
Com a posse dos novos deputados estaduais na próxima quinta-feira, Manuela D’Ávila (PCdoB), que concorreu a vice-presidente da chapa encabeçada por Fernando Haddad (PT), ficará sem mandato. Após 14 anos, é a primeira vez que não ocupará cargo eletivo – já foi vereadora e deputada federal também.
Longe do parlamento, Manuela se dedicará ao Instituto E se fosse você?, criado para combater a desinformação na internet. Também lançará, em março, Revolução Laura, livro escrito durante a campanha eleitoral em que fala sobre maternidade. A obra leva o nome da filha de três anos e será lançada pela editora caxiense Belas Letras.
Nesta entrevista, concedida por telefone ontem, além contar seus planos, avalia a derrota na eleição e o início do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL).
A senhora ficará sem mandato. Quais seus planos?
Lancei um instituto que se chama E se fosse você?, que vai trabalhar com "fake news" e rede de ódio, com produção de conteúdo. Entreguei ontem (domingo) um livro para uma editora de Caxias, a Belas Letras, com textos que escrevi durante a campanha, sobre a maternidade, a minha relação com a minha filha Laura e reflexões minhas sobre isso, e vou militar no movimento social. Quando aceitei concorrer a presidente pelo meu partido, foi essa a decisão que tomei lá atrás, já sabia que provavelmente ficaria sem mandato, porque concorri a presidente durante quase um ano (antes de ser oficializada vice, Manuela era pré-candidata à Presidência), sabia que cumpria um papel importante, mas não acreditava que ia vencer a eleição. Ficar sem mandato sempre foi algo que fazia parte da minha ideia, de que aconteceria.
As "fake news" surgiram com força na eleição do ano e a senhora foi alvo de algumas delas. Como lida com isso?
As pessoas não têm a exata dimensão do que é a rede de distribuição de "fake news" no Brasil, de quanto dinheiro isso envolve, porque uma postagem não chega a milhões de pessoas espontaneamente. Para que se tenha uma ideia, durante a campanha, conseguimos na Justiça derrubar 70 postagens falsas que me envolviam que haviam chegado a 13 milhões de pessoas e tido 300 mil compartilhamentos. Não estou falando de WhatsApp, estou falando de Facebook. Treze milhões de pessoas é mais que a população do Rio Grande do Sul inteira. A reedição dessa "fake news" agora (de que Manuela tem relações com Adélio Bispo, autor da facada contra Bolsonaro), na minha interpretação, apenas nos evidencia duas coisas: que precisamos ser velozes nas investigações. O Brasil não precisa mudar as suas leis para que a gente possa punir e investigar os envolvidos nas "fake news". A Polícia Federal tem inteligência para fazer o rastreamento. As polícias civis, as delegacias de investigação de crimes virtuais precisam dar a esses crimes de distribuição de notícias falsas a relevância adequada. Não dá para tratar como fofoquinha de internet. A segunda questão é que o Brasil inteiro precisa de esclarecimentos sobre a facada que atingiu o presidente Bolsonaro. Não é correto que uma coisa dessa dimensão se preste a tanta especulação. As investigações sobre isso também precisam de respostas. Tem "fake news" que sou eu, depois tem "fake news" que sou eu e o Jean (Wyllys, deputado federal), tem vídeo na internet que diz que sequer houve facada. Como que pode, um fato tão relevante durante o processo eleitoral, e agora, que envolve a saúde do presidente, não ter uma investigação veloz? O povo brasileiro tem o direito de saber para que se acabem com as "fake news".
Qual a sua avaliação sobre a eleição do ano passado?
Analisar a eleição tentando buscar um único aspecto que explique sempre vai nos levar a cometer erros. Acho que nós perdemos, lá atrás, o debate central para conduzir o processo eleitoral que é sobre a responsabilidade da crise econômica. O povo brasileiro acredita que a crise severíssima que nós vivemos é responsabilidade da esquerda. Abstrai o que foram os anos de governo Dilma com uma oposição, aliás, isso reconhecido pelo Tasso Jereissati, presidente do PSDB na época, que não deixou que Dilma governasse e tomasse medidas anticrise. De outro lado, há muito tempo, nós temos uma rede de distribuição de notícias falsas que faz com que as pessoas tomem a decisão buscando evitar, por exemplo, que o presidente que distribui mamadeira com pênis se torne presidente. As pessoas estão certas de tentar evitar, só que não existe essa pessoa. As pessoas tentam evitar que uma mulher que distribui um kit que ensina crianças a transarem seja vice-presidente. Elas estão certas de tentar evitar. Mas ninguém nunca distribuiu esse conteúdo. É preciso agregar isso como fator relevante. Eu falo sobre isso há muito tempo. Vivi em 2015, ainda grávida, um momento desses, quando foi inventado que eu tinha viajado a Miami para fazer enxoval. Eu não conheço Miami, não fiz enxoval, e as pessoas todas acreditaram nisso porque já naquela ocasião achavam que eu concorreria a prefeita de Porto Alegre.
E como a senhora avalia o primeiro mês de Bolsonaro?
Acho que vai ficando claro para as pessoas que o presidente não era uma jogada de marketing eleitoral. Que ele é intempestivo, tem muitos limites de relacionamento com a equipe e que isso gera um ambiente de crise permanente. E que a equipe dele é absolutamente inexperiente. Imagina se em algum dia da minha vida, mesmo eu, que cheguei aos 22 anos no parlamento, tivesse dito que deixava o orçamento para o ano que vem. O superministro dele não sabe sequer como é feito o orçamento do país. Imagina como vai se relacionar na construção da peça orçamentária dentro do Congresso. Essa disputa e esse nível de disputa fazem com que eles aumentem a verborragia, o discurso ideológico para tentar manter a base unida contra setores que perderam a eleição. Veja, por exemplo, os prejuízos do discurso ideológico do presidente tem trazido e trará à economia em função da verborrágica mudança da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Quantos frigoríficos no RS fecharão com o anúncio de que não comprarão mais carne do Brasil? Qual vai ser o impacto nas relações com Holanda por termos uma ministra que afirma que crianças holandesas são violentadas sexualmente, porque se elas fossem masturbadas, o nome correto seria violência sexual? Vai ter impacto aqui? Claro que vai. Não interessa se o governo é de direita, centro ou esquerda. Ele tomará medidas para manter sua dignidade.
A senhora estará na eleição do ano que vem?
Não sei. Estou bem feliz escrevendo, com o meu instituto, é nesse lugar que vou militar. Imagina, esse governo cada dia é uma novidade, como é que eu vou fazer projeção para um ano e meio? Hoje eu estou muito feliz de poder cumprir tantos mandatos. Fui parlamentar quatro vezes. Tenho uma trajetória cheia de realizações e estou feliz de, aos 37 anos, poder recomeçar a minha militância em um outro lugar, e realmente acho que posso contribuir muito fazendo com que as pessoas se coloquem uma no lugar da outra, por isso o instituto se chama E se fosse você? Como as pessoas se sentiriam se as filhas delas fossem agredidas com quatro meses porque elas torcem para o Grêmio ou para o Inter ou porque elas são de direta ou porque elas trabalham na Randon ou na Marcopolo. Foi isso que aconteceu com a minha filha. Como as pessoas se sentiriam se elas fossem dependentes químicas e fizessem chacota da doença delas? Todas as pessoas que têm pais alcoólatras, será que é engraçado mesmo? A minha ideia é tentar devolver para nós o nosso senso de humanidade.




