
Mais de um mês depois da inauguração, a Ciclovia Desvio da Cerveja, em Farroupilha, começa a mostrar que a obra pode ter um efeito que vai além da mobilidade. Nos fins de semana de tempo bom, o movimento de ciclistas e pedestres já chama a atenção de quem vive ou mantém negócios às margens da VRS-813. O desafio agora é transformar o trecho de mais de oito quilômetros em uma rota turística consolidada, conectada a outros municípios e capaz de movimentar diferentes atividades econômicas.
A ciclovia liga a região do Desvio Blauth, em Farroupilha, a áreas próximas de Garibaldi e Carlos Barbosa. Com mais de oito quilômetros, a estrutura é, de acordo com o Executivo, a segunda maior do Rio Grande do Sul, atrás apenas do trecho que liga Estrela e Colinas, no Vale do Taquari. A obra recebeu R$ 3 milhões do governo do Estado e quase R$ 5 milhões da prefeitura de Farroupilha.
Para o prefeito de Farroupilha, Jonas Tomazini, a obra representa uma oportunidade de tratar o turismo de forma regional. A ciclovia ainda não faz a ligação completa com a estrutura existente em Carlos Barbosa, mas há um projeto para um trecho que poderá aproximar os municípios.
— Ter uma forma de integração com os municípios próximos é bastante importante. Essa ciclovia tem mobilidade, resgate histórico, saúde, esporte e convivência das comunidades. Assim como lá atrás o trem propiciava que as pessoas chegassem ao Desvio Blauth para um destino turístico, agora a ciclovia pode fazer com que muitas pessoas cheguem a esses espaços por uma nova forma de mobilidade — afirma o prefeito.

Do veraneio ao roteiro cervejeiro
A conexão com a história é parte importante da proposta. O Desvio Blauth recebeu esse nome no início do século 20, quando um desvio ferroviário era utilizado para o carregamento de madeira produzida por uma serraria da família Blauth. Com a chegada de passageiros de trem vindos de Porto Alegre, a região também se transformou em destino de veraneio.
Entre as décadas de 1910 e 1950, o antigo Veraneio Blauth & Haupt recebia famílias durante os meses de verão. O complexo tinha chalés, restaurante, quadra de tênis, passeios a cavalo e outras atrações. A expansão das estradas para o Litoral, a partir de 1936, contribuiu para a mudança do fluxo turístico, até o encerramento das atividades do veraneio, em 1951.
Descendente das famílias Blauth e Haupt, Rafael Haupt Canziani, 50 anos, cresceu ouvindo e pesquisando essa história. Fundador da Blauth Bier, idealizador da Ciclovia VRS-813 e do roteiro turístico Desvio da Cerveja e presidente da Associação de Desenvolvimento Turístico VRS-813 – Desvio Blauth, ele vê na nova estrutura uma maneira de manter esse patrimônio presente.
— Eu recebo essa história quase como um legado e me sinto lisonjeado e agradecido. Então foi uma maneira de pegar tudo o que foi feito no passado e levar adiante, para não ser esquecido. A ciclovia ajuda justamente a fazer essa conexão entre o que a região foi no passado e o que ela pode ser daqui para frente — destaca Canziani.

Mais atrativos, mais visitantes
A ideia de unir os municípios por meio do cicloturismo surgiu justamente dessa tentativa de romper as fronteiras administrativas. Canziani conta que, ao ser convidado para participar de um roteiro cervejeiro em Carlos Barbosa, percebeu que uma conexão cicloviária poderia integrar diferentes atrações da Serra. O projeto que elaborou previa uma ligação entre Carlos Barbosa, Garibaldi, Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves, Caminhos de Pedra, Caravaggio, Salto Ventoso e o Desvio Blauth, formando um circuito regional.
Na área da atual ciclovia, quatro cervejarias fazem parte do roteiro: Guarnieri, Nahualli, Blauth e Santa Madre. A proposta, porém, não se limita à bebida. Gastronomia, hospedagem e outras atividades também são apontadas como peças para ampliar a permanência dos visitantes.
— A ligação entre as cervejarias pode abrir oportunidades para muitas coisas, como locação de veículos elétricos para passeios, por exemplo. É um turismo emergente e a gente está trabalhando para desenvolver isso. O próximo passo é melhorar a estrutura como um todo, com manutenção do asfalto, segurança, comunicação e embelezamento das vias, além de trazer empreendedores para hospedagem e gastronomia — comenta Canziani.
A movimentação já começa a ser percebida por quem está instalado no trajeto. É o caso do empresário Alexandre Moroni Grazziotin, o Bulin, 48, sócio-proprietário da cervejaria Santa Madre. O empreendimento está na região há cerca de dois anos e meio e, segundo ele, a possibilidade de integrar o roteiro foi considerada na escolha do local.
Mais do que contar com novos clientes, a expectativa, segundo ele, é de que o crescimento do número de atrativos ajude a criar um circuito capaz de manter o visitante na região por mais tempo.
— O turismo é feito de atrativos. Quanto mais atrativos você coloca em uma rota, mais pessoas vão querer vir para conhecer. Hoje já temos café, cerveja e outros modelos de negócio, então é um roteiro que tem diferentes possibilidades. A ciclovia tem um potencial gigante, mas agora é preciso divulgar cada vez mais para que as pessoas conheçam e venham aproveitar — afirma Bulin.

Segundo o prefeito Toamazini, alguns estabelecimentos já abriram ou passaram por reestruturações ao longo do trajeto. A avaliação do município é de que o cicloturismo pode gerar impacto econômico justamente por levar o visitante a consumir em diferentes pontos do percurso.
O próximo passo, segundo a prefeitura e os representantes do roteiro, é ampliar as conexões. Carlos Barbosa já possui trechos de ciclovia, mas ainda falta uma ligação para integrar as estruturas.
Para Canziani, a intenção é que, no futuro, o visitante tenha à disposição não apenas um caminho para pedalar, mas uma rede de experiências ligando diferentes pontos turísticos da Serra.
— Eu enxergo particularmente de Farroupilha até a ligação dos municípios vizinhos, Carlos Barbosa e Garibaldi, como algo que pode ser explorado gastronomicamente, com hotelaria e outras experiências. Conforme isso vai rodando, vai ganhando força. A gente está construindo essa comunicação entre os empreendimentos e os municípios para que o roteiro possa crescer como um todo.
