Os pais da criança de quatro anos agredida por uma professora de uma instituição particular de Caxias do Sul nesta semana prestaram depoimento à polícia nesta quarta-feira (20). Os donos da Escola Infantil Xodó Da Vovó também falaram com a polícia, que abriu inquérito para investigar o caso.
A professora Leonice Batista dos Santos, 49 anos, foi demitida e é investigada pelo crime de lesão corporal pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).
Após prestarem depoimento, os pais e a criança foram encaminhados ao Centro de Referência em Atendimento Infantojuvenil do Hospital Geral de Caxias do Sul (CRAI-HG) para acompanhamento de uma equipe multiprofissional, com especialistas como psicólogos e assistente social.
De acordo com o pai, ele e a mãe também receberam auxílio de psiquiatra após o ocorrido. Eles ainda avaliam se mudarão a criança de escola. O pai descreve que o sentimento é de querer ficar com o filho o tempo inteiro após a agressão.
O menino estudava há cerca de dois meses no local, após a escola anterior em que ele estava ter fechado por problemas financeiros.
— Só queremos a justiça agora. Com auxílio, estamos dando o melhor suporte. Ele (o menino) já está fazendo arte aqui. Agora está legal, graças a Deus — relatou o pai.
O pai concedeu entrevista à RBS TV na delegacia, nesta manhã. O nome dele não é divulgado para não expor o filho, menor de idade, em função do Estatuto da Criança e do Adolescente (Eca).
Confira os principais trechos:
RBS TV: Como foi que vocês receberam a notícia de que o filho de vocês estava machucado na escola?
Pai: Pela própria professora. Ela nos comunicou que ele havia caído no banheiro, batido a boca na pia. Então a gente, prontamente, saiu do trabalho e foi até a escola. Mas nesse meio tempo, entre mensagens, ela nos disse que já tinha acionado também o resgate. Mas chegamos antes que o resgate e o levamos direto pro dentista. Até o momento, tinha sido um acidente, então.
E qual foi a avaliação desse dentista?
Quando a gente chegou no dentista, vimos que a situação era bem crítica. Ele estava com seis dentes, os seis primeiros dentes de cima, todos caindo, praticamente. Um dente já tinha caído. A dentista conseguiu colocar o aparelho apenas nos quatro da frente. Nos caninos não tinha como porque estavam muito moles. Ali eu já fiquei muito desconfiado, porque eu comecei a olhar para o rosto do meu filho... ele estava bem vermelho, o olho dele estava bem vermelho.
Desconfiei que era muito grave. E pelo que as dentistas também falaram, só um tombo não poderia causar tanto machucado numa criança.
Logo que nós saímos do dentista, fomos pra casa. No caminho, a escola entra em contato com nós. Nesse telefonema, eu peço para ver as câmeras. Minutos depois eles nos ligam e falam que o assunto é urgente, que era pra gente ir até a escola. Então, eu saio cegamente e vou até a escola. Quando chego na escola, estão os donos, os dois em prantos, chorando, se ajoelhando pra nós, pedindo perdão.
Eu entendo que a escola não tem culpa nenhuma. Foi um surto da própria professora. Ela era uma professora que recebia as crianças na porta. Eu sempre confiei nela, nunca desconfiei de nada. Claro que após o ocorrido, eu recebi muitos relatos, agora de mães dizendo que os filhos já tinham relatado algumas situações com essa professora.
O pior de tudo é ver o filho da gente ter que almoçar de canudo, jantar de canudo. Isso é o que mais dói. Não tenho nem lágrima mais pra chorar
Então, agora, só quero justiça. Quero que ela vá presa. A situação é difícil. O pior de tudo é ver o filho da gente ter que almoçar de canudo, jantar de canudo. Isso é o que mais dói. Não tenho nem lágrima mais pra chorar.
Eu espero, realmente, que ela vá presa. Só quero que ela vá presa. Isso não se faz, é um inocente. É uma tentativa de homicídio, porque poderia ter quebrado o pescoço do meu filho ali naquela mesa. É muito peso na cabeça de uma criança.
E o teu filho estava há quanto tempo na escola?
A gente estava há pouco tempo na escola. Escolhemos a Xodó da Vovó a dedo. Quando a gente foi conhecer a escola, tem câmeras em todos os lugares, foi o que nos deu conforto. Os donos nos acolheram bem.
A gente estava lá já há um pouco mais de dois meses. E a gente já vinha também de um trauma, de uma escola que fechou.
E a localização da sala onde o teu filho estudava era em frente à sala da diretora, né?
Isso, isso mesmo. Em frente à sala da diretora. Ele estava, ainda, acho que em adaptação. Tinha momentos do dia que a própria diretora mandava vídeos com ele dentro da sala dela, fazendo carinho.
Ele já tinha dito para vocês alguma coisa sobre o comportamento dessa professora?
A única coisa que eu notei, é que ele sempre falava da "Profe Lê".
Era uma turma de quantos alunos para quantas professoras?
Quando nos apresentaram a escola, tinham duas professoras e, se não me engano, em torno de 19 alunos, bastante gente.
Vocês acreditam que essa professora estaria sobrecarregada?
Pode ser que ela esteja, né? A gente não entende, não sabe da situação. A gente tem relatos que ela tinha ficado alguns dias afastada ali por algum problema no intestino, enfim, mas não temos como falar o que realmente ocorreu.
Mas sobre o teu filho, como é que ele está? Ele está tomando remédio? Como é que ele está se alimentando?
Agora ele não pode fazer força nos dentes, então, é só papinha, só iogurte, arroz e feijão amassado. É triste falar e é ruim, é ruim. É uma criança de quatro anos, ele está assustado.
Tem dentistas, tem psicólogas. Todo mundo oferecendo ajuda e realmente eu agradeço.
Vocês vão procurar ajuda psicológica? Como é que ele está reagindo depois de tudo que aconteceu?
Sim, tem muita gente nos procurando, oferecendo ajuda. Eu até agradeço todo mundo, todas as mensagens. Tem dentistas, tem psicólogas. Todo mundo oferecendo ajuda e realmente eu agradeço. Sinto ele muito com medo. Então, qualquer barulho, ele está assustado, até com nós. E é um trauma, um trauma pra sempre.
Qual é o sentimento de vocês como pais?
Estou sem chão, não consigo trabalhar, não consigo mais nada. Eu só quero ficar junto com ele, quero estar com ele. Se eu levar pra escola, eu quero ficar lá do lado dele. É o que eu sinto agora. Então daqui pra frente vai ser difícil. A gente tá à base de remédio, eu e a mãe.
