
Os ossos encontrados no fim de julho em uma área de mata de Caraúno, no interior de Bom Jesus, não eram humanos. A conclusão foi divulgada nesta semana pelo Instituto-Geral de Perícias (IGP), depois de uma análise do material recolhido no local indicado à polícia pelo homem que confessou o assassinato do caminhoneiro Luciano Boeira Melos.
Ainda há materiais localizados pelos bombeiros de Vacaria que passam por análise. A investigação sobre o desaparecimento e a morte do caminhoneiro segue em andamento.
Mas como os peritos conseguem determinar se um osso é ou não humano? A resposta está, principalmente, na anatomia. A identificação da origem de remanescentes ósseos (partes do esqueleto que resistem após a morte e a decomposição dos tecidos moles) faz parte do trabalho da antropologia forense, que analisa materiais encontrados em diferentes tipos de ocorrências.
No Rio Grande do Sul, os ossos que precisam desse tipo de avaliação são centralizados em Porto Alegre e encaminhados à Seção de Antropologia Forense e Exumações do Departamento Médico Legal (DML).
— A primeira pergunta que nós respondemos para todos os casos é se é humano ou não. Se são humanos, damos prosseguimento à perícia. Se não são, é emitido um laudo e a perícia é encerrada ali — afirma a diretora-geral adjunta do Instituto-Geral de Perícias (IGP-RS), Rosane Pérez Baldasso.

Antes da análise propriamente dita, os ossos passam por um processo de limpeza. A retirada de sujeiras e outros materiais permite que os peritos tenham uma visualização mais precisa das características da peça.
Segundo Rosane, a principal ferramenta utilizada nessa primeira avaliação é a anatomia. Os profissionais observam o formato e a estrutura do osso e fazem uma comparação com o conhecimento que existe sobre o esqueleto humano e com referências utilizadas na área.
— A diferenciação é feita pela anatomia, por uma análise morfológica mesmo das peças. A anatomia humana é bem conhecida e, normalmente, a dos animais é diferente. Então, muitas vezes, essa possibilidade é descartada por uma análise visual — explica a diretora.
O tamanho também pode ser levado em consideração, mas não é um critério isolado. Quando existe alguma dúvida, os peritos podem fazer medições específicas e recorrer a materiais de referência para reforçar a comparação.
— A análise morfológica inclui a análise visual comparativa com o conhecimento das peças humanas e com atlas antropológicos já existentes. A parte métrica também pode ser utilizada, se houver alguma dúvida e forem necessárias medições específicas.
A diretora-geral adjunta do órgão explica ainda que, na maioria das situações, essa avaliação inicial é rápida. A equipe também trabalha de forma conjunta para chegar a uma conclusão com segurança e dar uma resposta mais ágil à investigação.
Nem sempre o material chega inteiro. Em alguns casos, são encontrados apenas pequenos fragmentos. Mesmo assim, determinadas características podem permitir a identificação da origem.

Quando o fragmento não apresenta elementos suficientes para uma conclusão apenas pela observação, os peritos podem recorrer a uma análise microscópica.
O estado do material também influencia as etapas seguintes. Se a análise confirmar que os remanescentes são humanos, o trabalho deixa de ser apenas saber a origem do osso e passa a buscar respostas sobre quem era aquela pessoa.
E quando o material é humano?
A partir da confirmação de que os ossos são humanos, os peritos avaliam quais métodos de identificação podem ser utilizados. Entre eles estão a papiloscopia (análise das papilas ou impressões digitais), a odontologia legal e a genética forense.
Em restos que já estão em estágio avançado de decomposição ou esqueletização, a papiloscopia normalmente não é mais possível. Nesse cenário, a análise odontológica e o DNA ganham importância.
Na odontologia legal, por exemplo, os peritos podem comparar os dentes e outras estruturas com registros que pertenciam à possível vítima, como radiografias odontológicas, informações de tratamentos e até fotografias que permitam visualizar a dentição.
— Todo o processo de identificação é comparativo. Na odontologia legal, por exemplo, precisamos ter um material padrão para comparar com o que temos disponível nos remanescentes analisados — diz Rosane.

O mesmo princípio é aplicado à genética forense. Encontrar DNA em um osso não significa, sozinho, descobrir quem é a pessoa. O perfil genético precisa ser confrontado com outro material.
Esse material pode ser obtido da própria pessoa, caso exista uma amostra anterior, ou de familiares. Quando não há sequer uma suspeita sobre quem possa ser a vítima, o perfil dos remanescentes pode ser incluído no banco de perfis genéticos para futuras comparações.
— Há um método de identificação e todo método de identificação é comparativo. O perfil genético dos remanescentes é confrontado com o banco de dados de desaparecidos, e esse banco é nacional.
Assim, a investigação pode encontrar uma resposta mesmo quando os ossos e os familiares estão em locais diferentes. Um material encontrado no Rio Grande do Sul, por exemplo, pode apresentar compatibilidade com familiares de uma pessoa desaparecida em outro Estado.



