
Com a conclusão da segunda fase da Operação Elísios, deflagrada pela Polícia Federal (PF) para investigar o assalto ao Aeroporto Hugo Cantergiani, de Caxias do Sul, 39 pessoas foram identificadas pelo crime. A investigação aponta uma verdadeira organização criminosa para tentar roubar a quantia de R$ 30 milhões, que chegava no terminal em um avião de Curitiba, em junho do ano passado. O segundo relatório foi finalizado na última terça-feira (19).
São 22 indiciados nesta segunda etapa. De acordo com o delegado Márcio Teixeira, da Delegacia de Patrimônio da PF, o número expressivo de suspeitos é normal para um crime denominado como um mega-assalto. Nem todos, obviamente, atuaram diretamente na noite do crime, em que um policial militar de Caxias foi morto.
— Estamos falando de um evento altamente planejado. E aí, para esse planejamento, estamos falando de pessoas que dão o suporte de esconderijo, de veículos, de mobilização, de batedores, de armas que muitas vezes são alugadas ou cedidas por terceiros. Estamos falando de pessoas que ajudam a ocultar os valores subtraídos — descreve o delegado.
Segundo a investigação, dos nove criminosos que executaram o crime, seis foram identificados. Ou seja, o número de envolvidos no crime supera 40 pessoas. Muitos deles, como aponta o delegado, são criminosos faccionados e experientes, com cerca de 30 assaltos no currículo.
Os indiciados da segunda fase devem responder por crimes como latrocínio, falsificação de símbolo, explosão, falsificação de identidade, adulteração veicular, usurpação de função pública, posse de arma de uso restrito, lavagem de dinheiro e organização criminosa com arma de fogo.
De acordo com a assessoria de imprensa do Ministério Público Federal (MPF), a procuradoria já trabalha na ação penal da segunda fase. Já em relação ao julgamento da denúncia feita na primeira fase da operação, os autos estão na 3ª Vara Federal de Passo Fundo para sentença.
Desdobramento no crime de lavagem de dinheiro
Um dos crimes verificados na investigação é em relação a lavagem de dinheiro. O delegado da PF esclarece que a Operação Elísios toca especificamente nos atos relacionados ao crime. Como, por exemplo, o imóvel usado como esconderijo ou que foi adquirido a partir do dinheiro roubado.
— Lavagem de dinheiro tem sido tratada desde a primeira fase, inclusive na segunda, como movimentos episódicos, casuísticos, pontuais, de alguns bens que foram ocultados no interesse dessas pessoas, ligados diretamente ao assalto ou aos crimes violentos dessa série de roubos — explica o delegado.
Na investigação, a Delegacia de Repressão a Crimes contra o Patrimônio e Tráfico de Armas (Delepat) encontrou indícios de lavagem de dinheiro com a utilização de igrejas e prefeituras, especialmente em São Paulo. O delegado lembra que o material será repassado aos órgãos competentes para o combate correto, uma vez que trata sobre um método sofisticado do crime utilizado por toda uma organização criminosa.
Outros avanços da segunda fase foram a identificação de pessoas-chave ao crime. Foi descoberto que um funcionário da empresa de valores que transportava o dinheiro é quem teria avisado sobre a rota. O então servidor da empresa foi preso durante a operação. Além disso, líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC) foram identificados.
O líder identificado da facção, conforme a PF, seria Alex Santos Pereira. O suspeito seria membro do núcleo de liderança do PCC. Já o financiador do crime, segundo a polícia, seria Josemir Matias da Silva, conhecido como "PP". A dupla segue foragida na Bolívia. A facção gaúcha Bala na Cara também estaria envolvida no crime.
Um terceiro foragido é Adriano Pereira de Souza, conhecido como Cigano. Souza deixou a prisão em maio após receber autorização para receber tratamento de saúde, mas quebrou a tornozeleira eletrônica. Ele também é considerado um dos líderes do PCC.
A segunda fase contou com cumprimento de prisões preventivas e temporárias. Mais de 200 agentes participaram do trabalho. Eles executaram medidas judiciais no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Foram ações nas cidades gaúchas de Taquara, Parobé, Gravataí e Caxias do Sul, na catarinense Navegantes, em Curitiba, no Paraná, e em São Paulo.
Relembre o crime
Na noite do assalto, a ação teve início um pouco antes das 19h, quando nove criminosos se aproximaram do aeroporto caxiense em três caminhonetes pretas — uma Frontier, uma Outlander e uma Santa Fé. O voo com os R$ 30 milhões chegaria às 19h na aeronave de modelo King Air C90 Gti.
Para acessar a pista, os bandidos uniformizados caracterizaram os dois primeiros veículos com emblemas da PF e acessórios como o giroflex. A intenção era enganar funcionários e vigilantes do terminal. O terceiro veículo ficou em frente ao portão 2 do aeroporto para servir de apoio na fuga.
A ação, como registraram as câmeras do Hugo Cantergiani, começou exatamente às 19h27min, no mesmo portão. Após três pessoas serem feitas de reféns, seguranças foram rendidos e obrigados a colocar o dinheiro nas caminhonetes. O grupo reuniu-se na Santa Fé para o início da fuga, mas foi surpreendido pela Brigada Militar. Na troca de tiros, o 2º sargento Fabiano Oliveira foi morto aos 47 anos.
Após o tiroteio, fugiram na Santa Fé e na Outlander com R$ 14,4 milhões. A Frontier ficou para trás com um dos criminosos mortos e R$ 15,6 milhões.
Os oito criminosos fugiram até uma área rural do bairro Galópolis, em uma das saídas de Caxias, onde abandonaram os dois veículos e embarcaram em uma van escolar para despistar as autoridades. Eles foram levados até um sobrado em Farroupilha para, dois dias depois, começarem a sair do Estado em direção à região Centro-Oeste.





