
Embargado desde dezembro do ano passado, o Vale dos Falcões, em São Francisco de Paula, passa por um processo gradual de retirada das aves mantidas no empreendimento. A medida é conduzida pelo Ibama, que aponta falta de licenciamento ambiental e irregularidades na manutenção dos animais.
A operação mais recente ocorreu em 27 de agosto, quando um grupo de aves foi removido e encaminhado para instituições autorizadas a recebê-las. Por questões de segurança, o Ibama não divulga os locais de destino. Entre as espécies apreendidas estão falcões-de-coleira, gaviões-asa-de-telha, corujões-orelhudos, falcões-de-peito-laranja, entre outros.
Segundo a superintendente estadual do Ibama no Rio Grande do Sul, Diara Maria Sartori, as transferências começaram entre março e maio deste ano. Nesse período, nove harpias deixaram o empreendimento. As aves integram uma investigação da Polícia Federal relacionada à destinação de animais silvestres.
Atualmente, 11 falcões e cinco gaviões permanecem no local sob responsabilidade do proprietário, na condição de fiel depositário. De acordo com o Ibama, os espaços que receberão esses animais já foram definidos e a remoção depende apenas da logística de transporte.
— Como eram muitas aves e os espaços de destino precisam atender exigências legais, o processo demandou tempo. Também foi necessário organizar o transporte e adotar protocolos para evitar riscos sanitários aos plantéis que receberão os animais — explica Diara.
Empreendimento foi alvo de operação da Polícia Federal
Inaugurado em 2021, o Vale dos Falcões foi criado com a proposta de promover educação ambiental e apresentar ao público espécies como falcões, gaviões, corujas, águias e urubus.
No mesmo ano, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema) autuou o empreendimento e determinou medidas cautelares após identificar irregularidades durante uma fiscalização. Na ocasião, Gustavo Trainini, proprietário do Vale dos Falcões, também foi notificado para regularizar o licenciamento ambiental.
Conforme a Sema, o Vale não tinha autorização para operar o conjunto de atividades oferecidas ao público, como visitação, trilhas, demonstrações de falcoaria e comércio de animais silvestres. Segundo o órgão, a única atividade autorizada era a comercialização de aves de rapina, posteriormente suspensa em razão das irregularidades que teriam sido constatadas.
Os indícios levantados pela fiscalização foram encaminhados ao Ibama e à Polícia Federal e passaram a integrar a Operação Celeno, deflagrada em dezembro de 2024. A investigação apura um suposto esquema de desvio de animais silvestres do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama e fraudes em sistemas de controle da fauna.
Entre os investigados está Trainini. Segundo a Polícia Federal, ele teria sido beneficiado pelo recebimento de harpias oriundas do Cetas sem a documentação adequada. Ele foi indiciado por manter animais silvestres em cativeiro sem autorização ou em desacordo com a licença obtida, além de descumprimento de obrigação ambiental imposta pelo poder público.
Procurado, o Ministério Público Federal (MPF) informou que um inquérito policial que apura os crimes tramita em sigilo.
Proprietário contesta irregularidades apontadas por órgãos ambientais

Conforme Trainini, o Vale dos Falcões atuava com conhecimento e participação de órgãos ambientais em ações de conservação, reabilitação e manejo de aves de rapina.
Entre os documentos apresentados por ele à reportagem e anexados ao processo, estão uma autorização de manejo emitida pela Sema, pedidos de renovação protocolados junto ao órgão licenciador e o Programa Harpias do Extremo Sul, desenvolvido em parceria com a UFRGS, que previa a manutenção de harpias em São Francisco de Paula para fins de reprodução, pesquisa e futura reintrodução da espécie na natureza.
Ele também sustenta que parte dos animais presentes no local não integrava o plantel comercial, mas era composto por aves encaminhadas por órgãos ambientais para reabilitação e posterior soltura.
Trainini contesta as alegações de maus-tratos com base em laudos veterinários produzidos por clínicas particulares em dezembro de 2024, além de perícias realizadas pela Polícia Federal e de um relatório de vistoria da própria Sema em 2025.
Os documentos registram que os animais avaliados apresentavam boa condição corporal, acesso à alimentação e água, recintos considerados adequados e ausência de sinais compatíveis com maus-tratos. Segundo ele, o conflito com os órgãos ambientais está relacionado principalmente a questões de licenciamento e autorização de manejo.
— Nós passamos por três perícias, duas perícias da Polícia Federal e uma perícia do Ibama e da Sema juntos. São três perícias dizendo que os animais não estavam sofrendo maus-tratos — afirma.
O proprietário também afirma que protocolou o pedido de renovação da autorização de manejo antes do vencimento do documento, em 2023, mas que não recebeu retorno da Sema.
— Essa autorização de manejo nós solicitamos a renovação dela em abril de 2023, sendo que ela vencia em junho de 2023. Não é que eu não consegui, mas a Sema nem me respondeu — diz.
Conforme ele, a defesa atua na Justiça para tentar reverter o embargo no empreendimento. Desde então, o espaço deixou de realizar apresentações e passou a ter o plantel gradualmente transferido para outras instituições.




