
O desfile do Dia da Independência, na última segunda-feira (7), foi marcado por uma emoção especial para alunos e professores da Escola Estadual Santa Catarina, em Caxias do Sul. Depois de oito anos sem participar da programação, e com apenas dois meses de ensaios, a banda marcial da escola voltou à avenida. Entre os 32 integrantes estavam estudantes que nunca haviam tocado um instrumento e antigos componentes que retornaram para ajudar a formar uma nova geração.
A retomada começou neste ano, quando a diretora Flávia Schefelbanis, 57 anos, buscou pessoas que pudessem ajudar na reativação do grupo. A coordenadora da banda, Luciana Alves, 50, e o funcionário da escola André Machado Mendes, 60, foram os primeiros parceiros. A escola divulgou o projeto nas redes sociais e também convidou os alunos em sala de aula. Cerca de 40 demonstraram interesse inicialmente.
Aos poucos, os antigos integrantes também começaram a aparecer. Os ensaios foram marcados para os sábados pela manhã. A falta de um maestro não impediu o retorno: os músicos mais experientes assumiram a tarefa de orientar os iniciantes.
— A ideia foi colocar um veterano (ex-integrante) em cada instrumento. Os que estavam começando acompanhavam esse veterano e tinham todo o suporte para aprender — explica a coordenadora Luciana.
— Cada um adotou um grupo, em todos os sentidos. Do educar no sentido de ter postura, cuidar do material e vir aos ensaios. Então, esse entrosamento foi muito bom — complementa a diretora Flávia.

O trabalho também contou com a ajuda do músico Fábio Gomes, integrante da banda marcial do Cristóvão de Mendoza e que já tocou na banda do Santa Catarina, que se ofereceu para auxiliar com as partituras.
— Nós criamos essa amizade e quando o Fábio viu que a banda ia retornar, prontamente se ofereceu para nos ajudar. A música é isso, serve também para unir as pessoas — relata Luciana.
O último desfile da banda marcial do Santa Catarina havia sido realizado em 2018. No ano seguinte, as atividades ainda continuaram até o fim do ano, mas a pandemia interrompeu a rotina do grupo. As dificuldades financeiras também pesaram para que a banda não fosse retomada nos anos seguintes.
Uma história de 30 anos
A banda foi criada em 1996 e, inicialmente, era uma fanfarra formada por 16 alunos e apenas instrumentos de percussão. Em 1998, passou por uma reestruturação com a chegada do maestro Luiz Severo Bocchese, que morreu em 2021, vítima da covid-19.
Foi Bocchese quem ajudou a transformar o grupo em uma banda marcial, introduzindo instrumentos de sopro e um repertório que incluía temas de filmes e pop rock. O uniforme em estilo marinheiro e os óculos escuros usados pelos integrantes também se tornaram marcas da banda.
— Foi uma das primeiras bandas do Rio Grande do Sul a implantar o pop rock. Após essa iniciativa do maestro Bocchese foi quando a banda começou a deslanchar — lembra Luciana.
A banda marcial completa 30 anos de história em outubro. Quando a escola decidiu retomar o grupo, havia ainda a dúvida sobre as condições dos instrumentos que estavam guardados. Para a alegria de todos os integrantes, os equipamentos estavam conservados e voltaram a ser utilizados.
Atualmente, a banda conta com bumbo, bombo leguero, caixa, lira e prato, além de trompete, trombone, bombardino, tuba e escaleta. A próxima etapa é buscar um maestro que possa ampliar o repertório e orientar os estudantes.
— Nós temos um repertório enorme, e para passar esse repertório é importante o maestro para guiar o pessoal e aumentar o repertório, ensinar a ler partituras, porque nós queremos participar de mais eventos — explica Luciana.

A emoção da primeira experiência
Entre os novos integrantes está Oscar Aguirre, 16, aluno do 1º ano do Ensino Médio. Natural da Venezuela, ele chegou ao Santa Catarina neste ano e nunca havia tocado um instrumento. A decisão de entrar para a banda veio da curiosidade que carregava desde criança, quando assistia a séries sobre fanfarras e grupos de torcida. Ao descobrir que a banda seria reativada, decidiu participar.
— No início do ano falaram que a banda ia voltar, aí eu falei: “Então bora”. Eu já tive interesse na hora, mesmo não sabendo nada de música — lembra o jovem.
Oscar escolheu a lira, instrumento que o atraiu pelo som. Em pouco tempo, conseguiu aprender as notas e acompanhar os demais integrantes.
No dia do desfile, a experiência inédita trouxe ansiedade. O estudante conta que não conseguiu nem dormir na noite anterior.
— Realmente foi muita ansiedade e muita emoção. É muito nervosismo, mas foi legal, eu me diverti bastante. Depois, foi choro, emoção e agradecimento — lembra Oscar.
A apreensão também tomou conta da diretora Flávia. Para ela, o retorno representava a recuperação de uma tradição importante para a escola e para a comunidade.
— Aquele dia eu já não dormi. Eu estava nervosa, nervosa, nervosa, mas quando eu vi eles já com a roupinha, ensaiando, pensei: vai dar tudo certo. Eu sempre digo: a banda tem um nome a zelar. Nós temos que fazer o melhor possível, sempre o melhor.
Mistura de nostalgia e emoção
Luciana Alves, que entrou para a banda em 2011, acompanhando os filhos, também se emocionou depois do desfile desta semana.
— Quando terminou o desfile eu fui conversar com eles e comecei a chorar. É uma emoção, porque a gente gosta de verdade, a gente faz de coração, não tem explicação. Então, ver a banda retornando, depois de tantos anos parada, é uma mistura de nostalgia com emoção.
A direção da escola diz que a intenção agora é manter a banda ativa e ampliar sua participação na rotina escolar. Mais do que preparar os estudantes para apresentações, Flávia vê no grupo uma forma de fortalecer o vínculo dos jovens com a escola.
— É acolhimento, é pertencimento à escola. Estamos tentando esses meios para que eles se envolvam com outras atividades e se sintam pertencentes à escola — finaliza a diretora.



