
Karine Pires Soares, 46 anos, é a primeira mulher a ser nomeada comandante do 43º Batalhão de Polícia Militar (BPM), de Bento Gonçalves. Natural de Santiago, entre a fronteira oeste e a região central do RS, ela completa duas décadas de Brigada Militar (BM) em 2026, e foi promovida de major a tenente-coronel no fim do ano passado para assumir o posto na Serra.
A brigadiana substitui o tenente-coronel Flori Chesani Júnior, e tem como subcomandante a major Estefanie Fagundes Gomes Caetano. Chesani foi direcionado ao Estado-Maior da BM, em Porto Alegre.
Karine é a única mulher na gestão de um batalhão vinculado ao Comando Regional de Polícia Militar (CRPM) Serra. O 12° BPM, de Caxias do Sul, é comandado pelo tenente-coronel Márcio Borba Fernandes; e o 36° BPM, de Farroupilha, é gerenciado pelo tenente-coronel Giovani Gomes.
Com responsabilidade sobre a segurança de 12 municípios, Karine coloca como prioridade controlar os índices de CVLIs (crimes violentos letais intencionais). Bento Gonçalves, a mais populosa dessas cidades, já registra cinco homicídios neste ano (em 2025, foram 28). A vizinha Garibaldi totaliza três assassinatos (10 no ano passado inteiro). Embora as investigações estejam em andamento, o contexto apontado para a maioria dos casos é o tráfico de drogas.
A nova comandante afirma que está se reunindo com autoridades locais e regionais para se apropriar dos processos em vigência e do que pode ser aprimorado. Em paralelo, a BM responde aos crimes com um protocolo de medidas, previsto pelo programa RS Seguro, que inclui a saturação de áreas críticas para a violência.
— Buscamos encurralar as organizações criminosas com a nossa presença. Precisa ficar desconfortável para eles transitarem na área com armas ou foragidos. Sempre que acontece um delito grave, vamos com força máxima para cima. Inclusive, Bento e Garibaldi estão recebendo apoio de Caxias do Sul. O setor de inteligência também acompanha a movimentação das organizações criminosas — salienta Karine, complementando que as ações resultam na prisão de suspeitos e na apreensão de armas e drogas.
A tenente-coronel começou os trabalhos com a tropa, de cerca de 220 policiais militares, na última quarta-feira (28). A atuação compreende os municípios de Bento Gonçalves, Garibaldi, Carlos Barbosa, Veranópolis, Cotiporã, Vila Flores, Fagundes Varela, Boa Vista do Sul, Santa Tereza, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e Coronel Pilar.

Carreira com destaque para polícia comunitária
Antes de chegar na Serra, Karine ficou durante um ano e três meses lotada no 1° BPM, de Porto Alegre, onde exercia a posição de subcomandante, em preparação para a missão que viria na sequência. Entre as experiências, estão a vivência em diferentes métodos de policiamento, a tradição do batalhão e o atendimento de áreas complexas da maior cidade do Estado.
— Foi uma experiência muito boa, credito à função de subcomandante eu hoje estar preparada para assumir a função de comandante de batalhão — diz.
Bacharel em Direito, Karine ingressou na Brigada Militar em 2006. Ficou dois anos na Academia de Polícia Militar, em Porto Alegre. Tem no currículo períodos como comandante de unidades da BM em Taquari, Teutônia e Arroio do Meio, e como subcomandante do 22° BPM, em Lajeado.
A mulher tem uma capacidade de visão ampliada, de perceber cenários, de focar em várias coisas ao mesmo tempo. E especialmente de se preocupar com a qualidade de vida. Eu tenho preocupação em como o meu efetivo vai estar e em quais são as condições de trabalho
Nesse período de morada no Vale do Taquari, se especializou nos programas de polícia comunitária Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência) e Patrulha Maria da Penha. São formações que ela considera como essenciais para a carreira.
— São dois programas que sempre toquei por onde andei. Eu fui coordenadora estadual do Proerd, da Patrulha Maria da Penha e de todos os programas da polícia comunitária do Estado por três anos. Conseguimos avanços e expansões importantes desses serviços no Estado entre 2019 e 2022. Depois fui convidada para o departamento de ensino, onde coordenei por dois anos os cursos de formação de soldado, capitão e até especialização em outras áreas — elenca a comandante.
Atingindo o ápice da carreira — até agora —, Karine tem expectativas positivas para o trabalho que pode desempenhar em uma unidade que é fundamental para a segurança da Serra.
— Fui muito bem recebida, estou feliz com o que eu tenho encontrado nesses primeiros dias em que visito a região: em termos de recursos materiais disponíveis, como prédio, viatura e armamento, bem como recursos humanos. Claro, sempre podemos pensar em melhorar, mas está tudo muito bem articulado e estabelecido. Vou ter um período muito feliz na minha carreira aqui em Bento Gonçalves — projeta.
"Câmera para dar respaldo às ações policiais"
Outro desafio que se impõe é a transição para o uso de câmeras corporais nas fardas dos PMs. O monitoramento, atualmente só disponível na região metropolitana da Capital, deve chegar neste ano a Caxias do Sul e a Bento Gonçalves, além de outros 11 municípios do interior gaúcho. A expectativa da corporação é pela colocação de um total de 1.745 câmeras corporais.
Ainda não há data para a mudança ocorrer no batalhão de Bento, mas Karine adianta que os policiais irão receber os treinamentos necessários para utilização do equipamento. Conforme a BM, o custo mensal por câmera é de R$ 589, com investimento anual de R$ 8,8 milhões.
Ela, que viu de perto o funcionamento da tecnologia em Porto Alegre, avalia que o monitoramento por meio das fardas tem o objetivo de respaldar as ações policiais.
— Obviamente causa um certo desconforto, você pode ser médico, dentista ou jornalista: trabalhar com uma câmera no peito causa um impacto. Mas a câmera foi feita justamente para dar respaldo às ações policiais, para que tenhamos provas suficientes da materialidade dos delitos. Da experiência que eu tenho no 1° BPM, a câmera mostra o movimento da arma, onde uma arma foi localizada, o que o preso está dizendo, as intervenções que o policial está fazendo. Então, é um equipamento que veio para somar — argumenta.
Além disso, a comandante Karine revela que quer ampliar o repertório do 43° BPM com outras tecnologias, como os drones. A ideia é utilizar as pequenas aeronaves não tripuladas para análise de áreas e a vigilância de organizações criminosas por uma perspectiva superior à humana.
Acredito que isso (ser a primeira comandante mulher) impacte muito mais para o público do que internamente. Porque o público não está acostumado a ver mulheres em posição de comando ou liderança. De certa forma eu represento as mulheres e preciso pensar muito nas decisões que vou tomar, porque não será só a Karine, será sempre a primeira comandante da BM em Bento Gonçalves
Outra marca que ela pretende alcançar para a gestão é uma atuação em proximidade e diálogo com a comunidade:
— Quero trabalhar muito perto da comunidade, peço que aceitem nossos convites para encontros. É uma comunidade que gosta e ajuda a polícia. Então vamos chamar os segmentos até o quartel para conversas e para apresentarmos nossas propostas de trabalho. Eu vim para ficar até quando o comando entender necessário.

Curiosidades
- Karine é filha da professora Elza Maria Pires Soares e do ex-militar do Exército José Adão Franco Soares (falecido em 2017). Foi criada entre duas irmãs, em Santiago — cidade em que morou até os 22 anos.
- É mãe da Manuella, de 12 anos, e tem duas cadelas da raça shih tzu, a Molly e a Jade.
- Inicialmente, após se graduar em Direito, pretendia prestar concurso para promotora de Justiça e trabalhar no Ministério Público (MPRS). A oportunidade venceu: surgiu um concurso para BM e ela passou.
- Como desafogo da rotina, Karine pratica corrida. Além disso, mantém uma vida saudável, com alimentação balanceada, exercícios físicos e outros cuidados.
- A dedicação aos estudos, absorvida ao viver com uma professora dentro de casa, se traduziu na primeira colocação no curso superior para oficial da BM, se tornando capitã e recebendo o apelido de “zero-um”.
- Na formação como PM, Karine foi colega de outros agentes que atuam na região, como o comandante do 4° Batalhão de Polícia de Choque (BPChq), tenente-coronel Diego Soccol, e o subcomandante do 36° BPM, major Marcelo Gazzana.






