
Eles aprendem rápido e sozinhos, hiperfocam em um assunto, estudam até dominá-lo e costumam estabelecer um padrão muito alto para si mesmos. A superdotação é uma condição neurodivergente complexa, que vai muito além de apenas tirar boas notas ou ter um QI elevado, e envolve também aspectos emocionais e comportamentais.
Entender sobre isso depois de adulto não costuma ser um processo fácil, a começar por onde encontrar o diagnóstico, que deve ser feito por uma equipe multidisciplinar de neuropsicólogos, psiquiatras e pedagogos.
Para ajudar a população a entender um pouco mais sobre o tema, ocorre, a partir deste sábado (8), em Caxias do Sul, a Semana Municipal de Altas Habilidades e Superdotação (veja mais abaixo). No sábado mesmo terá o 2º Seminário de Altas Habilidades e Superdotação da Serra Gaúcha, no Teatro Municipal Pedro Parenti, mas que já está com inscrições esgotadas. O encontro vai abordar temas como autismo e dupla excepcionalidade, Plano Educacional Individualizado e aceleração de estudos.
Uma das palestrantes do seminário é a pesquisadora caxiense Patrícia Neumann, também psicóloga, filósofa e mestra em educação. Ela é superdotada, condição que descobriu aos 26 anos, e alerta que os comportamentos dos neurodivergente são, muitas vezes, interpretados de uma forma equivocada:
— O primeiro ponto depois do diagnóstico é a reorganização da identidade pessoal. As pessoas podem dizer que o superdotado é exagerado, complicado ou muito exigente, mas ele passa a compreender a origem e as causas disso. Então não é que eu seja exagerada, eu sou uma pessoa muito mais sensível que as outras, muito mais intensa e profunda. É difícil para o outro interpretar isso. Não é somente a questão de inteligência, é como a pessoa funciona com a sua inteligência. E cada um, a partir do diagnóstico, pode procurar, ou não, uma terapia, algum tratamento que o ajude.
A partir dessa percepção e de estudos na área, Patrícia conseguiu auxiliar a caxiense Aline Lenzi, que começou a querer entender sobre as altas habilidades depois que viu que o filho, na época com três anos, aprendeu a ler e escrever em 15 dias. Depois de uma pós-graduação em psicopedagogia, Aline se tornou especialista no tema, enquanto ela mesmo era diagnosticada com altas habilidades, assim como o filho.
— É diferente quando descobrimos as coisas já adultos porque passamos toda a vida superando dificuldades. Todo adulto superdotado tenta se normalizar e se adequar ao longo da vida. Você vive numa intensidade que os outros não acompanham, isso muda os relacionamentos. Quando você sabe que você funciona diferente, você passa a enxergar o meio de forma diferente.
Matriculada em 16 disciplinas do mestrado, Aline agora entende o por que da sua facilidade em aprender. No entanto, a cobrança excessiva, que ela credita à superdotação, é a parte mais difícil de lidar:
— A intensidade de quem vive três disciplinas é a mesma para mim que faço 16. Eu funciono diferente: preciso de atividade, para mim o tempo de tédio é insuportável. Se eu fizesse menos disciplinas, minhas notas seriam mais baixas.
A programação em Caxias
A Semana Municipal de Altas Habilidades e Superdotação se inicia no sábado com o seminário que já tem vagas esgotadas. Na segunda-feira (10) ocorre a gravação, com plateia, do programa Roda de Saberes, às 14h, na TV Câmara.
Na quarta-feira (12), o Instituto de Superdotação e Altas Habilidades da Serra Gaúcha vai usar a Tribuna Livre da Câmara Municipal de Caxias do Sul, às 8h30min.
Ainda na quarta, às 19h, ocorre a audiência pública Presente e futuro da superdotação em Caxias do Sul, no plenário da Câmara Municipal, com a participação de representantes da educação, entidades especializadas, famílias e instituições públicas.



