo vereador Lucas Dias (PSDB). O prazo para finalização do processo é de 90 dias.
A denúncia está relacionada à condenação pela 1ª Vara Judicial da Comarca de Canela do vereador Alberi e do empreiteiro Ademir Claudiomiro Colombo da Silva na Operação Caritas, de 2021. Os dois foram considerados culpados pela falsificação de documentos utilizados para fraudar licitações públicas em Canela (leia mais abaixo).
Na decisão, o juiz condenou Alberi a 1 ano e 9 meses de reclusão, em regime aberto e 32 dias-multa (1/30 do salário-mínimo por dia). Porém, como a pena não supera quatro anos e o crime não foi cometido mediante violência ou grave ameaça, foi convertida a prestação de serviços à comunidade (7h semanais) e pena restritiva de direitos de três salários mínimos. Ainda cabe recurso ao processo. Apesar disso, a moradora de Canela Ana Paula Beliski encaminhou à Câmara a denúncia contra o vereador e, na argumentação, afirma que:
"Ainda que a sentença não tenha transitado em julgado, os fatos reconhecidos judicialmente configuram ato grave de improbidade moral e política, passível de análise pela Câmara quanto à quebra de decoro parlamentar, visto que a conduta atinge diretamente a honra e a dignidade do Poder Legislativo Municipal. O decoro parlamentar não se restringe ao comportamento do vereador em plenário, mas abrange toda sua conduta pública e privada, conforme o entendimento consolidado em diversos precedentes e pareceres jurídicos no âmbito do controle ético-político."
Na sessão do dia 29 de outubro, onde foi discutida a denúncia, Alberi alegou estar passando por uma "perseguição política" e apresentou falhas na assinatura do documento, mas o pedido foi aprovado por cinco votos favoráveis e três contras.
Após a votação, foi realizada a formação da Comissão Processante para analisar a denúncia e verificar se o pedido de cassação é válido, sendo um dos nomes sorteados o do vereador Lucas Dias (PSDB) para presidente. Segundo ele, agora o grupo está aguardando a defesa escrita de Alberi.
Procurado pela reportagem, Alberi preferiu se manifestar através de uma nota enviada pelo seu advogado Ricardo Cantergi. No texto, alegou que a votação do aceite do pedido foi feita de forma irregular (confira abaixo).
Esse já é o segundo pedido de cassação do vereador. Em 2022, também foi protocolada uma denúncia sobre o mesmo crime devido o envolvimento de Alberi na Operação Caritas. Na época, o processo foi arquivado.
O que diz Alberi Dias:
Em respeito à imprensa e à população de Canela, a defesa do vereador Alberi Galvani Dias vem esclarecer que os fatos recentemente noticiados a respeito da abertura de nova Comissão Processante tratam-se de uma reiteração indevida de matéria já apreciada judicialmente e superada à época.
O caso que agora se tenta “requentar” já foi objeto de provocação do Poder Judiciário, ocasião em que ficou reconhecido que, por erro na condução do processo pela própria Câmara de Vereadores, Alberi Dias foi mantido legitimamente no exercício do mandato.
Lamentavelmente, o Legislativo municipal volta a incorrer em equívocos semelhantes, violando regras básicas do seu próprio Regimento Interno (Resolução nº 05/2014) e do Decreto-Lei nº 201/67, que regula os processos político-administrativos de vereadores.
Conforme dispõe o art. 5º, inciso II, do referido decreto, o recebimento de denúncia contra vereador exige maioria dos presentes, e não menos do que isso. No caso concreto, a denúncia foi considerada recebida com apenas cinco votos favoráveis dentre dez vereadores presentes, quando o quórum mínimo legal seria de seis votos.
Essa irregularidade – devidamente demonstrada no Mandado de Segurança já protocolado perante o Poder Judiciário – revela mais uma vez a fragilidade procedimental e o desconhecimento técnico do processo legislativo por parte da Mesa Diretora e de seus assessores jurídicos, comprometendo a lisura e a legalidade do ato.
A defesa reitera sua confiança nas instituições e no Poder Judiciário, que certamente restabelecerá a legalidade e o devido processo legislativo, assegurando que nenhum mandato seja cassado fora dos limites da lei e do regimento.
Por fim, o vereador Alberi Dias reafirma seu compromisso com a ética, a transparência e o trabalho em prol da comunidade canelense, lamentando que, mais uma vez, a Câmara se desvie de sua função pública para repetir um processo marcado por vícios já reconhecidos judicialmente.
Segundo caso no mesmo ano
Esse já é o segundo pedido de cassação registrado na Câmara de Vereadores de Canela em 2025. O primeiro foi registrado no início do ano, sendo o alvo o vereador João Alessandro Port Silveira, o Joãozinho Silveira, do MDB, por ter sido preso em flagrante por suspeita de desviar materiais de construção da prefeitura.
O caso chegou na Comissão Processante, mas o vereador renunciou antes da finalização do processo, então o pedido foi arquivado, conforme a assessoria da Câmara.
Operação Caritas
- A Operação Caritas começou em 9 de abril de 2021, quando foram apreendidos materiais de construção do Hospital de Caridade de Canela que haviam sido desviados para propriedade particular.
- Na segunda fase, em 30 de junho de 2021, policiais civis apreenderam uma lista com nomes de cargos de confiança que, segundo a apuração, pagavam valores em dinheiro para o partido político. Isso ocorreu após os policiais acompanharem, durante todo o dia, a atividade de recolhimento do dinheiro em diversos locais, inclusive prédios públicos.
- Já no dia 8 de novembro de 2021, 175 policiais civis cumpriram simultaneamente 176 medidas judiciais. As pessoas que ocupavam os cargos, à época, de presidente da Câmara de Vereadores de Canela (Alberi Gavani Dias, do MDB), de secretário municipal de Obras (Luis Claudio da Silva) e de interventor do Hospital de Caridade (Vilmar da Silva dos Santos) chegaram a ser presos preventivamente, mas foram soltos no dia seguinte e afastados das funções públicas temporariamente.
- Porém, Alberi foi preso novamente no dia 28 de dezembro. Segundo o delegado Vladmir Medeiros, novos elementos indicaram que o parlamentar liderava um núcleo da organização criminosa, usando empresas de fachada, parentes e CNPJs falsos para fraudar licitações e lavar dinheiro com bens e valores. Mesmo após a primeira prisão, em 8 de novembro, Dias teria continuado a influenciar agentes políticos.
- No dia 8 de outubro de 2025, o juiz Vancarlo André Anacleto, condenou dois envolvidos na operação, Alberi e o empreiteiro Ademir Claudiomiro Colombo da Silva pelos crimes de falsificação de documentos utilizados para fraudar licitações públicas em Canela. Já o terceiro envolvido na ação, Denis Roberto de Oliveira de Souza, foi absolvido. Ele teria "emprestado" sua conta para receber valores de contratos públicos de Ademir, mas o juiz considerou as provas frágeis.


