
Saber o quanto uma empresa emite de gases de efeito estufa (GEE) deixou de ser apenas uma iniciativa ligada à sustentabilidade e caminha para se tornar uma exigência regulatória. Com o avanço da implementação do mercado regulado de carbono no Brasil, diversos segmentos industriais deverão passar a monitorar e reportar suas emissões nos próximos anos.
De olho nesse cenário, o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul (Simecs) abriu inscrições para uma nova edição do Projeto Baixo Carbono, que subsidia a elaboração de inventários de gases de efeito estufa para indústrias da região.
Atualmente, está em consulta pública uma proposta do Ministério da Fazenda, que define os setores que deverão iniciar o monitoramento de emissões a partir de 2027. Entre eles estão papel e celulose, ferro e aço, cimento, alumínio primário, exploração e produção de petróleo e gás, refino e transporte aéreo.
Projeto irá subsidiar inventários de emissões
Empresas de pequeno, médio e grande portes dos segmentos metalmecânico, automotivo e de materiais elétricos instaladas em Caxias do Sul e em outros 16 municípios da região (veja quais são abaixo) podem aderir ao Projeto Baixo Carbono 2026.
A iniciativa é realizada pelo Simecs, em parceria com o Sistema Fiergs e terá execução técnica do Senai. As empresas participantes receberão um inventário das emissões de gases de efeito estufa geradas ao longo de 2025, além de um diagnóstico individualizado sobre oportunidades de redução dos impactos ambientais.
O programa contempla ainda a elaboração de um Plano Estratégico de Descarbonização, capacitações, apoio na busca por linhas de financiamento verde e incentivos fiscais. As inscrições permanecem abertas até 30 de agosto. O investimento é de R$ 1,5 mil para empresas associadas ao Simecs e R$ 3 mil para não associadas.
Cidades participantes
- Caxias do Sul
- Carlos Barbosa
- Cotiporã
- Garibaldi
- Fagundes Varela
- Farroupilha
- Flores da Cunha
- Guabijú
- Nova Pádua
- Nova Prata
- Nova Roma do Sul
- Protásio Alves
- São Marcos
- São Jorge
- Veranópolis
- Vila Flores
- Vista Alegre do Prata
Ganhos em eficiência podem superar 30%
Para as empresas, o projeto vai além da mensuração da pegada de carbono. Durante visitas técnicas, especialistas do Senai avaliam equipamentos, processos produtivos e consumo energético para identificar oportunidades de eficiência operacional.
Segundo o presidente do Simecs, Paulo Scopel, a descarbonização pode resultar em ganhos econômicos significativos.
— Essas mudanças não acarretam um grande custo para as empresas. Na verdade, geram economia. Existe uma realidade na indústria brasileira de utilização de máquinas mais antigas, que consomem mais energia e nem sempre apresentam a melhor eficiência — afirma.

A própria empresa de Scopel participou do projeto-piloto realizado pelo Simecs em 2023. Após implementar as melhorias apontadas pelos técnicos, registrou redução de 34% no consumo de energia. Ao todo, cerca de cem indústrias integraram a primeira etapa da iniciativa.
— O segmento industrial da Serra tem muitos clientes na Europa e nos Estados Unidos, que já exigem estudos e mensuração da pegada de carbono. Então, ter esse planejamento impacta diretamente na competitividade. É um futuro que já está acontecendo — destaca.
Mercado regulado de carbono avança no país
A movimentação ocorre em paralelo à implantação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), criado pela Lei do Mercado de Carbono, sancionada em dezembro de 2024.
O objetivo do sistema é estabelecer mecanismos para monitorar e controlar as emissões de gases de efeito estufa no país, além de regulamentar o mercado de compra e venda de créditos de carbono.
Como a regulamentação ainda está em construção, o mercado brasileiro não está plenamente operacional. Atualmente, uma série de grupos técnicos trabalha na definição das metodologias que serão utilizadas para medir as emissões e validar os créditos. Entre os participantes está a professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS) Alessandra Lehmen.
— O mercado surge para mudar a lógica existente hoje, em que a empresa emite para crescer e gerar lucro sem um custo econômico direto associado a essas emissões. O que está acontecendo é a criação de um preço para algo que antes não era precificado — explica.

Segundo a pesquisadora, o principal efeito da regulação deve ser o estímulo à inovação dentro das empresas.
— Quando a emissão passa a ter custo, as empresas ganham incentivo para investir em eficiência energética, novas tecnologias e processos menos intensivos em carbono. Além disso, o mercado regulado pode evitar perdas comerciais para empresas exportadoras — afirma.
Ela cita como exemplo a União Europeia, que já possui um sistema próprio de precificação de carbono e discute mecanismos para cobrar custos adicionais de produtos importados de países sem regulamentação semelhante.
— Temos empresas na região muito bem estruturadas em suas estratégias ESG e climáticas. Vejo a Serra preparada para essa transição — avalia.
O que já se sabe sobre o mercado regulado de carbono
O modelo brasileiro seguirá o sistema conhecido como cap and trade, no qual empresas com maiores emissões terão obrigações de compensação.
Pela legislação, empresas que emitirem mais de 10 mil toneladas de CO₂ equivalente por ano deverão reportar as emissões. Já aquelas que ultrapassarem 25 mil toneladas anuais estarão sujeitas a obrigações adicionais de compensação.
A proposta em discussão no governo federal prevê implementação gradual por setores.
Primeira etapa (2027)
- Papel e celulose
- Ferro e aço
- Cimento
- Alumínio primário
- Exploração e produção de petróleo e gás
- Refino
Segunda etapa (2029)
- Mineração
- Alumínio reciclado
- Setor elétrico
- Vidro
- Alimentos e bebidas
- Química
- Cerâmica
- Resíduos
Terceira etapa (2031)
- Transporte rodoviário
- Transporte ferroviário
- Transporte aquaviário
Cada setor passará por um período de adaptação de quatro anos. No primeiro ano será elaborado o plano de monitoramento; nos dois anos seguintes ocorrerá o levantamento das emissões; e, no quarto ano, será construído o Plano Nacional de Alocação.
Durante esse período inicial, a exigência será apenas de monitoramento e reporte. Não haverá cobrança, metas de redução ou obrigação de compra de créditos de carbono.



