
Dos nove homens presos neste ano em investigações de estupro de vulnerável em Caxias do Sul, 77% são genitores ou padrastos das vítimas. O levantamento é da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA). Do total, somente em dois dos casos os suspeitos têm outros graus de parentesco, sendo um tio e um avô dos envolvidos.
Em um intervalo de menos de 10 dias, nas últimas semanas, a DPCA prendeu dois homens pelo crime no município. Em um dos casos, o abuso sexual foi praticado pelo genitor contra a filha adolescente, que denunciou o crime. Na outra ocorrência, conforme a investigação, o tio abusou de uma sobrinha. O homem também ameaçou a vítima.
— Na maioria dos abusos sexuais infantis, em torno de 90% ocorrem por pessoas próximas: padrastos, pais, avós, cunhados e cuidadores. Isso torna, às vezes, o crime sexual silencioso, justamente porque são pessoas próximas ou do círculo familiar. Assim, não existe um discernimento por parte de algumas crianças e adolescentes de que estão sendo vítimas de um crime — sinaliza a titular da DPCA de Caxias do Sul, a delegada Aline Martinelli.
A delegada aponta que as prisões dos abusadores são resultado de investigações robustas, em um trabalho conjunto com o Centro de Referência no Atendimento Infantojuvenil (Crai) e com o Departamento Médico-Legal. Enquanto o primeiro oferece acolhimento integrado e humanizado para crianças e adolescentes vítimas de violência, o segundo é responsável por subsidiar as provas materiais dos crimes.
Para a delegada, os familiares e os profissionais da educação, nas escolas, precisam estar atentos aos sinais dados pelas vítimas. A denúncia sobre crimes contra crianças e adolescentes pode ser feita por qualquer pessoa anonimamente.
— As vítimas costumam ter sinais físicos e psicológicos, como agressividade, mudança de vestuário, comportamentos de automutilação, além de sinais mais discretos, como aquela criança que tem medo, que não interage socialmente ou, então, que próximo do abusador tem algum outro sintoma — explica a delegada.
A comunicação às autoridades pode ser feita via 190, da Brigada Militar, e pelo Disque Denúncia (181). O Departamento Estadual da Criança e do Adolescente atende pelo número 0800 642 6400.
Informação como aliada

Nem toda vítima de abuso sexual apresenta sintomas ou mesmo consegue identificar sozinha que está sofrendo um crime. Por isso, um trabalho desenvolvido pela Polícia Civil tem representado um avanço no número de denúncias e no fortalecimento das vítimas, segundo a delegada Aline Martinelli.
Trata-se do Papo de Responsa, um programa da Polícia Civil do Rio Grande do Sul que leva palestras para escolas públicas e privadas, com temas como violência, prevenção às drogas e o papel do policial para a sociedade.
— Às vezes, temos revelações na própria palestra. Não é incomum alguém se levantar e chorar, baixar a cabeça, encher os olhos de lágrimas, porque está passando por um situação de abuso. Fazemos um discurso de proteção, de mostrar que estamos do lado deles e a denúncia pode ser anônima. Queremos que esse ciclo seja rompido — pontua a titular da DPCA de Caxias do Sul.
A solicitação da palestra pode ser feita pelas escolas pelo e-mail caxiasdosul-dpca@pc.rs.gov.br. A delegacia especializada está localizada na Rua Marquês do Herval, 1.178, no centro de Caxias do Sul.





