
A tarde e a noite do primeiro dia do tribunal do júri que analisa o desaparecimento do caminhoneiro Luciano Boeira Melos, em Bom Jesus, foram marcadas pelos interrogatórios dos réus. Os primeiros a se manifestar nesta terça-feira (28) foram Felipe Silveira Noronha e Fabiana Ramos Saraiva. Além deles, Flávio Silveira Noronha e José Balduíno Saraiva respondem ao processo.
Segundo a acusação, Luciano desapareceu em 26 de julho de 2023 após sair de casa para encontrar Fabiana, com quem mantinha um relacionamento extraconjugal. A investigação sustenta que ele foi atraído para uma emboscada em uma área rural de Bom Jesus e morto por motivo torpe e sem possibilidade de defesa. O corpo nunca foi localizado.
O primeiro a falar foi Flávio Silveira Noronha, irmão de Felipe e cunhado de Fabiana. Ele negou participação no desaparecimento de Luciano e afirmou que prestou informações falsas em depoimentos anteriores à Polícia Civil coibido pelo irmão. Segundo Flávio, Felipe pediu que o irmão fosse até a casa dele para tratar do suposto aluguel de uma residência. A casa em questão era o local onde Flávio residia, que pertencia ao irmão.
Flavio contou que, ao chegar na propriedade, Felipe e Fabiana estavam de saída e pediram que ele tomasse conta do filho deles, um bebê de dois meses. Flávio alega que permaneceu no local por cerca de duas horas, até o retorno do casal.
Ao retornarem, Fabiana estaria nervosa e Felipe teria confessado o crime. Após, o irmão teria convencido Flávio a forjar provas e ser seu álibi. Ele teria usado a casa, cedida como moradia sem custos, como chantagem. Segundo o relato, eles teriam feito manutenções em veículos para alegar que passaram a noite envolvidos com isso. Flávio negou envolvimento com a morte de Luciano, alegando que, apesar de conhecer a vítima, não tinha inimizades com ele.
Relato de Fabiana traz segunda versão do caso

Na sequência, Fabiana Ramos Saraiva, mulher com quem Luciano se envolveu, prestou seu depoimento. Ela confirmou no tribunal o relacionamento com a vítima, indicando que eles estavam envolvidos há cerca de três meses.
O marido, Felipe, teria descoberto do caso no dia 25, ou seja, um dia antes do desaparecimento. Ela contou ter sido agredida por ele com um tapa e que teve o celular tomado. A mensagem que foi enviada a Luciano marcando um encontro, pelas redes sociais dela, teria sido enviada por Felipe, como uma emboscada.
Segundo Fabiana, o cunhado Flávio teria aparecido na residência do casal ao entardecer do dia do desaparecimento. Ela narra que, na sequência, ouviu sons do lado de fora da propriedade e cães latindo. Nesse momento, Felipe teria deixado a residência. Fabiana e Flávio permaneceram dentro e ouviram sons de tiros.
Fabiana conta que ambos saíram da casa, contudo se contradisse a respeito de ter visto Luciano. Em uma primeira versão ela sustentou que viu o corpo dele no chão. Após, alegou que supôs que se tratava de Luciano pela moto.
Na sequência, ela afirmou que voltou para dentro da residência, para ficar juntos dos filhos. Fabiana sustentou que Felipe foi quem retirou o corpo da entrada da propriedade, usando um cavalo. Contudo, alegou não saber onde foi levado e como a moto foi retirada de lá. Ela também indicou que Flávio deixou a casa após os disparos e não sabe o que ocorreu.
Outros depoimentos
A fase de interrogatórios seguiu pela noite, com os depoimentos de Felipe Silveira Noronha e José Balduíno Saraiva, pai de Fabiana. A partir das 8h30min da quarta-feira (29), inicia a fase de debates entre o Ministério Público e a defesa dos quatro réus. A previsão é que o júri se estenda até quinta-feira (30).
Mais cedo, ao longo da tarde, testemunhas prestaram depoimentos. O delegado Gustavo Costa do Amaral, responsável pela investigação, abriu os trabalhos, reiterando as informações apresentadas no inquérito da Polícia Civil.
Também prestaram informações Jociele da Silva, ex-esposa de Flávio; Leonardo Marafigo, ex-colega de trabalho de Flávio; Evandro Felipe Amaral Macedo, conhecido de Luciano com quem ele buscou informações sobre uma arma para comprar; e Alexandre Becker, bombeiro que atuou nas buscas por Luciano.
Relembre o caso
No dia 26 de julho de 2023, Luciano Boeira Melos teria arrumado a casa onde morava, na localidade de Hortêncio Dutra, ao lado da residência da mãe, Elisete Boeira. Com a faxina, o caminhoneiro parecia estar esperando alguém. Conforme a família, um comerciante revelou que, naquele dia, ele teria comprado um edredom e dois travesseiros e feito questão de que os itens fossem entregues naquela quarta.
No fim do dia, o caminhoneiro teria pedido para a mãe preparar o jantar e já havia guardado a moto na garagem. Enquanto Elisete dobrava roupas e aguardava o jantar ficar pronto, ouviu o filho sair de moto, sem dizer para onde ia. A mãe diz ter sentido um aperto no peito na mesma hora e começado a enviar mensagens e fazer ligações para o filho, pedindo que ele voltasse para casa.
Às 19h40min, o caminhoneiro enviou uma mensagem para a mãe dizendo que tinha ido à cidade. Para o irmão, Lucas Silva, Luciano revelou ter ido encontrar com a mulher, na localidade de Caraúno. Esses foram os últimos contatos feitos com a família. Desde então, ele nunca mais foi visto.
Segundo a investigação da Polícia Civil e a denúncia do Ministério Público, a morte do caminhoneiro teria sido previamente combinada em 25 de julho, um dia antes do desaparecimento. Após descobrirem o relacionamento extraconjugal de Fabiana com Luciano, Felipe e José Balduíno, respectivamente marido e pai da mulher, teriam combinado que ela seria perdoada desde que o caminhoneiro fosse morto.
No dia 26, Fabiana, que teria concordado com o plano, teria enviado uma mensagem para Luciano pelo Facebook marcando o encontro para resolver o futuro do relacionamento. No local, ela estaria acompanhada de Felipe, Flávio e José. Conforme a denúncia, Luciano teria sido morto por motivo torpe (a traição) e sem poder se defender.



