
Entre os vários componentes sagrados de uma missa, o vinho é obrigatório. Mas não é qualquer tipo de vinho que pode ser utilizado. A Igreja Católica determina que a bebida alcoólica produzida a partir da uva siga uma série de normas para ser aceita. Quando a tradição é cumprida, surge o vinho canônico.
As regras de pureza, produção e rito estão estabelecidas no Código de Direito Canônico e na instrução Redemptionis Sacramentum. Conforme os documentos, o vinho deve ser 100% natural, elaborado a partir do fruto da videira. A bebida tem de ser "pura", não havendo a adição de substâncias "estranhas", como corantes ou aromatizantes.
A inserção de conservantes artificiais também é vedada, por isso a igreja permite a produção de vinhos licorosos, com teor alcoólico entre 14% e 18%, cuja conservação é garantida pela adição controlada de álcool vínico e pela concentração natural de açúcares da uva. A medida evita que a bebida azede após ser aberta e armazenada nas paróquias, já que não é consumida de uma só vez.
Na Igreja Nossa Senhora de Lourdes, uma das maiores de Caxias do Sul, uma garrafa dura cerca de uma semana, segundo o pároco Jocimar Romio. Durante as missas, em um cálice dourado, o sacerdote mistura o vinho a uma pequena quantidade de água e ora antes de ingerir a bebida: "Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo vinho que recebemos de vossa bondade, fruto da videira e do trabalho humano, que hoje vos apresentamos e que para nós se tornará bebida de salvação".
— O significado disso é bem bonito. Pelo aspecto Cristológico, Jesus é, ao mesmo tempo, divino e humano. Quando se mistura o vinho com um pouco d'água, significa a união entre divindade e humanidade — define Romio.
Para a fé católica, a partir da consagração, o vinho e o pão, na forma de hóstia, se tornam o Corpo e o Sangue de Cristo. Em algumas celebrações, como a primeira comunhão ou casamento, outras pessoas também podem beber o líquido consagrado.
— Para o sacerdote, enquanto cristão, beber do vinho e comer do pão, que são a eucaristia, é comungar do próprio Jesus Cristo. É estar com Jesus, em primeiro lugar e, bebendo do vinho e comendo do pão, comungando, portanto, para ser um outro Cristo junto das pessoas — destaca o líder religioso.
Fora do contexto litúrgico, no entanto, o vinho de missa pode ser adquirido e consumido por qualquer pessoa. O caráter sagrado não está na garrafa em si: para a Igreja Católica, é a consagração durante a celebração eucarística que transforma seu significado religioso.
Supervisão da igreja e Serra como referência
Apesar de não ter um levantamento oficial, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) indica que o RS, especialmente a Serra, ocupa posição de destaque na produção brasileira de vinho canônico. O trabalho necessita de autorização formal e supervisão do bispado local. Na Serra, quatro vinícolas possuem o aval da Diocese de Caxias do Sul para a finalidade litúrgica.
Uma delas é a Adega Chesini, onde as vendas da bebida sagrada representam mais de 30% do faturamento. Por safra, saem do empreendimento, localizado em Vila Rica, no interior de Farroupilha, com destino às paróquias de todo o país, entre 35 mil e 40 mil litros de vinho canônico.

Ao contrário do que muitos podem pensar, a igreja não exige uma coloração específica, embora o tinto seja o mais simbólico. Prova disso é que a vinícola lançou, há poucos meses, um rótulo de vinho de missa branco, da uva moscato. A demanda, segundo o sócio-diretor, Ricardo José Chesini, foi dos próprios religiosos.
Entretanto, o vinho canônico tradicional da adega, elaborado há cerca de cinco décadas, é rosado, da uva isabel. Além de garrafas de 750ml, a bebida é comercializada em bag in box de 3,5 litros e até nos clássicos garrafões, embora em quantidades mais restritas.
— Temos um volume grande de uvas isabel, selecionamos as melhores na entrada, separamos, fermentamos em separado do bagaço, da casca e da semente para acontecer a fermentação em branco. Temos um cuidado muito especial, elaboramos ele na safra da uva e depois ele permanece em torno de um ano e meio a dois anos nos tanques de inox antes de ir para a garrafa — detalha Chesini, complementando que a safra atual é 2024, com 16,1% de graduação alcoólica.
Ele conta que a bebida começou a ser produzida na vinícola pelo avô e fundador, Felippe Thomas Chesini, nos anos 1970, em uma relação de amizade com o bispado que permanece até hoje.
Honrando o legado
Onde os laços entre vinho e fé também são mantidos há várias décadas é na Casa Perini, localizada no Vale Trentino, no interior de Farroupilha. João Perini, descendente de imigrantes italianos, deu início à produção artesanal em 1929, e a vinícola em si foi fundada quatro décadas depois pelo filho Benildo Perini, que herdou e mantém os conhecimentos do vinho canônico e o compromisso com a igreja.

Essa história está presente no rótulo do vinho de missa, que leva a marca Jota Pe. A composição do produto é majoritariamente de uva moscato, acompanhada de em torno de 5% de alicante bouschet, o que dá uma cor âmbar à bebida — a especificação segue como rosado.
O diretor da vinícola e sommelier Pablo Onzi Perini assinala que a graduação alcoólica é de 18%, classificando-o como um fortificado e licoroso, com sabor adocicado — uma das características mais marcantes da bebida litúrgica.
— Desde a seleção da uva pegamos grãos num ponto de maturação mais elevado, com açúcar natural e mosto mais concentrados. Adicionamos o álcool vínico, interrompendo uma possível fermentação, fazendo com que pare nos 18 graus de álcool. Dessa maneira, o álcool somado à frutose operam como conservantes naturais — salienta.
Pablo Perini acrescenta que a adição do álcool vínico, que também é armazenado por um período em barricas, agrega nuances de sabor, como figo seco, damasco, uva passa, caramelo e especiarias, e de textura, como maciez e untuosidade.
De acordo com o gestor, a vinícola envasa até 10 mil garrafas de 500ml do vinho canônico por vez:
— Se falarmos em números, representa menos de 0,5% da produção, não é um vinho que pensaríamos em elaborar. Mas há apreço, paixão e honra tão grandes pela história do nono João, que fazia o vinho de missa no porão da casa, e um regozijo com a comunidade católica, que vamos permanecer produzindo com orgulho o vinho canônico.
As outras duas vinícolas habilitadas pela Diocese de Caxias para a produção do vinho de missa são a Salton, de Bento Gonçalves, e a dos Frades Capuchinhos, de Vila Flores.

