
Um ano após ser reeleito no segundo turno das eleições de 2024, quando disputou com Mauricio Scalco (PL) em 27 de outubro daquele ano, o prefeito de Caxias do Sul, Adiló Didomenico (PSD), enfrenta um cenário político instável. Atritos com o Legislativo, crises em secretarias e cobranças da comunidade marcaram o período, mas também teve algumas entregas importantes para o município.
Ainda em 2024, durante as eleições, Adiló recebeu o apoio de novos partidos, como Republicanos, União Brasil, MDB — o prefeito era do PSDB mas em agosto migrou para o PSD. A formação da nova legislatura na Câmara de Vereadores, composta na maioria por parlamentares de siglas opositoras, como PL e PT, obrigou o prefeito a fazer movimentos políticos para garantir maioria na Casa.
Logo após reassumir o cargo, o Executivo encaminhou à Câmara um projeto de lei que unificou secretarias e criou 18 cargos de secretários adjuntos nas pastas municipais. Na escolha dos novos nomes, a articulação política foi essencial para consolidar alianças com partidos como PP, PSD e PDT.
Apesar disso, a redistribuição de cargos não foi suficiente para apaziguar os ânimos no Legislativo. Muitos vereadores, como Rafael Bueno (PDT), Alexandre Bortoluz (PP) e Calebe Garbin (PP), mantiveram postura crítica em relação ao governo. Além disso, os tucanos Marisol Santos e Aldonei Machado apresentaram divergências em votações pontuais de projetos do Executivo, o que também contribuiu para o enfraquecimento da base de apoio.
Outro fator que influenciou esse cenário foi a atuação do líder de governo, Daniel Santos (Republicanos), que virou alvo de críticas por falhas de articulação. Um exemplo recente foi a votação do requerimento que solicitava informações sobre o encerramento do 9º ano em 15 escolas municipais. Durante a discussão, Daniel não se manifestou a favor do governo e saiu do plenário.

Sobre os conflitos com a Câmara de Vereadores, o prefeito Adiló diz que trata todos iguais e tenta manter uma relação "republicana" com a oposição.
— Como eu fui vereador, entendo que temos que respeitar, já que é um poder independente. A eleição terminou dia 27 de outubro de 2024. Muitas vezes, dá a impressão de que a eleição não terminou para alguns, mas não dá para condenar o Poder Legislativo. Eventualmente, tem uma ou outra questão, mas a convivência é muito republicana com todos os vereadores — avalia o chefe do Executivo.
— (Tem) Essa relação, esse respeito. Convivo com as críticas e aproveito para tirar a melhor lição possível. A crítica tem que ser levada em consideração. Muitas vezes nos ajuda a reconhecer decisões que não estão tão adequadas — pondera.
Greve dos servidores

Outro episódio envolveu o Sindicato dos Servidores Municipais (Sindiserv). Apesar de o prefeito não ter assinado a carta de intenções da entidade, em maio deste ano os atritos culminaram com uma greve de cinco dias.
O motivo seria a dificuldade de negociação para o reajuste salarial da categoria e a falta de segurança nas escolas municipais. Entretanto, o prefeito conseguiu contornar as situações e apresentar a resolução de um problema histórico da cidade: as distorções salariais causadas pela Lei 209/2012. O projeto já foi aprovado pela Câmara, e os primeiros pagamentos só devem ocorrer a partir de 2026.
— A gente negociou e contornou, porque a situação do município, financeiramente, é muito apertada. Se eu pudesse conceder um reajuste maior, não tenha dúvida (que faria). Qual é o prefeito que gosta de ver o servidor não satisfeito? Mas a gente tem que ter coragem de fazer o que é possível. O orçamento do município não permitia mais. Enfrentamos o desgaste da greve, mas nunca deixamos de dialogar com os servidores — frisa.
Episódios de atritos com a Câmara
A Câmara também foi protagonista em dois atritos com a administração direta: um envolvendo o secretário de Gestão e Finanças, Gilberto Galafassi, e outro com o então secretário da Saúde, Geraldo da Rocha Freitas Júnior, e a então adjunta, Daniele Meneguzzi.
No primeiro caso, a questão envolveu o secretário Galafassi e o valor direcionado à Casa pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). O montante calculado pelo Legislativo era de R$ 71 milhões, no entanto, o projeto foi enviado com R$ 61 milhões.
Os parlamentares, incluindo alguns da base, interpretaram a proposta como uma interferência do Executivo no Legislativo, com corte orçamentário. A situação foi resolvida com uma mensagem retificativa no projeto, mas o mal-estar permaneceu.
Além disso, após manifestações polêmicas de Galafassi sobre o assistencialismo na cidade, os vereadores da oposição Claudio Libardi (PCdoB) e Andressa Marques (PCdoB) enviaram uma denúncia ao Ministério Público acusando o secretário de xenofobia.
Já o segundo atrito foi ainda mais complexo e envolvendo os métodos de fiscalização de vereadores nas unidades de saúde do município.
Após um vídeo publicado nas redes sociais por Hiago Morandi (PL) e Daiane Mello (PL) questionando médicos na UPA Central e expondo a demora de alguns atendimentos, a adjunta da época, Daniele, também gravou um vídeo falando sobre o tema. Na gravação, ela tratou da quantidade de pedidos de demissão de médicos e relacionou isso a fiscalizações que têm sido executadas por alguns vereadores.
Essa manifestação criou um desgaste do governo junto ao Legislativo, impulsionando a ida do vereador Rafael Bueno para a pasta. A data de posse do novo secretário ficou marcada para o dia 6 de outubro, com muita especulação sobre quem seria o adjunto, sendo o nome de Geraldo mencionado, no entanto, no dia 27 de setembro, tanto o titular Saúde quanto Daniele pediram demissão. Ambos alegaram motivos pessoais.
Falta de diálogo com a comunidade

Nos últimos meses, a prefeitura tem enfrentado atritos não apenas com o Legislativo, mas com a própria comunidade, principalmente pela falta de comunicação clara sobre decisões importantes. Um dos episódios mais marcantes ocorreu com a mudança de local da nova policlínica, inicialmente prevista para o bairro Esplanada, na Zona Sul, e posteriormente transferida para o bairro São Caetano.
A alteração foi divulgada primeiro à imprensa, antes que os moradores fossem informados oficialmente. Isso gerou revolta entre os habitantes da Zona Sul, que esperavam contar com um grande centro de saúde próximo às casas, ainda que voltado a exames e atendimentos especializados, e não à urgência. O prefeito tentou promover uma reunião pública para esclarecer a decisão, mas foi recebido com protestos e cobranças pela manutenção do projeto original.
Apesar da resistência popular, a prefeitura não voltou atrás na troca de terreno. O chefe do Executivo chegou a retomar o discurso sobre a criação de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) na Zona Sul, mas sem apresentar avanços concretos sobre o assunto.
Mais recentemente, uma nova polêmica surgiu na área da educação, com o anúncio do encerramento do 9º ano em 15 escolas municipais a partir de 2026. A medida, que prevê a transferência de 928 estudantes para a rede estadual, foi novamente comunicada à imprensa antes do diálogo com as famílias afetadas.
Três dias depois, pais, alunos e professores protestaram na Secretaria da Educação, mas a secretária Marta Fattori reafirmou que a decisão está mantida, o que ampliou o descontentamento da comunidade.
— Nós já temos isso muito bem ajustado para que a gente possa fazer isso, não para economizar, mas para abrir oportunidade para que nenhuma criança que venha procurar vaga na rede municipal fique sem abrigo. Porque o volume de pessoas que vêm procurando abrigo em Caxias do Sul cresceu muito, então, é nosso dever oferecer os serviços. Caxias se fez assim, com esse espírito solidário, fraterno e quem não entender esse espírito, sinto muito, vão estar na contramão, porque o que nós estamos construindo é oportunidade para todos — finaliza Adiló.
Novo vice

Novidade no segundo mandato de Adiló, o vice-prefeito Edson Néspolo (União Brasil) consolidou espaço pela atuação nos bastidores. São raras as aparições, porém, assumiu a linha de frente em dois temas sensíveis: o adiamento do edital de concessão do prédio da Maesa (antiga Metalúrgica Abramo Eberle S/A) e o anúncio da necessidade de um novo espaço para instalação do Parque Automotivo. Apesar dos dois temas terem novidades quando comparado com os outros anos, ainda não apresentaram novidades.
Prefeito avalia que houve mais entregas
Na avaliação do prefeito Adiló, o primeiro ano já teve mais entregas do que os últimos quatro anos, justificando que o mandato anterior enfrentou pandemia, estiagem e crise climática de 2023 e 2024.
— Nós já fizemos mais neste um ano, que nem terminou ainda, do que nos quatro anos anteriores. Antes, nós pegamos dois anos de pandemia, que foi uma loucura, pegamos um ano de estiagem severa, que tivemos que levar a água para os agricultores, e depois pegamos aquela sequência de enchentes. Então a gente sofreu muito, mas avançamos muito, preparamos projetos que hoje estamos entregando ou podendo encaminhar — destaca.
Entregas
- Centro de Capacitação e Comércio (CCC): espaço solucionou uma reclamação de anos dos comerciantes locais com os vendedores ambulantes, apesar desses reclamarem da movimentação no local.
- Saúde: Mesmo com os problemas de fila de espera, demora em atendimentos e a necessidade de mais uma UPA, as unidades básicas de saúde (UBSs) e outros setores foram contemplados com melhorias como: A nova UBS de Galópolis, destruída nas enchentes de 2024; a reabertura das UBSs Esplanada e Mariani após a reforma e ampliação; inauguração da maternidade SUS do Hospital Virvi Ramos e implantação da telemedicina.
- Educação: assinou a parceria público-privada (PPP) da construção das 31 escolas infantis com a Consórcio Jope ISB, de Belo Horizonte (MG).
- Infraestrutura: investiu na reconstrução de dezenas de estradas municipais e ruas do perímetro urbano. Também lançou o pacote de 83 obras do Samae, que busca resolver pontos de alagamento e outros problemas em 35 bairros de Caxias. Junto disso, assinou a ordem de licitação do Aeroporto da Serra Gaúcha, obra que beneficiará toda a região e o Estado, além da revitalização da Estação Férrea, que está com a previsão de ser finalizada até o fim do ano.
- Economia: apesar do decreto de corte de gastos e das reclamações constantes da alta demanda de serviços públicos devido ao número de imigrantes, o acordo do caso Magnabosco — que assombra os cofres há décadas — deve ser finalizado ainda neste ano.
Projetos atrasados
- Acesso do bairro Planalto: já teve três empresas e agora a Codeca deve finalizar.
- Acesso do bairro Desvio Rizzo: projeto se arrasta desde 2023. Codeca assumiu a obra em 2024.
- Centro de Proteção Animal: teve a primeira ordem de início das obras assinada em agosto de 2024, mas, por questões financeiras, a primeira empresa desistiu. Depois, o projeto foi reavaliado e agora outra construtora ganhou a licitação. No entanto, a segunda ordem de início foi assinada no dia 7 de outubro, mas ainda não há movimentações efetivas no terreno.
- Castramóvel: Após denúncia de vereadores, foi exposta a situação de que o veículo está parado no estacionamento da Secretaria do Meio Ambiente desde a sua compra, em 2023. Foram feitos chamamentos públicos para ONG's assumirem os trabalhos, mas devido o alto custo, desistiram. Até o momento, não há novidades sobre o assunto.
- As 227 unidades habitacionais no Loteamento Campos da Serra: prefeitura rescindiu o contrato com a empresa em agosto e até agora, não divulgaram quando será lançada a nova licitação.




