
Na BR-470, no principal acesso a Carlos Barbosa, uma placa indica que quem entra ali acessa a Capital Nacional do Futsal. Com sete títulos da Copa Libertadores, o último conquistado neste ano, a ACBF faz a cidade ser reconhecida internacionalmente pelo esporte e é apenas um dos cerca de 30 exemplos de municípios da Serra que se intitulam "capitais" das mais diferentes vocações.
Em junho, o colunista de GZH Fabrício Carpinejar precisou de duas publicações para listar as mais de cem cidades gaúchas que carregam o título de serem capitais do que fazem de melhor.
"Os municípios gaúchos não esperam que alguém descubra suas qualidades, elas já estão expostas no portal de entrada", diz o artigo que exalta o orgulho das cidades pelos produtos que as fazem serem lembradas.
É o caso também dos rodeios de Vacaria, do vinho de Bento Gonçalves e do basalto de Nova Prata. Há exemplos ainda mais curiosos, como o da pequena André da Rocha, cidade com a menor população do Estado que foi reconhecida como Capital Nacional do Gado Devon. Isso por causa da excelência genética e por atuar, desde 1912, como um dos principais polos de melhoramento da raça de corte no país.
Para o coordenador do curso de Turismo da UCS, professor Maguil Marsílio, os selos criam motivos para a visitação, mas é preciso tomar cuidado para que não entrem em conflito de interesses:
— O turismo é feito de motivações. Ser referência em algo ativa uma motivação extra para que as pessoas visitem os locais. O selo dá eco às cidades, e na Serra motivam eventos já consagrados que atraem os turistas, mas é importante que os municípios conversem para que essas motivações não entrem em conflito e prejudiquem a captação do público.
E é então que entram as variações. Introduzida na Serra pelos imigrantes italianos, a uva credencia ao menos quatro cidades a serem referências nos seus derivados. Se Bento Gonçalves é a Capital Brasileira do Vinho, Garibaldi é a do Espumante. E Flores da Cunha, que abriga quase 6 mil hectares de vinhedos, avança com um projeto de lei na Câmara dos Deputados para ser a Capital Nacional da Vindima.
O projeto é muito parecido com o que reconheceu, em 2019, Farroupilha como Capital Nacional do Espumante Moscatel. A cidade é a maior produtora de uvas moscato e se orgulha da Indicação Geográfica que garante a procedência e reconhece a qualidade da bebida produzida por 12 vinícolas.
O selo foi conquistado em 2015 e, atualmente, a Associação de Vinícolas de Farroupilha (Afavin) trabalha para garantir a Denominação de Origem que irá validar ainda mais a bebida produzida no município.
O reconhecimento, segundo a presidente da entidade, Natália Taffarel, possibilitou que novos produtos turísticos fossem criados a partir do moscatel. Fundada em 2024, a Rota Terra do Moscatel conecta as vinícolas de Farroupilha para que o turista compreenda o terroir que deu origem ao título de capital. Anualmente, a Afavin também promove o Festival do Moscatel, que se tornou um produto turístico e dá ainda mais sentido ao nome que a cidade carrega.
— Tudo corre junto, ter o selo de capital traz garantia de que fazemos a coisa certa. Temos muito orgulho de tudo isso, inclusive da variedade moscato branco que origina boa parte dos espumantes da região. É uma uva bem exclusiva e que com certeza faz o nome de Farroupilha ir mais adiante — diz Natália.
Turismo de compras
Há cidades que por serem referência no que produzem carregam dois produtos na mesma capital. É o caso de Guaporé, que tem a sua história ligada à produção de joias e, já há três décadas, por conta da grande produção a partir dos anos 1990, incorporou a lingerie no nome.
— É que os produtos se relacionam e atingem um mesmo público, quando revendedores passaram a oferecer também a lingerie, o mercado que já estava estabelecido incorporou muito bem. A semijoia foi um braço forte no princípio — adianta a empresária Loivane Dal Sant, pioneira na confecção de lingeries.
Em 1909, o ourives João Pasquali inaugurou o que viria a ser um dos grandes setores da economia municipal. Atualmente, segundo o presidente dos Sindijoias, Auri Malacarne, mais de 250 empresas produzem semijoias no município.
— Da primeira empresa, e ao passar das gerações, se derivaram outras. Em 1970, antes do folhado a ouro, veio o chapeado que fazia a matéria-prima render mais. Essa técnica fez a produção e as vendas explodirem a ponto de Guaporé ser referência — diz.
Foi junto da irmã, sócia até os dias de hoje, que Loivane criou uma das primeiras confecções de lingeries de Guaporé — atualmente são mais de 150 fábricas — que credenciam Guaporé também como Capital da Lingerie.
— Um movimento pequeno numa tentativa de criar renda própria fez a cidade evoluir e oportunizar muitas pessoas a viver, direta ou indiretamente, desse segmento — diz.
Patrimônio imaterial
Diferentemente de um produto, Serafina Corrêa detém o título de ser capital de um patrimônio imaterial. É a preservação de um idioma tradicional que faz o município de 17 mil habitantes ser a Capital do Talian.
Em 2009, a cidade foi a primeira — hoje são 34 — a decretar o Talian como língua cooficial do município. Em 2014, quando a forma de falar se tornou um idioma reconhecido pelo Iphan e pelo Ministério da Cultura, Serafina Corrêa já estava à frente e pôde então colocar um alfinete no mapa e placas na rua.
"Qua se parla la léngua Talian", diz uma delas instalada em frente ao monumento La Nave Degli Immigranti, um dos mais representativos da imigração italiana no Estado.
— A imigração originou a cidade e o Talian está presente no cotidiano dela. O idioma está ligado a quem somos enquanto município. Temos a responsabilidade de ser um exemplo para outros, fomos o primeiro a decretar o idioma como cooficial e puxamos a fila de tantos outros — lembra a professora de Talian Adriana Sabadini.
A lista das capitais
- André da Rocha: Capital Nacional do Gado Devon
- Antônio Prado: Capital Nacional da Massa
- Bento Gonçalves: Capital Brasileira do Vinho
- Bom Jesus: Capital Nacional do Tropeirismo
- Cambará do Sul: Terra dos Cânions
- Campestre da Serra: Capital Gaúcha da Amora
- Canela: Capital Nacional dos Parques Temáticos
- Carlos Barbosa: Capital Nacional do Futsal
- Caxias do Sul: Capital Nacional dos Centros de Tradições Gaúchas
- Farroupilha: Capital Nacional do Espumante Moscatel
- Fagundes Varela: Capital Estadual do Torresmo
- Garibaldi: Capital Brasileira do Espumante
- Gramado: Capital Nacional do Chocolate Artesanal
- Guabiju: Capital Nacional do Guabiju
- Guaporé: Capital da Lingerie e das Joias Folheadas
- Ipê: Capital Nacional da Agricultura Ecológica
- Jaquirana: Capital da Madeira
- Muitos Capões Capital Estadual do Pinhão
- Nova Petrópolis: Capital Nacional do Cooperativismo
- Nova Prata: Capital Nacional do Basalto
- Nova Roma do Sul: Terra das Pontes
- Pinto Bandeira: Capital Estadual do Pêssego
- São Francisco de Paula: título simbólico de capital do pinhão durante a tradicional Festa do Pinhão
- São Marcos Capital dos Caminhoneiros
- Serafina Corrêa: Capital Nacional do Talian
- Vacaria: Capital Nacional dos Rodeios Crioulos
- Veranópolis: Terra da Longevidade
- Vila Flores: Capital Nacional do Filó Italiano


